O agricultor José Germano Lima, o Butinga, 91 anos, um dos organizadores da luta por terra no Sul da Bahia, falou sobre a chacina e a reforma agrária na região em sua última entrevista
Thomas Bauer (CPT-BA) e Paulo Oliveira (Meus Sertões)
José Germano Lima, o “Zé Butinga do Sarampo”, morreu na última terça-feira (3/2), aos 91 anos. Ele era aliado, mensageiro e ajudou a organizar os trabalhadores rurais que lutavam por terras na zona rural Canavieiras, no Sul da Bahia, em 1985.
A disputa com fazendeiros resultou na matança de quatro camponeses e levou o governo federal a fazer as primeiras desapropriações com fins de reforma agrária no período da redemocratização. O agricultor era o mais velho participante desse episódio. E nos últimos tempos andava triste e deprimido por causa do falecimento da mulher e da sobrinha.
Em março de 2025, Zé Butinga foi entrevistado pelo fotógrafo e documentarista Thomas Bauer. Na conversa, o agricultor e ex-tropeiro detalhou a violenta luta pela posse de terra na região do Sarampo, a partir de 1972. Ele contou que atuava como se fosse uma “lançadeira de máquina”[1], monitorando a polícia e pistoleiros contratados para matar os camponeses para avisar aos companheiros. E que o conflito ocorreu por conta da ambição de um fazendeiro e um madeireiro.

Por conta da atividade e da importância do trabalhador rural, um delegado chegou a oferecer um “Fusca novo” para quem o “pegasse”. Zé Butinga falou ainda da intervenção federal, que resultou na regularização da área e na criação de um assentamento após décadas de confronto. Leia abaixo a entrevista completa.
O senhor pode se apresentar?
Meu nome é José Germano Lima, conhecido por Butinga.
Quando e como o senhor chegou aqui no Sarampo?
Cheguei em 1972. Eu trabalhava para os outros. Não existia quase nada aqui. Só uma casinha velha caindo que servia de abrigo para trabalhadores que colhiam piaçaba [2]. Eu trabalhava para um e para outro, até que encontrei um cidadão chamado Zé Homem. Ele me pediu para ir a Itagimirim (170 km distante de Canavieiras) buscar o filho dele para fazer um levantamento das terras.
Trouxemos o rapaz e fizemos o levantamento. Depois, fomos à delegacia de terras em Canavieiras e descobrimos que aquela área não possuía documento de propriedade. Diante disso, resolvemos enfrentar a situação: começamos a chamar famílias para ocupar e trabalhar nas terras. Inicialmente, o local contava com pouco mais de 20 famílias. Com o tempo, algumas pessoas do Espírito Santo vinham ocasionalmente, mas não em grupos grandes.
O que se produzia na região?
Aqui não tinha nada, só piaçaba e madeira de lei como sucupira, paraju e inhaíba. A briga começou por causa da madeira. O suposto dono da área era João Nascimento, que morava em Canavieiras e tinha muitas fazendas. Ele mandava a polícia para nos tirar; nós saíamos e depois voltávamos. Um homem chamado Gerson Alves queria explorar a madeira e trouxe pistoleiros. Os posseiros também tiravam a madeira para sobreviver. Houve conflitos e pessoas foram mortos. Até passaram um trator por cima deles.
Como era a rotina dos posseiros durante o período de tensão?
Os moradores não viviam juntos; cada um tinha sua casa em outros lugares, o que tornava a situação perigosa. O grupo se reunia e permanecia unido durante os momentos de conflito direto, quando ficavam à espera dos confrontos e se protegiam.
Como o senhor era tratado pelos que queriam as terras?
João Nascimento mandava derrubar e queimar as casas dos posseiros; queimaram três casas minhas. Nós tínhamos um advogado, o Major Paulo, que nos orientava. Eu era o que mais sofria porque era eu quem encaminhava o povo para as terras quando chegavam famílias de Vitória e de outros cantos.
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O senhor era uma espécie de mensageiro para os posseiros?
Sim, eu ficava igual a uma “lançadeira de máquina”, monitorando onde a polícia e os pistoleiros estavam para avisar aos companheiros. Eu não podia andar pela estrada; andava pelos cantos ou por dentro da mata para não ser visto. Um delegado chamado Valfrido chegou a oferecer um Fusca novo para quem me pegasse.
Quem era Valfrido e onde ele atuava?
Valfrido era o delegado da cidade de Canavieira.
Ocorreram outras mortes no Sarampo antes da chacina que vitimou quatro pessoas?
Sim, antes daquele evento, outras pessoas já haviam sido assassinadas, como Raimundinho e pelo menos outros dois homens, assassinados a tiro.
Quem era apontado como o mandante desses crimes?
Os assassinatos eram cometidos a mando do João Nascimento.
Quem era Dely Ruim?
Dely Ruim atuava como pistoleiro a serviço de João Nascimento. A missão dele era retirar o povo das terras. Ele não tinha um parentesco com João Nascimento, mas sim um acordo para retirar os posseiros. Em troca, o pistoleiro exploraria a madeira que extraísse. Antes dele, o primeiro gerente de João Nascimento na área foi o Gerson.
Quando a justiça interveio de fato?
A situação começou a mudar quando o Dr. Augustinho, da justiça de Brasília, veio aqui. Ele nos levou em um caminhão F-4000 para a delegacia em Canavieiras e exigiu que João Nascimento apresentasse os documentos da terra em 15 dias. Como não havia documentos, ele determinou que ficássemos na terra e mandou medi-la. Tive também o apoio do promotor Dr. Luiz, que era meu padrinho de casamento.
Sobre a chacina que ocorreu no Sarampo, o que o senhor pode contar?
No dia do crime, eu tinha ido a Betânia buscar mantimentos. Quando voltei, me avisaram do ocorrido e eu desci para buscar o policiamento. Quando cheguei com os policiais, encontramos os corpos, incluindo o de um ex-PM que estava dando cobertura aos agressores e que dizia que ia tirar os “vagabundos” da terra. Mataram quatro trabalhadores rurais. Eu conhecia o Raimundão, filho de criação de Zé Homem, e o João Mineiro [3].
Houve perseguição aos pistoleiros?
Sim. A polícia encontrou uma picape quebrada pertencente aos bandidos escondida na mata. Durante a operação, o capitão da polícia ordenou fogo nos bandidos. Um deles, vindo do Rio de Janeiro, morto e o corpo foi carregado para Canavieiras. Outros envolvidos chegaram a ser presos.
Quando o assentamento foi formalizado?
O assentamento se constituiu formalmente em 1986. Na época da desapropriação, éramos cerca de 20 famílias. Tivemos também o apoio do pessoal de Puxim para lutar contra João Nascimento e outro fazendeiro chamado Abdala.

Houve algum desfecho judicial ou depoimento formal sobre o caso?
Nunca fui chamado para depor, nem dei queixa. O pistoleiro que matou Raimundinho chegou a ser preso, mas logo foi solto
E como é a vida aqui hoje?
Na época da desapropriação, cerca de 66 famílias foram assentadas, embora hoje restem poucas das famílias originais [4]. A luta aqui foi muito feia e cruel, mas eu não saí porque não podia deixar os companheiros que eu mesmo tinha chamado para cá.
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Notas de pé de página
[1] Peça fundamental em máquinas de costura (industrial ou doméstica) e teares, responsável por laçar a linha da agulha e contorná-la ao redor da bobina para formar o ponto de costura.
[2] Palmeira da qual se utiliza as fibras na fabricação de vassouras, artesanato e cobertura de casas e cabanas
[3] Os mortos entre os trabalhadores rurais, além de Raimundão, assassinado com um tiro nas costas, e João Mineiro foram José Cardoso dos Santos (Zequinha), morto com um tiro na cabeça, e João Batista Cardoso dos Santos, Irmão de Zequinha, encontrado morto no chão do local. Entre os pistoleiros, morreram Wilson Conceição Pinheiro, ex-PM, e Gil,capanga de Deli. No dia seguinte, outro assassino de aluguel foi morto em confronto com a polícia: Vicente Dias Cedraz.
[4] Um filho e uma filha de José Germano permanecem na terra.
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Legenda da foto principal: José Germano Lima, o ‘Butinga’ teve papel fundamental no episódio que resultou nas primeiras desapropriações de terra para fins de reforma agrária, no Sul da Bahia, no período pós ditadura militar. Foto: Thomas Bauer
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Leia mais sobre a chacina:
“Massacre do Sarampo: um crime sem punição”
- Author Details
Thomas Bauer nasceu em Vorarlberg, Áustria. Formado em construção de barcos, mudou a área de atuação ao participar da Academia Social Católica em Viena. Participou ainda do serviço civil na Paróquia de Frastanz e cursou filosofia no Rio de Janeiro. Desde 1996 no Brasil, atua na Comissão Pastoral da Terra (CPT-Bahia) como fotógrafo, filmmaker e contador de histórias.








