Viagem aos sabores de Portugal

Luzitania é uma espécie de nau que te transporta para o outro lado do Atlântico sem sair do Nordeste

Paulo Oliveira

 

Fachada do Luzitania. Foto: Paulo Oliveira

Em uma das primeiras incursões pelo centro de Aracaju, almocei em um restaurante a quilo, na rua Laranjeiras. O sol inclemente, presente a maior parte do ano, faz com que as pessoas andem nas laterais do calçadão, sob a sombra das marquises. A parte central é um deserto.

Estava procurando uma loja que confeccionava placas quando, pouco adiante do local que fiz a refeição, algo que parecia ser uma simples lanchonete me chamou a atenção. Não sei se por conta da bandeira de Portugal desenha no letreiro ou por conta do azulejo que mostrava uma caravela singrando nos mares.

Depois de alguns instantes, perguntei à funcionária que estava no caixa, postado estrategicamente na saída do estabelecimento, se ali preparava algum prato tendo coelho como ingrediente principal. O “não” da resposta me fez seguir em frente.

Ontem, três meses depois, voltei a mesma rua. De repente, como se tivesse sido abduzido, me vi dentro da Luzitania apreciando os azulejos,  xales, louças, suvenires, cachecóis, vinhos, azeites, o painel com a Torre de Belém e peças alusivas a cidade de Fafe, onde meu bisavô nasceu. Não podia faltar nem um escudo do Vasco, time de meu pai (também português), meu, de duas filhas e uma neta.

Cada peça me trazia lembranças diferentes entre a minha infância e as quatro vezes que estive em Lisboa, Porto e muitas outras cidades, incluindo a que deu origem ao sobrenome de um admirado professor da Universidade Federal da Bahia: Albergaria. Angelina me acompanhava nessa viagem luso-nordestina.

 

Área do restaurante

A decisão de almoçar no restaurante camuflado de lanchonete se solidificou diante dos cardápios de lanches, almoços e bebidas. O impacto inicial dos preços das refeições foi se diluindo a medida que saboreávamos os deliciosos bolinhos. E foram totalmente esquecidos diante dos pratos feitos com a atração número um da Luzitania: o bacalhau.

À lagareiro (ao alho, mergulhado em um delicioso azeite quente, batatas ao murro, cebola e salsa) para mim. À Brás (bacalhau do Porto desfiado, batata palha, alho azeite, cebola, ovo, azeitona e salsas picadas) para minha companheira de vida e de aventuras.

Eu que costumo engolir apressadamente os alimentos, fui saboreando aos poucos cada garfada. De quebra, uma funcionária atenciosa deu a dica para que eu amassasse as batatas para elas absorverem todo o azeite:

“Seria uma pena desperdiçar algo tão bom” – acrescentou em favor Casa del Água, produzido com azeitonas espanholas do tipo Picual. As frutas (sim, as azeitonas são classificadas desse modo), foram extensivamente plantadas nos séculos XVII e XVIII para transformar terras áridas em produtivas. Hoje, elas representam um quinto do tipo utilizado em todo o mundo.

 

Bolinhos de bacalhau
Tentúgal e café expresso. 

Lastimo que o lento almoço esteja a se aproximar do fim. Calculo haver mais três garfadas. Procuro saborear ainda mais devagar. Com o prato limpo – o azeite foi sugado até o fim pelas batatas -, decido não comer nenhuma sobremesa para manter o gosto da refeição por mais tempo na boca.

Percebendo ou não, a gentil funcionária traz o cardápio com doçuras. Adio o que posso, mas acabo pedindo o Pastel de Tentúgal, o único doce que não conhecia. Criado por freiras carmelitas do convento que empresta o nome à iguaria, localizado em Montemor-o-Velho, em Coimbra.

A diferença é que em Portugal, o recheio é feito com doce de ovos ou ovos moles. Em Sergipe, a opção foi adaptar o enchimento, colocando goiabada e queijo (Romeu de Julieta). Goles de café expresso  sem açúcar acompanham cada mordidela.

Rapaz, dá para ficar o dia todo ali. Quem sabe bebendo taças de vinhos deliciosos ou aperitivos. Vai ficar para próxima, pois estou dirigindo.

 

Área para lanches. No quadro central, a foto do fundador Abel Gonçalves

–*–*–

O pedreiro Abel Emídio Gonçalves de Oliveira veio para o Brasil (1927-2021) veio para o Brasil para melhorar de vida e formar família. Ele aportou em Aracaju no início dos anos 1960. Primeiramente, abriu uma loja de calçados, em 1964, no mesmo endereço onde funciona o restaurante/lanchonete até hoje. O imóvel 102 fica ao lado da Igreja São Salvador.

Dez anos depois, Abel resolveu mudar de ramo. Foi com a culinária que ele ganhou fama e colecionou frequentadores famosos como o lendário prático Zé Peixe e a irmã dele (Rita Peixe), o pintor expressionista J. Inácio e o poeta Araripe Coutinho, além de muitos políticos.

A decoração do estabelecimento, incluindo os azulejos, foi trazida de Portugal. Alimentado diariamente com a receita de atendimento do comerciante – amor pela profissão, zelo e respeito pelos clientes – o Luzitania foi reconhecido como patrimônio histórico e cultural de Aracaju, em 2018.

 

Comenda e alusão à Fafe

Seu Abel morreu, aos 94 anos, durante a pandemia de Covid-19. Postumamente, foi agraciado pela Fecomércio-SE com a comenda José Ramos de Moraes. Atualmente, o estabelecimento é comandado por Abel Santana, o Abelzinho, filho do fundador.

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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