A marisqueira Jaci de Jesus criou 11 filhos, catando crustáceos no manguezal. Até hoje ela depende do mangue
– Paulo Oliveira
Em Terra Caída, povoado de Indiaroba (Sergipe), a vida de Jaci França de Jesus, 63 anos, é regida pelo balanço das marés e equilibrada no emaranhado das raízes aéreas das árvores do mangue. Esse sistema radicular funciona como barreira e refúgio para siris e diversos tipos de caranguejos. É dali que a marisqueira retira o sustento há pelo menos quatro décadas.

Com o que extraiu da lama e das águas, ela criou 11 filhos – seis mulheres e cinco homens. Nos períodos de maior dificuldade, foram os crustáceos que garantiram a sobrevivência.
“Quando as meninas faziam cinco anos, elas iam para a catação. Eu não tinha condições de dar roupa, chinela, sapato, brinco e calcinha” – contou, ressalvando que as filhas não deixavam de ir à escola.
Os crustáceos são até hoje o alimento principal da família França de Jesus na forma de moqueca, refogado, fritada e pastel.
Nos dias atuais, o manguezal continua servindo de alento para 20 netos e bisnetos da catadora.
As longas jornadas, pendurada nas gateiras [1] e a dedicação para capturar os aratus faziam com que Dona Jaci sonhasse frequentemente com os bichos correndo na maré, enquanto ela dava uma carreira para capturá-los.
“Só quem tem coragem mesmo se propõe a enfrentar o mangue” – disse.
Os aratus são caranguejos comuns nos manguezais brasileiros, conhecidos pela agilidade em subir em árvores. Possuem carapaça trapezoidal, cor cinza ou vermelha, e é muito valorizado na culinária litorânea, especialmente em moquecas e farofas. O sabor é diferenciado e rico em nutrientes.
O sucesso da busca depende do ciclo da água. Para o aratu é preciso esperar a maré vazante, quando ele sobe nas raízes, galhos e troncos. Durante esse período, as marisqueiras levam uma varinha de pedaço de pau, linha e iscas. A preferida das catadoras são as tripas de galinha, mais difíceis de serem cortadas pelos crustáceos, que ficam agarrados nela. Também são usadas vísceras, cabeças de peixe, pedaços de gordura e couro de porco.
Para atrair o aratu, as mulheres do mangue costumam fazer um ruído (ú,ú,ú,ú). Esse “chamado” com a varinha serve para simular a queda de folhas. Quando elas caem, o pequeno caranguejo sai de seu esconderijo para recolhê-las e facilita a captura dele.
Já outras catadoras preferem assoviar. A jornada das marisqueiras costuma ser das quatro horas da manhã até às oito horas da noite. O cansaço as deixa sujeitas a acidentes de trabalho.
Dona Jaci, por exemplo, lembra de três. No primeiro, caiu da gaiteira sobre a lama, sofrendo escoriações. No segundo, pisou em algo cortante e feriu o pé. No último, um siri utilizou o garrão [2] (ou a pinça) para morder o dedo indicador da mão dela. Esse crustáceo possui músculos extremamente potentes na base dessa pata.
Quando se sente ameaçado fecha a pinça e não para de apertar. Em situações de estresse, quando a pessoa tenta arrancar a pata à força, o animai realiza a autotomia, mecanismo de defesa que permite a liberação de parte do corpo para fugir dos predadores. O garrão, no entanto, permanece travado e apertando a vítima. Foi o que aconteceu com a marisqueira, que ficou com a mão e o dedo inchados por 15 dias, sem poder trabalhar.
Hoje, Jaci não vai mais para o manguezal. A função de catar aratus e siris no mangue foi herdada por um dos filhos. Ela se limita a extrair a carne dos crustáceos. Para obter um quilo de catado é preciso de 80 a 100 aratus ou de 70 a 90 siris, que são maiores.
O segredo da extração, de acordo com a marisqueira está em bater com uma faca no casco do crustáceo para soltar a carne e retirá-la limpa, sem qualquer pedaço de casca. Se estiver focada, Jaci consegue retirar até um quilo de carne por hora. A produção de dona Jaci e do filho chegam a 30 quilos por mês.
Importante ressaltar que em cidades mais próximas de Aracaju, o aratu está escasso por multifatores. Dentre eles, a degradação e supressão de manguezais, resultante da expansão da carcinicultura (criação de camarões), da expansão imobiliária e da poluição.
Outros motivos são a coleta predatória, que inclui a captura de fêmeas e juvenis, as mudanças climáticas, responsáveis pela alteração e temperatura das marés e pela redução da vazão de rios; a contaminação por agrotóxicos e o desperdício de beneficiamento. Estima-se que são perdidos 30% da carne em processos inadequados de beneficiamento.
Dados oficiais dão conta que a situação da espécie é crítica em Santa Luzia do Itanhy e em declínio em Indiaroba. Diante disso, quilo do catado de siri é vendido a 70 reais para restaurantes da região. Já o preço do quilo do aratu teve um aumento de 37,5% em duas semanas, passando de 80 para 110 reais.
Receita

De todos os pratos feitos com o pequeno caranguejo, a marisqueira prefere a moqueca. Ela explicou que depois de lavar o catado “bem lavadinho”, é preciso escorrer a água na peneira. Depois, prepara o tempero com tomate, cebola, corante, pimentão, alho, cominho e deixa refogar por três minutos.
Misture com meio quilo do catado, mexa o refogado. Em seguida, acrescente extrato de tomate, coentro a gosto, 500 ml de leite de coco, sal e colorau. Quando ferver, mantenha o fogo acesso por dez minutos. Experimente o sal para ver como está o sabor. Acrescente mais se for necessário. Ao atingir o ponto, acrescente cebolinha. Deixe ferver para reduzir um pouco o caldo. Sirva acompanhado de arroz.
Jaci costuma servir a moqueca com arroz. Segundo ela, a diferença entre a moqueca e o refogado de aratu é que a segunda opção não leva leite de coco.
(Continua na próxima semana)
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Notas de pé de página
[1] Gateira é o espaço ou o vão formado entre as raízes aéreas (rizóforos) do mangue. Essas raízes crescem em arco, criando “túneis” ou frestas naturais sob o tronco da árvore. É nestes vãos que os crustáceos, como o aratu e o caranguejo-uçá, buscam refúgio ou cavam suas tocas.
[2] Patas dianteiras, mais robustas e com maior concentração de carne maciça.
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Legenda da foto principal: O aratu é o simbolo de Terra Caída. Há uma escultura do crustáceo no cais do povoado. Foto: Paulo Oliveira
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Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.








