A cidade com nome de vaqueiro

No segundo bloco da série “Fibra sergipana”, Meus Sertões vai ao extremo oeste do estado

Paulo Oliveira

Simão Dias fica a cerca 100 quilômetros de distância da capital sergipana (Aracaju), no extremo oeste do estado. O nome da cidade é uma homenagem a um vaqueiro e desbravador do século XVII (17) considerado o fundador e primeiro habitante da região.

Há várias pessoas com esse nome, mas entre os historiadores existe o consenso de o pai do vaqueiro era um soldado francês, participante das expedições que desembarcavam na costa sergipana para saquear pau-brasil. De acordo com registros da prefeitura de Itabaiana, o militar teria se envolvido com uma indígena, a mãe de Simão.

O francês, como o menino foi apelidado, nasceu por volta de 1594, na região de Itabaiana. Adulto, trabalhava para o fazendeiro Brás Rabelo. O patrão lhe deu ordens para levar o rebanho de gado que lhe pertencia para um local seguro durante as invasões holandesas

Por volta de 1637, Simão Dias se fixou nas matas próximas ao rio Caiçá, habitadas pelos indígenas da etnia Tapuia. Os integrantes do povo originário eram remanescentes da tribo catequizada pelo jesuíta Gaspar Lourenço. Ele fugiram para Sergipe para escapar da perseguição feita por Luís de Brito, governador da Bahia. Os currais e a residência construídos pelo vaqueiro, aceito pelos indígenas catequisados, deram origem ao povoamento que mais tarde se transformaria na cidade.

Surgiu então a freguesia de Sant’Ana de Simão Dias, posteriormente elevada à província em 1850. À época, o território foi desmembrado do município de Lagarto. Em 25 de outubro de 1912, o nome da cidade foi alterado para Anápolis em homenagem padroeira e à devota que fundou a primeira capela do lugar: Ana Francisca.

Trinta e dois anos depois, o nome original foi restabelecido por força do decreto-lei, criado pelo presidente Getúlio Varga, proibindo a existência de cidades com nomes iguais. Como a Anápolis goiana estava crescendo rapidamente e possuía economia mais forte, baseada na agropecuária e na agroindústria, os sergipanos tiveram que rebatizar a cidade. As autoridades optaram por uma reparação histórica e restituíram o nome original.

No final da década de 1990, o arquiteto simão-diense Alexandre Nascimento Barreto Júnior propôs à prefeitura a criação de um monumento imponente para homenagear o fundador da cidade. Ele também convenceu a direção da empresa Votorantim, que fabricava cal e gesso na região, a bancar a obra do escultor sergipano Jorge Alves Siqueira, conhecido como Zeus.  A estátua feita de concreto e vergalhão foi instalada na entrada da cidade.

A VIAGEM

O encontro com a personagem central do segundo bloco de reportagens da série “Fibra sergipana” estava marcado para às 10 horas. O Nordeste como um todo, o sertão em particular, nos ensina a ter paciência e ser precavido. Por isso, Meus Sertões deixou Aracaju por volta das seis horas da manhã. Tempo suficiente para driblar eventuais contratempos.

Depois de sairmos de Aracaju, passamos ao largo de Itaporanga D’Ajuda e Salgado, onde está localizado um parque aquático que oferece piscinas de água natural e corrente, cachoeira, tirolesa e área para piquenique para quem está disposto a pagar 40 reais (meia) ou 80 reais (inteira) por um dia de lazer.

 

Portal na entrada do povoado Colônia 13. Foto: Paulo Oliveira

Mais adiante fica a Colônia 13, principal povoado de Lagarto, cidade que se autointitula capital do interior sergipano. A história do lugar está fortemente ligada à colonização agrícola e à criação da Cooperativa dos Produtores de Pimentão e Algodão da Colônia Treze (Coopertreze), fundada em 1962. A atividade impulsionou o desenvolvimento econômico e moldou a cultura da comunidade.

O “Casamento do Matuto”, por exemplo, é uma das manifestações mais tradicionais e grandiosas do interior sergipano. A festa começou com uma brincadeira comunitária no período das festas juninas de São João e de São Pedro. Com o tempo, passou a integrar o calendário oficial das festividades do estado, atraindo milhares de visitantes.

O ponto alto do evento é o desfile do matuto, quando cavaleiros, amazonas e carroças ornamentadas percorrem as ruas do povoado. Esta parte é conhecida como “A grande cavalgada”. Consta ainda da programação a encenação cômica do casamento do matuto, shows de forró pé de serra, forro eletrônico e música sertaneja, comercialização de comida típica e pessoas vestidas a caráter (roupas xadrez, chapéus de palha e vestido de chita). A festa impulsiona o comércio e o turismo da região.

Ao chegarmos na rotatória da rodovia SE-270, em frente à unidade do Corpo de Bombeiros, nos deparamos com a escultura que representa dois vaqueiros em ação. O monumento, de autoria do escultor Zé Vasconcelos, foi inaugurado em 28 de agosto de 2026. Ela respalda outro título agregado ao nome de Lagarto, o de Capital Nacional da Vaquejada. Este referendado pela Lei Federal 14.930, sancionada em 22 de julho de 2024.

 

Monumento na entrada de Lagarto, Capital Nacional da Vaquejada. Foto: Paulo Oliveira

A prática do esporte, no qual ajudado por um “bate-esteira” (vaqueiro secundário), o “puxador (vaqueiro principal) tenta derrubar no menor tempo possível o boi na faixa (área demarcada para o animal cair), tem mais de 100 anos. A primeira edição oficial, no entanto, foi registrada no município em 1963.

Não faltam esculturas nas praças do antigo povoado de Santo Antônio, da ex-Freguesia de Nossa Senhora da Piedade e da ex-Vila Nossa Senhora da Piedade de Lagarto. Mas isso é tema de outra reportagem.

Falta uma hora para percorrer 26,5 quilômetros até o centro de Simão Dias. O GPS informa que o tempo estimado para chegarmos é de 34 minutots. Será que a curiosidade permitirá que a equipe de Meus Sertões chegue a tempo?

PONTOS TURÍSTICOS

Não fique tenso, caro leitor. Chegamos no horário acordado e ainda deu para  passearmos  pela cidade.

Simão Dias tem população estimada de 44.708 moradores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É uma cidade de Josés e Marias, sendo que o nome masculino pertence a 3.735 homens, fazendo jus ao significado hebraico de Yosef, que quer dizer “Deus Multiplica”.

Já as Marias, originárias do sânscrito “Maryáh”, são o segundo nome próprio mais utilizado na cidade. Elas são 3.206 pessoas que carregam na identidade a palavra que tem significados diferentes em diversas línguas. O hebraico Miriam quer dizer “vidente” ou “senhora soberana”, o sânscrito “Mariáh”, virgindade, pureza. E o eqípcio “mry” significa amada. A população também é formada por 1.339 quilombolas e apenas 36 indígenas, que já foram maioria naquelas terras.

Economicamente, há apenas 6.561 trabalhadores com carteira assinada. O salário médio mensal é de 2.755 reais para quem os assalariados formais. No entanto, quase a metade da população (48,3%) recebem até 810 reais (meio salário mínimo). Os principais setores econômicos são o comércio (37%), administração pública (35%) e serviços.

 

Plantação de milho. Foto: Paulo Oliveira

A agropecuária representa 15%, sendo que a cidade com nome de vaqueiro se destaca como grande produtor de milho, apelidado de “ouro do sertão”, mandioca, feijão, laranja, maracujá e abóbora. Na pecuária, as criações de bovinos, suínos, equinos e ovinos se destacam. A indústria detém 13% da economia local, impulsionada por fábricas de calçados, móveis e metais. Já a mineração tem como principal empresa a Cal Trevo Industrial, no povoado Apertado de Pedras, produtora de cal e brita. A Cal assumiu as instalações da Votorantim.

A Casa do Artesão Simão-diense, nosso ponto de encontro, fica em um complexo cultural que agrega prédios centenários reformados. Nele também estão localizados o Centro de Memória Digital de Simão Dias Professora Enedina Chagas e o Clube Cultural Caiçara, O Memorial Paulinha Abelha, onde estão expostas roupas de shows, pertences pessoais e uma escultura da artista, ex- vocalista da banda Calcinha Preta, que nasceu na cidade.

Paulinha morreu, em fevereiro de 2022, aos 43 anos, de infecção generalizada. Ela havia sido internada com graves complicações renais, que evolui para um quadro neurológico crítico.

 

Escultura de Paula Abelha no memorial da cantora. Reprodução

O principal cartão postal do município é a Serra do Cruzeiro, onde estão instalados restaurantes e uma casa de shows, além de uma gigantesca imagem de Senhora Sant’ana, uma casa de shows e um mirante panorâmico. O morro tem 450 metros de altura e permite a observação de toda a cidade, já que a cidade é constituída apenas da sede municipal.

 

Vista de Simão Dias do alto do Morro do Cruzeiro. Foto: Paulo Oliveira

Simão Dias é o palco do segundo bloco de matérias da série “Fibra sergipana”. É lá que vive a Joelma Santana, artesã multitalentosa que utiliza a fibra do milho para fazer belíssimas peças que remetem à infância, além de outros temas.

 

Continua na próxima semana

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Legenda da foto principal: A escultura que homenageia Simão Dias foi instalada no final da década de 1990. Foto: Reprodução.

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Leia a série completa – Bloco 1:

A santa peruana que veio parar no Nordeste As preciosidades de Santa Rosa de Lima Uma mulher de fibra

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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