O chamado espiritual de Mãe Rita

Indícios de que deveria ser sacerdotisa do candomblé começaram aos nove anos de idade

Paulo Oliveira

Rita de Cássia Silva Leite, mais conhecida como a ialorixá Rita de Tassytaôô, qualidade de Iansã, cujo nome pode ser traduzido por “mãe da religião que faz flutuar” começou a manifestar seu dom na infância.

A mãe de santo resume a trajetória com uma frase, a princípio enigmática: “Não me deixaram brincar de boneca. O brinquedo foi trocado por um charuto”. Isto porque não foi uma escolha, mas um chamado espiritual.

Rita ainda não tinha noção de que deveria ser feita no santo quando começou a ter visões durante a noite. A mãe dela tentava desconsiderar as manifestações por ser católica fervorosa. Aos episódios, a matriarca se referia como “dodas” (alucinações).

Nessa época, os pais de Rita se separaram. Por ser maltratada, a mãe pegou as três filhas e fugiu para Aracaju, onde se estabeleceu mesmo sem conhecer ninguém. Na capital sergipana, elas foram morar em uma choupana, em uma área de sítios, onde hoje é o bairro Industrial. A pobreza era muita.

Os sinais da mediunidade da menina, aos poucos, se tornavam impossíveis de se ignorar, devido a comportamentos que fugiam da normalidade. Aos nove anos, ela rezava pessoas com um charuto na boca. Hoje, mãe Rita tem a consciência que sua infância foi abreviada para dar lugar à caridade feita pela entidade.

Mãe Rita de Iansã se veste azul e branco para homenagear Iemanjá. Foto: Paulo Oliveira

A resistência da mãe em reconhecer o dom da menina também teria a ver com o fato de a prática ser cercada de preconceito e repressão, o que obrigava os rituais a serem realizados de forma oculta para evitar violência policial. No entanto, a negação resultou em graves problemas de saúde para Rita.

“Eu ficava tão mal que não falava nem me movia, minha saúde só piorava” – contou.

Uma vez, ao chegar do trabalho, a mãe de Rita a encontrou manifestada. Sem saber a quem chamar e acabou pedindo auxílio a uma vizinha, que era filha de santo.

“Eu sei o que é isso”, disse a médium, antes de fazer alguma coisa que Rita não sabe identificar e despachar. A família pensou que o problema estava resolvido. Puro engano. Dias depois, nova manifestação. Dessa vez, a vizinha indicou uma casa de santo, mas a matriarca não acatou a sugestão.

Depois disso, a mãe encontrava Rita incorporada, rezando pessoas e fazendo trabalhos espirituais.

“Eu com nove anos, de charuto na boca. Pense!” – enfatizou.

Para evitar maiores problemas, a menina foi levada a um terreiro, cujo peji (altar das divindades) ficava escondido por trás de uma parede. A entidade que a mãe de santo recebeu disse que Rita tinha um caboclo muito bom.

Ao ouvir isso, a jovem incorporou a entidade. Ela se identificou e começou a trabalhar naquela casa de santo, onde a futura sacerdotisa permaneceu por três anos. O curioso é que não foi necessário fazer o ritual de iniciação para realizar trabalhos espirituais.

Com a morte da primeira mãe de santo, Rita seguiu em frente. E a saúde piorou muito: ela não falava, nem se movia. Diante disso, resolveu procurar ajuda no Ilê Axé Oxumarê, em Salvador. O terreiro da nação Ketu, originária do Benim (antigo Daomé) foi fundado no século XIX (19) e é um dos mais antigos do Brasil.

Feita a raspagem, a mãe da iniciada continuou impedindo que ela praticasse a religião. No entanto, o Caboclo descia, arrumava clientes e fazia caridade. Passados anos, a segunda mãe de santo também faleceu.

Ainda sem autorização para ser zeladora, Rita fazia trabalhos, mas não podia iniciar ninguém. Nova fase de doenças e um novo barracão. Dessa vez a casa de José de Obákossô, um dos títulos de Xangô, referente à sua vitória sobre a morte e a montanha de Kòso.

O itan (mito) revela que, após enfrentar sérias dificuldades, traições e o descontentamento de seu povo em Oyó (reino africano entre a Nigéria e o Benin), o rei decidiu partir para o exílio, acompanhado de Oyá (Iansã), a mulher que mais amou. Na região de Kòso., o rei sobe à montanha e se enforca. No entanto, ele é transformado em orixá e vira imortal.

SOLUÇÃO

Sergipano, radicado no Rio de Janeiro, José de Obákossô voltou para participar da Festa de Xangô em seu estado natal. Rita foi visita-lo. Ainda doente, pediu para que o babalorixá jogasse os búzios, pois ela se considerava uma pessoa de mau augúrio já que todos os líderes espirituais que cuidavam dela morriam:

“Eu acho que eu sou ‘pé na cova’. Todo mundo que se aproxima morre” – desabafou.

O pai de santo fez o jogo e disse-lhe:

“Seu santo quer comer”

Surpresa, Rita de Iansã pediu para que José lhe ensinasse a fazer novas comidas para a yabá porque as que ela fazia não davam resultado. Ele pediu que a iniciada levasse acarajés e um pedaço de bambu para um determinado local.

“Voltei para casa lá nos braços de uma pessoa” – contou.

Preocupada, a mãe de Rita foi falar com José. Soube, através do religioso, que a filha precisava tomar obrigação (renovar o axé e reafirmar os compromissos espirituais). Após o novo ritual, o pai de santo informou que a mãe espiritual dela queria casa.

A mulher não entendeu direito. Ouviu, então, a explicação que a yabá queria ela tivesse um terreiro próprio e ‘raspasse’ (iniciasse) os seus filhos e filhas de santo.

“Você vai se recolher e só saíra daqui quando tiver um cargo” – informou José.

Uma semana depois, Rita deixou o terreiro com a deká (entrega cerimonial de uma bandeja com objetos sagrados, representando o ápice da iniciação e a autoridade concedida a um filho de santo para abrir sua própria casa ou assumir um cargo).

As dificuldades enfrentadas por Mãe Rita só desapareceram definitivamente 20 anos após a abertura do terreiro, que hoje tem 58.

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Legenda da foto principal: Mãe Rita (ao fundo) é a responsável pela festa de Iemanjá, em Aracaju. Foto: Paulo Oliveira

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Leia a cobertura completa:

Dois de fevereiro sergipano O tototó das oferendas É preciso saudar a força de Iemanjá Próxima festa é na Barra dos Coqueiros Baianos vão a Sergipe para homenagear yabá

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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