Terreiro de Aracaju organiza cortejo e lavagem para Iemanjá na orla de um rio há 19 anos
– Paulo Oliveira
Cinco horas de carro e aproximadamente 320 quilômetros separam a Praia do Rio Vermelho, em Salvador (BA), e a orla do bairro Industrial, em Aracaju (SE). Embora os dois locais sejam palcos para os festejos do dia Dois de Fevereiro, dedicado a yabá (orixá feminino) Iemanjá, há muita diferença entre eles.
O que mais me chama a atenção é o fato de os agradecimentos e as oferendas serem oferecidos na beira do mar, na Bahia, enquanto em Sergipe (rio dos siris na língua tupi), isso ocorre a partir das margens do rio que emprestou o nome do menor estado brasileiro.

Desde criança e mesmo após ter morado 16 anos na capital baiana ouvia dizer que Iemanjá, tanto a negra africana de seios fartos e a branca de vestido azul, repaginada pelos portugueses, era a “Rainha do Mar” e não dos rios.
Quando soube que os baianos antes de partirem para a orla diante do Oceano Atlântico passavam no Dique do Tororó para saudar Oxum, a rainha das águas doces, ouvi de uma amiga que isso ocorre porque há conexão entre elas. Na explicação, a lógica é que os rios desaguam nos mares.
Essa versão não explicava, porém, o que acontece na capital sergipana, onde só o rio atende aos devotos de Iemanjá. Foi necessário pesquisar para descobrir que o culto à yabá começou na região de Ibará, próximo à cidade de Abeokutá, na Nigéria. Na África, a yabá é a senhora do rio Ogum e seu nome deriva da expressão iorubá “Yèyé omo ejá”, que significa “Mãe cujos filhos são peixes”, reforçando a ligação com a fertilidade e a proteção da vida que brota das águas correntes.
Além disso, por ser originária de um rio a saudação original para ela é Odò Ìyá, cujo significado é “Mãe do Rio”. Com o tráfico transatlântico de escravizados, a divindade ganhou outra dimensão. Foi assim, que a mãe de todos os orixás mudou os seus domínios. Portanto, não há nenhum problema em homenageá-la no rio e /ou no mar.
Outra comprovação da presença de Iemanjá nas águas doces ocorre com a Yasessu é representada por uma divindade idosa (yagbá) e respeitável, que habita nas águas escuras e tranquilas dos rios.
Essa qualidade de “Mãe das Águas” é mensageira de Olokun, soberano das profundezas do oceano. Ela se movimenta devagar, veste roupas das cores brancas e verde-água. Outras características: é esquecida, ranzinza, tem comportamento instável e não tolera ser interrompida durante suas tarefas.
Esclarecida a primeira questão, o objetivo de vir a Aracaju também tinha o propósito de verificar se a impressão que transparece a partir da cobertura tradicional do Dois de Fevereiro era verdadeira. A de que só haveria celebração na capital baiana. Rapidamente, essa sensação foi por água abaixo.
Logo, descobrimos que Sergipe tinha pelo menos quatro locais, além da capital, onde as celebrações se realizavam: os municípios de Nossa Senhora do Socorro, Itaporanga d’Ajuda (Praia da Caueira), Estância (Praia do Saco) e Barra dos Coqueiros. O último é o único que comemora em data diferente, mais precisamente no dia 28 de fevereiro.
Nas duas primeiras cidades, as celebrações tem a ver com as santas padroeiras dos municípios e o sincretismo religioso (leia a matéria sobre o tema, clicando aqui). As outras são tradicionais áreas de pescadores.
Águas de Yá Ori
Longe de atrair multidão semelhante a que se dirige ao Rio Vermelho, o evento fluvial sergipano é uma realização da Associação Luz do Oriente, entidade de direitos sociais criada a partir do Terreiro Ilê Yà Tassytaôô Ifá Enibalé, ambos comandados por Rita de Cássia Silva Leite, a Mãe Rita de Tassytaôô, personagem fundamental na história do candomblé sergipano.

A ialorixá também é a criadora do evento “Águas de Yá Ori (Mãe de Cabeça)”, que há 19 anos mantém a tradição de realizar cortejos e oferendas na orlinha do bairro industrial, unindo o ato religioso ao fomento da cultura afro-brasileira. A devoção preserva os fundamentos milenares de Iemanjá, yabá originalmente cultuada na Nigéria e no Benin.
A primeira festa para Iemanjá foi motivada pela regência da orixá feminino sobre a filha única da babalorixá, Michele Camila. Mãe Rita, a partir daí, sentiu que deveria organizar um evento em homenagem à yabá. Nove meses depois, ela criou o cortejo que celebra Iansã, a dona da própria cabeça e do terreiro que dirige.
A primeira edição da Lavagem atraiu nove pessoas. Dez, com a fotógrafa que registrou o evento. O bairro Industrial é onde a mãe de santo foi criada e instalou o seu terreiro há 58 anos. Reduto de marisqueira e pescadores, o cais da orlinha foi escolhido como forma de honrar a ancestralidade local.
PREPARAÇÃO
A celebração atual é fruto de três dias de trabalho intenso. Esse período é marcado por uma série de ritos de cuidado, pedidos de proteção e a elaboração de oferendas específicas que unem a devoção a Iemanjá e o respeito a Iansã, a dona da casa.
Um dos pontos centrais da preparação é o pedido de licença e misericórdia a Iansã. Mãe Rita explica que prepara a casa e as oferendas para sua yabá para que nada de ruim aconteça durante o cortejo, que costuma atrair pelo menos 250 pessoas.
Além disso, antes de sair às ruas, é realizado um padê para Exu – sempre o primeiro orixá a ser reverenciado – por ser o senhor absoluto dos caminhos, encruzilhadas e da rua. Ele é a energia que movimenta, conecta o humano ao divino e protege as passagens.
A culinária ritualística é vasta e dividida entre o que é oferecido aos orixás e o que será servido à comunidade após a entrega das oferendas. Para Iemanjá são preparados alimentos como arroz doce, arroz com passas e feijão branco, que são arriados aos pés da divindade antes da festa.
Iansã recebe acarajés e acaçás – massa cozida de milho branco ou arroz, com consistência pastosa e delicada, envolvidos em folhas de bananeira. Esse alimento é fundamental nos rituais, representando a vida e o equilíbrio. A ialorixá ressaltou que “não se pode deixar de pedir licença à mãe (Iansã, no caso).
Antes do cortejo percorrer os cerca de 1,5 quilômetros entre o terreiro e o cais da orlinha é preciso arriar o padê, ritual de agrado a Exu. A oferenda, feita na maioria das vezes com farinha de mesa crua, azeite de dendê, cachaça, mel e água, busca trazer proteção. Dependendo das circunstâncias, o padê também leva alho, pimenta e/ou pedaços de carne.
Já os participantes da celebração, ao voltarem ao terreiro, terão à disposição pratos feitos com peixe, camarão e sururu.

Os preparativos acabaram? Claro que não. Muitas outras coisas são realizadas. A ornamentação do barracão e do andor que carrega a imagem peregrina de Iemanjá inclui o uso de flores tingidas em tons azuis, cor associada à yabá.
Os barcos, que levam as oferendas e presentes, são arrumados cuidadosamente com itens biodegradáveis para garantir que a devoção não contamine o mar ou prejudique a fauna marinha.
O alabê responsável pelos instrumentos musicais lambuza o couro dos atabaques com azeite de dendê para amaciá-los e expandir o som que sairá dos tambores que seguem no alto de um trio elétrico.

Quem coordena os trabalhos de decoração e na cozinha é Michele Camila, mãe pequena (segunda pessoa na hierarquia) do terreiro. Após tudo pronto, ela descreve a emoção de participar da 19ª edição da festa de Iemanjá.
“O sentimento é de coração fora do peito. É uma emoção tão grande que não tem nem palavras para explicar. Gratidão por estar aqui, por estar participando e poder organizar cada detalhe. Já pensou você ter uma festa em homenagem ao seu santo?”.
APOIO LIMITADO E PRECONCEITO
Apesar da importância e dimensão do evento, que hoje atrai mais de duas centenas de pessoas, Mãe Rita lamenta haver apenas apoio limitado para o evento. Ela cita, como exemplo, o da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT), que controla o trânsito durante o cortejo, da Guarda Municipal e do Corpo de Bombeiros, que garantem a segurança. No entanto, o dinheiro gasto na celebração sai da liderança e dos filhos de santo dos terreiros.
A discriminação fica evidente na esfera administrativa. Michele Camila revelou que houve uma tentativa de instalar uma imagem de Iemanjá na orla do bairro Industrial, através de um abaixo-assinado e petições à Câmara, mas o projeto foi engavetado. Mesmo diante dos obstáculos, Mesmo diante dos desafios e do preconceito, Michele e Mãe Rita reafirmam que o legado manterá vivas as tradições de Iemanjá e de Iansã como pilares da Associação Luz do Oriente e do terreiro Tassytaôô
O CORTEJO
A caminhada em direção à orla sai da frente do terreiro às 16h11, com 41 minutos acima do previsto. À frente, segue um trio elétrico com ogãs tocando atabaques e cantando pontos em iorubá. Logo atrás, vem o carro que carrega o andor e a imagem de Iemanjá, enfeitada de flores azuis e brancas.
Os filhos de santo, carregando cestos com oferendas na cabeça, caminham entoando os pontos. Diante deles, uma das duas filhas de Michelle Camila segue em silêncio, representando a “Mão de todos os oris”. Ela usa um “adê” (paramento na cabeça como uma coroa com franjas de pérolas que escondem o rosto, como se fosse um véu). É uma vestimenta típica dos reis iorubás e orixás com características de realeza ou ancestralidade.
A grande maioria dos participantes está vestida com roupas azul e branca para homenagear a Rainha das Águas. Só uma participante usa as cores amarelo e branco, com fio de contas amarelo e traços de azul escuro, representando Oxumarê. Desde o início do trajeto, que passa pela frente do Parque da Cidade, turistas e seus celulares frenéticos buscam capturar as melhores imagens, movimentando-se como minhocas por dentro do cortejo.
O trânsito engarrafa na região por uns trinta minutos. Na chegada à orla, bem debaixo do viaduto João Alves, cerca de 80 pessoas aguardam. São acadêmicos, estudantes universitários, donas de casa e crianças, que demonstram fé e alegria em está aí.

No cais, próximo à embarcação que levará as oferendas do terreiro e de quem mais quiser para duas milhas náuticas adentro do rio Sergipe, os presentes são dispostos em frente aos atabaques. Enquanto soam os chamados aos orixás, os participantes regam as flores com perfume de alfazema. Por um momento, os pontos em iorubá param e canta-se “Canto de Areia”, em nossa língua nativa.
Em seguida, é feita a lavagem da rampa do cais, a colocação dos presentes e o embarque de 40 passageiros – o barco pode levar até 70 ao local do presente, mas limita a lotação. O tototó dá a partida. Lentamente singra as águas do rio. No cais, há quem fique aguardando o retorno. É o começo da espera para a próxima Festa de Iemanjá.
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Legenda da foto principal: Oferendas do terreiro seguem na embarcação Sergipe Star. Foto: Paulo Oliveira
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Leia a cobertura completa:
O chamado espiritual de Mãe Rita O tototó das oferendas É preciso saudar a força de Iemanjá [ Próxima festa é na Barra dos Coqueiros Baianos vão a Sergipe para homenagear yabá
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Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.








