Restaurante famoso por ter criado a empada de aratu atrai artistas, celebridades e turistas
– Paulo Oliveira
No povoado de Terra Caída, em Indiaroba, Sergipe, uma iguaria transformou-se em símbolo de identidade cultural: a empada de Aratu. O que começou como um aprendizado em Santos, há mais de cinco décadas, foi o pilar do Restaurante Ó Pascácio, um negócio familiar que elevou um lanche artesanal à categoria de Patrimônio Imaterial de Sergipe.
A história por trás da famosa massa começou com a inquietação de Pascácio Custódio da Costa, hoje com 90 anos. Antes de se tornar o mestre das empadas, ele entrou para o seminário para ser padre, mas desistiu da vida religiosa porque a paixão pelo carnaval falou mais forte. “Não adiantava ser religioso, porque eu gosto muito da folia”, relembra Pascázio, que fazia até três fantasias para dançar o frevo.

Em busca de novas experiências, ele partiu para Santos, em São Paulo, onde viveu por 18 anos. Foi no Morro São Bento que ele aprendeu a técnica da “massa podre”, um clássico da cozinha brasileira. O nome pode ser estranho, mas a massa é conhecida por sua textura quebradiça, leve e amanteigada, que desmancha na boca. Ela é perfeita para empadas, quiches e tortas salgadas.
Durante o tempo que morou em Santos, o jovem trabalhou em bares, restaurantes e grandes empresas como a Mobi (lubrificantes), onde ocupou funções operacionais e atividades no restaurante da companhia, e a Açúcar União (hoje Camil). Observando os companheiros que dividiam o alojamento, ele aprendeu a fazer a massa de empada.
Ao retornar para Sergipe no início da década de 70, o criador de empada de aratu estabeleceu-se em Terra Caída, em uma época em que o acesso era predominantemente fluvial. O negócio começou como uma mercearia e um barzinho no fundo do povoado.
A grande inovação veio com a adaptação do recheio. A massa, composta por farinha, ovos, sal, manteiga artesanal e banha e um pouco de água, era preservada. Já o recheio incluiu o aratu, crustáceo abundante, na época, nos manguezais da região.
A novidade demorou a ultrapassar os limites do povoado. Somente em 2011, um cliente e amigo de Pascázio, chamado Luiz, teve a ideia de usar a internet para divulgar o quitute. Menos de um ano depois, a empada de aratu ficou famosa no estado e fora dele e foi reconhecida pela Assembleia Legislativa como Patrimônio Imaterial e Cultural de Sergipe.
Como consequência, Terra Caída passou a receber um número expressivo de turistas e as vendas tiveram aumento expressivo. Segundo Hugo Rocha, 49 anos, um dos três filhos de Pascázio que hoje tocam o restaurante de frente para o rio Piauí, muita gente famosa já passou por lá.
Hugo cita a apresentadora Eliana, o cantor Xande de Pilares, jovens atores da novela Malhação e um jogador de futebol do São Paulo, que chegou de óculos escuros e boné para não ser reconhecido. Mas o maior fã do restaurante é o empresário Lauro Menezes, Lauro da (Viação) Bonfim, que costumava ir de helicóptero para a localidade, onde comprava até 300 empadas por vez.

Atualmente, o Restaurante Ó Pascácio, cujo nome no letreiro leva um “s” e não “z” como o nome do fundador por erro de um antigo letrista, tem dois andares e passou por três reformas. Durante o verão são vendidas cerca de 900 empadas por semana, cada uma a R$ 5,50.
Atualmente, além do aratu, são servidas empadas de camarão – a preferida de seu Pascázio – frango, banana da terra com charque e Nutella.
O aratu e os frutos do mar também estão presentes nos pratos servidos no café, no almoço e na janta. Cuscuz com aratu refogado, ovos e pão custa R$ 60 e moqueca de aratu para duas pessoas, R$ 120.Há ainda opções com peixes diversos, ostras, camarão e mariscos.
Embora os filhos gerenciem o dia a dia e a produção, a palavra final sobre a qualidade ainda pertence ao patriarca. Seu Pascázio contou com orgulho que não precisa mais tocar na massa; apenas de olhar, ele sabe se o “ponto” está correto. É essa vigilância rigorosa e o respeito à tradição que mantêm o restaurante como uma parada obrigatória.
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Leia a série completa:
A cadeia produtiva do aratu - A marisqueira Jaci - Parte I A cadeia produtiva do aratu - Pascázio, o rei da empada - Parte II
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Leia a série completa:

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Legenda da foto principal: Hugo e seus dois irmãos são os responsáveis pelo restaurante que ganhou fama com a empada de aratu. Foto: Paulo Oliveira
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Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.








