A má conservação do Memorial dos Mártires

Diocese de Barra não nomeia guardião para monumento desde 2021 e mostra descaso com Memorial criado por dom Luiz Cappio.

A bela e pungente estátua de José Campos Barreto, o Zequinha, carregando nas costas o ex-capitão Carlos Lamarca enquanto tentavam escapar da perseguição feita por militares e policiais durante a Operação Pajussara (hoje a grafia correta é Pajuçara), está ofuscada pelo mato alto e pelo pasto em que se transformou o Memorial dos Mártires

Estátua de Zequinha carregando Lamarca. Foto: Meus Sertões

O monumento, inaugurado pelo então bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, no dia 17 de setembro de 2013, exatos 42 anos após agentes da ditadura militar assassinarem os dois integrantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), não tem mais um guardião.

Desde 2021, após a morte por infarto do monsenhor Bertolomeu Gorged, que a diocese de Barra não nomeia ninguém para cuidar do local. Gorged residia no santuário-memorial, na comunidade de Pintadas, em Ipupiara (BA). É famosa a declaração do religioso, na qual ele dizia que se colocou a serviço do monumento para atender os peregrinos que por lá passassem.

“Prometo que sempre terá café no bulo para todos que chegarem” – disse.

Além da estátua dos dois guerrilheiros que lutaram contra a ditadura, o memorial homenageia outras duas pessoas mortas pelos homens comandados pelo então major Nilton Cerqueira e o temido delegado Sérgio Paranhos Fleury. As vítimas foram Otoniel Barreto, irmão de Zequinha, e o professor Luiz Santa Bárbara, que criou uma escola de alfabetização no povoado e um pequeno teatro formado por seus alunos. Santa Bárbara estava hospedado na casa da família Barreto, em Buriti Cristalino, vilarejo de Brotas de Macaúbas (BA).

Para saber mais sobre a Operação Pajussara clique aqui

Josael de Lima: manchas no busto

O monumento também possui os bustos de dois trabalhadores rurais, Josael de Lima, o Jota, e Manoel Dias de Santana, assassinados por grileiros na região, na década de 1980. Todas as imagens apresentam ranhuras ou manchas causadas pelo tempo.

EM BUSCA DOS DESPOJOS

O santuário foi erguido com recursos oriundos do Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, outorgado ao bispo Luiz Cappio, em 2009, pela fundação alemã Immanuel Kant. A láurea foi concedida na terceira edição da premiação que homenageia personalidades que se destacam pelo engajamento e pela coragem na defesa de grupos sociais marginalizados política e socialmente, a favor dos direitos humanos e em defesa das bases sociais, naturais e culturais da vida.

Na mesma cerimônia, foi homenageado Jeff Halper, professor de antropologia e ativista de direitos humanos, que protestou contra a destruição de moradias de palestinos na Faixa de Gaza.

Cavalo passeia pelo Memorial. Foto: Meus Sertões

Além do prêmio em dinheiro a fundação alemã também doou verba para a construção do santuário. O santuário, erguido no local onde Zequinha e Lamarca foram mortos, possui ainda praça, anfiteatro, cantina, playground, fonte luminosa.

Na época da inauguração, dom Luiz Cappio pretendia levar para o memorial os restos mortais de todos os que resistiram à ditadura e dos líderes rurais assassinados por grileiros. No entanto, só os despojos dos líderes camponeses, Manoel Dias e Jota, foram transferidos para lá.

Segundo Olderico Barreto, irmão de Zequinha que foi baleado e torturado em Buriti Cristalino, a família outorgou ao então bispo de Barra todos os poderes para localização e translado dos despojos de Otoniel e José Campos Barreto. No entanto, nem com o apoio da Comissão Nacional da Verdade foi possível materializar esse pleito.

“O cemitério de Campo Santo, no bairro da Federação, em Salvador, onde eles foram sepultados, alegou que já havia sido construído carneiras sobre o lugar onde os corpos tinham sido enterrados. A família de Luiz Antônio Santa Bárbara também não conseguiu cumprir essa meta. A família de Lamarca, no exterior, encaminhou solicitação através do advogado da família, Luiz Eduardo Greenhalgh, que também não conseguiu vencer a barreira burocrática da ditadura” – explica.

Olderico também está preocupado com o abandono do Memorial:

“Tenho imensas dificuldades de locomoção, o que me mantém distante da drástica realidade do Memorial dos Mártires. Além do falecimento do monsenhor Bertolomeu, que habitava no local, fiquei sabendo que Dom Luiz Cappio se afastou da Diocese e da região [1] . Gostaria que a Igreja Católica desse informações sobre o destino do Memorial” – disse.

O SILÊNCIO DO BISPO
Bispo João Batista Alves do Nascimento. Reprodução

Meus Sertões tentou entrar em contato com o bispo João Batista Alves do Nascimento por e-mail e por telefone. No entanto, o redentorista e ex-reitor do Santuário de Bom Jesus da Lapa, não respondeu às perguntas que enviamos. Vale lembrar a congregação tem um carisma claro: trabalhar especialmente com os mais abandonados.

Já o padre Márcio Benevides, da Igreja São João Batista, em Ipupiara, esclareceu que o memorial é de responsabilidade da diocese e não da paróquia. De acordo com ele, infelizmente, nenhum religioso se disponibilizou a assumir a função de guardião, que era de monsenhor Bertolomeu.

Com relação, a má conservação do memorial, a paróquia só manda capinar nas vésperas da Missa dos Mártires, que é realizada no dia 17 de setembro. Ele alega que fica oneroso fazer a limpeza do terreno com mais frequência e que este ano o mato está mais alto porque choveu muito.

O religioso acrescentou que a limpeza da casa onde morou o monsenhor e do salão principal são feitas mensalmente.

Com relação, a não haver cadeado nos portões e a entrada de animais no local, ele disse que o procedimento sempre foi este, pois a ideia é que o espaço ficasse aberto para os visitantes a qualquer hora do dia.

Márcio Benevides está deixando a paróquia, ele será substituído pelo padre José Leandro, que atuava em Xique-Xique (BA), no final de julho. Ele falou que só a diocese pode dar detalhes sobre a conservação dos bustos, da escultura principal e do santuário-monumento.

Monsenhor Bertolomeu no local onde Lamarca e Zequinha foram mortos. Reprodução

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Nota da redação: O dia 17 de setembro é feriado nos municípios de Brotas de Macaúbas e Ipupiara. Desde o ano 2000 são realizadas celebrações em defesa da justiça e da memória dos guerrilheiros mártires e de lideranças camponesas que tombaram na defesa dos direitos humanos.

Nota da redação 1: A qualquer momento que o bispo João Batista Alves do Nascimento queira explicar o que está acontecendo no Memorial, nós publicaremos.

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Nota de pé de página

[1] No dia seguinte a passagem do cargo para o bispo João Batista Alves do Nascimento, em 2023, dom Luiz deixou a diocese durante a madrugada e mudou-se para o Eremitério Beato Egídio de Assis, em Rodeio, Santa Catarina. O local é utilizado para momentos de retiro para oração, meditação, contemplação e jejum de frades, assim como fazia São Francisco em seu tempo.

Jornalista, editor, professor e consultor, 61 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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