Capítulo 1 da série “Fibra Sergipana”
– Paulo Oliveira –
Santa Rosa de Lima foi a primeira santa latino-americana canonizada pela Igreja Católica.. Nascida na capital peruana, em 1586, ela foi batizada inicialmente como Isabel Flores y Oliva. Leiga da Ordem Terceira de São Domingos. E dedicou sua breve vida à religião, ao autoflagelo, a confortar e socorrer os mais necessitados.
Após a morte, ela foi declarada padroeira de um continente, três subcontinentes, dois países e patrona de 20 nações. Sua proteção se estende a oito profissões, um exército, uma força policial e a um sem número de cidades. No Brasil, ele ocupa lugar de destaque em igrejas matrizes de pelo menos 11 municípios de sete estados.
Tendo como combustível a fé dos devotos e a relatos de milagres é possível percorrer os 6.168 quilômetros que separam a capital peruana e o pequeno município que tem o nome da santa, localizado no vale do rio Cotinguiba. Se fosse viva, adepta de penitências e autoflagelo, a padroeira levaria 57 dias e 16 horas a pé, em vez das cercas de 90 horas de carro para chegar na cidade de 4.038 habitantes.
Pois bem, é nessa cidade que Meus Sertões inicia a série “Fibra sergipana”, que mostrará surpreendentes filamentos utilizados para a produção de um artesanato de alta qualidade e rara beleza. A palavra fibra, além de ter o sentido de estruturas filamentosas de origem vegetal, também significa, figurativamente, força de vontade , energia e têmpera características das artesãs que apresentaremos no decorrer dessa longa viagem, que começa agora.
Lima, Peru, final do século XVI [1].
A adolescente Isabel Flores y Oliva, filha do arcabuzeiro Gaspar de Flores, soldado espanhol nascido em Porto Rico, e da limenha Maria de Oliva y Herrera, tinha 14 anos quando começou a bordar, costurar e cultivar flores para ajudar financeiramente a família. Isabel era a décima dentre um total de 13 irmãos e irmãs. A artesã também confeccionava flores de papel para servir como decoração.
Apesar de o pai ter ocupado dois cargos importantes – integrante da guarda pessoal do quinto vice-rei peruano Francisco Álvarez de Toledo e administrador das minas de prata e metais preciosos no distrito de Quives, a 68 quilômetros da capital peruana -, a família vivia em extrema pobreza. O salário de Gaspar na guarda era irrisório e mal dava para sustentar a filharada. Para piorar, o arcabuzeiro teria falido quando administrava as minas.
A esperança de Gabriel e Maria era de que uma das filhas, principalmente Isabel, considerada a mais bela, casasse com um nobre para sair da penúria. A adolescente, porém, desde cedo anunciou preferir ser celibatária. Dos 13 rebentos, seis homens e quatro mulheres chegaram à adolescência e à fase adulta. Os outros morreram muito jovens.
O século XVI foi marcado por revoltas no Peru. Houve ainda a queda do Império Inca e uma sequência absurda de epidemias para as quais os nativos não tinham imunidade biológica. Doenças como varíola, sarampo, gripe, tifo, difteria e peste bubônica se propagaram rapidamente e foram responsáveis pela dizimação da população andina. As mortes ganharam velocidade com a chegada em massa dos conquistadores espanhóis.
No poder, entre 1569 e 1581, Francisco de Toledo implantou, reassentamentos dos indígenas em vilas coloniais e reativou o sistema de trabalho forçado nas minas de prata e de mercúrio. Grande parte dos trabalhadores sucumbiram nos garimpos e cavernas por desabamentos, intoxicação por mercúrio e exaustão.
Em 1572, quando Gaspar de Flores ainda servia ao vice-rei, Toledo capturou e executou o último líder da resistência inca, Tupac Amaru. Com o massacre feito pelos colonizadores, Lima passou a ser considerada como capital econômica da América do Sul e referência religiosa, atraindo integrantes de várias ordens e criando um ambiente de fervor católico, do qual Isabel foi extremamente influenciada.
Atraída pelo exemplo de Catarina de Sena (1347-1380), mística italiana, escritora, integrante da Ordem Terceira de São Domingos e influente figura política da Igreja Católica, a jovem filha do arcabuzeiro ingressou na mesma fraternidade. Isabel admirava a santa e “doutora da Igreja”[2], que cobrou reformas e acordos de paz em cartas às autoridades europeias, mediou conflitos, pacificou guerras e produziu O Livro da Divina Providência, relatando experiências espirituais. Após a morte, Catarina foi santificada e passou a ser padroeira da Itália e da Europa, além de protetora das enfermeiras [3]. Isabel percorreria caminho semelhante.

A CELA NO JARDIM
Inspirada na italiana, Isabel, aos 20 anos, ingressou na ordem dominicana, formada por leigos que se vinculam ao carisma e à espiritualidade da irmandade, sem precisar fazer votos de castidade, silêncio e ou pobreza. A divisão do grupo segue a seguinte hierarquia: ordem primeira, formada por frades e padres; ordem segunda, formada por freiras de clausura; ordem terceira, leigos e diocesanos que trabalham, casam (se quiserem) e seguem regra espiritual voltada a vida comum.
Isabel resolveu adotar o apelido de infância, dado pela ama de leite indígena. Impressionada com a beleza e o rubor das bochechas da menina, a mulher passou a chamá-la pelo nome de uma flor: Rosa. A religiosa adotou o apelido de criança quando entrou para a Ordem, acrescentando ainda a alcunha de Santa Maria, por ser devota da mãe de Jesus.
Por volta de 1606, os pais da jovem finalmente autorizaram a construção de um ermetério de adobe no quintal da casa. Com a ajuda do irmão favorito, Hernando Flores de Herrera foi erguido o local de um metro e meio de largura, com uma cruz de papelão afixada em um modesto altar, enfeitado frequentemente com flores. Ali, a jovem passava os dias, dedicando-se à oração e a vários episódios de êxtase místico.. E só saía para ir às missas ou para cuidar de idosos, doentes e indígenas necessitados.
O modo de vida de Rosa abreviou a existência dela entre os humanos. Ela, que viria a ser a primeira santa da América Latina, foi canonizada 53 anos e sete meses depois da morte, ocorrida no dia 24 de abril de 1617. Tinha 31 anos, quando não resistiu ao esgotamento físico extremo, provocado pela austera rotina e pela tuberculose.
A doença, contraída em 1614, a fez padecer com febres, hemorragias, dores e paralisia progressiva das pernas. Contribuíram para o enfraquecimento drástico do sistema imunológico, os jejuns severos, o uso de cilícios [4] e o fato de dormir sobre tábuas de madeiras e pregos.
Com o avanço da doença, a jovem não conseguia se manter sozinha na cela. Então, foi transferida para a residência do casal Gonzalo de la Maza e Maria de Uzátegui, que cuidaram dela até o fim.
Durante o processo de beatificação foram atribuídos vários milagres à jovem. Os mais famosos são estes:
- A Defesa de Lima contra a Frota Holandesa (1615) [5]
Corsários holandeses atacaram o porto de Callao e ameaçavam invadir Lima para saquear as igrejas e a cidade. Rosa reuniu mulheres na Igreja de Santo Domingo para orar. Ela subiu ao altar, cobriu o tabernáculo com o próprio corpo para protegê-lo. Sem explicação, a frota invasora levantou âncoras e partiu. A população atribuiu a salvação da cidade à oração fervorosa de Rosa.
- O Milagre das Rosas
O pai da futura santa passava por grandes apertos financeiros e precisava de dinheiro. Rosa foi ao quintal da casa e colheu um buquê de rosas em uma época durante o inverno, época em que é impossível aquela flor desabrochar. A família conseguiu vendê-las por um bom valor.
- A Cura do Filho do Vice-Rei
Rosa mantinha um pequeno cômodo onde acolhia doentes e crianças carentes na casa dos pais. O local era considerado “o primeiro hospital de Lima”. Várias curas inexplicáveis foram relatadas. Uma delas, registrada no processo de canonização feito pelo Vaticano, foi a do filho do próprio vice-rei do Peru, desenganado pelos médicos e curado após as orações de Rosa.
- A Ânfora de Água
Diz a tradição popular que um vizinho da família de Rosa caiu em um poço e estava se afogando. A jovem jogou no poço a imagem do Menino Jesus que possuía. O homem foi milagrosamente içado e salvo.
- Curas
Para tornar-se a primeira santa das Américas, a Igreja examinou e comprovou milagres como o fato de uma mulher cega enxergar, uma criança paralisada voltar a andar e o desaparecimento de feridas gangrenadas em doentes que tocaram suas relíquias.
PADROEIRA
Santa Rosa, ao ser santificada, passou a ter o nome da capital peruana incluído em seu registro oficial. Ela tornou-se padroeira não apenas do Peru, mas também do vasto território das “Índias”, denominação da época para os três subcontinentes americanos (Sul, Central e Norte). Mais: foi declarada protetora das Filipinas por fatores que envolveram a geopolítica colonial, a influência dominicana e o alcance papal.
No século XVII [6], o país asiático fazia parte do Vice-Reino da Nova Espanha, com sede no México. Por sua vez, os filipinos mantinham rotas comerciais com o Vice-Reino do Peru. A rota entre os três atuais países era chamada de “Índias Ocidentais e Orientais”
Quando Rosa de Lima morreu, a fama de milagrosa se espalhou pelas colônias espanholas. Na época só existiam santos e santas europeus. Sendo assim, bispos e governadores reivindicaram que o Novo Mundo tivesse sua própria intercessora oficial. Em 1668, o Papa Clemente IX a proclamou padroeira do Peru.
Aproveitando a boa repercussão, o sucessor Clemente X [7] expandiu a proteção da santa para a totalidade da América, para as Índias em geral (os subcontinentes americanos) e para as Índias Orientais (Filipinas), onde a ordem dominicana desempenhou papel central no processo de evangelização.
Na Ásia, os frades promoveram a devoção a Santa Rosa, construindo igrejas, hospitais e colégios sob sua invocação. O povo filipino adotou a santa peruana com carinho e símbolo de fé. A festa dedicada à religiosa é celebrada no dia 23 de agosto na maior parte do mundo, incluindo o Brasil.

É praxe da Igreja determinar que as festividades sagradas sejam celebradas no dia da morte do santo ou da santa . Ou seja, quando a pessoa virtuosa “nasce para o céu”. No caso de Santa Rosa, para evitar que as celebrações sobrepusessem a festa litúrgica de São Bartolomeu Apóstolo, venerado desde o início do cristianismo, Clemente X mudou a regra. Ele fixou a celebração em louvor à santa peruana no dia 30 de agosto. A decisão perdurou cerca de 300 anos.
Na década de 1960, o Concílio Vaticano fez mais uma alteração. As comemorações passaram para o dia 23 de agosto. O calendário religioso foi ajustado para que os festejos ocorressem próximo à data da morte da padroeira. A determinação foi seguida à risca por quase todos os países, com exceção do Peru, que manteve o feriado nacional e a realização de procissões, tradições folclóricas desfiles e homenagens do governo e da Polícia Nacional à padroeira, no dia 30.
Importante ressaltar que a santa peruana é uma das religiosas com maior número de patronatos na América Latina. Veja a lista:
- Padroeira das enfermeiras e profissionais da saúde Devido à forma como cuidava dos mais necessitados;
- Padroeira das floristas, jardineiros e botânicos – Por cultivar flores no jardim de casa para ajudar à família e aos mais pobres.
- Padroeira das costureiras, bordadeiras e artesãs– Por usar a habilidade como fonte de sustento da família.
- Protetora das Forças Armadas da Argentina – Por ter sido a protetora do Exército argentino no processo de independência.
- Patrona do Serviço de Saúde e Infantaria das Forças Militares da Colômbia – Devido ao tratamento que dava aos doentes em Lima.
- Padroeira da Polícia Nacional do Peru – Devido a origem familiar militar do pai, arcabuzeiro do Exército Real Espanhol e ao respeito à disciplina e proteção dos cidadãos.
- Protetora dos educadores das Escolas da Polícia Nacional peruana – Pelos mesmos motivos acima.
- Padroeira das Escolas Católicas Dominicanas – Por ser um modelo de dedicação e vocação pedagógica humanitária e por ser leiga da Ordem Terceira de São Domingos.
- Patrona da Pontifícia Universidade Católica do Peru – É a protetora espiritual do corpo docente e pesquisadores vinculados a uma das instituições de ensino superior mais importante do país.
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NOTAS DE PÉ DE PÁGINA
[1] Em algarismo romano equivale ao número 16
[2] Título reservado a pouquíssimos santos devido ao excepcional valor de seus ensinamentos teológicos.
[3] Título ganho devido ao trabalho realizado durante a Peste Negra. O surto mais marcante da epidemia aconteceu em 1374, quando a cidade de Siena, na Itália, foi dizimada. Na época com 27 anos, Catarina cuidou de doentes e abandonados, enquanto médicos e nobres fugiram. Ela lavava as feridas dos infectados, alimentava-os e confortava os moribundos. Ela também lavava os mortos e providenciava sepultamentos dignos, garantindo com padres corajosos que os doentes recebessem os sacramentos antes de morrer. Há relatos que atribuem à santa curas de pacientes desenganados. Catarina perdeu dois irmãos e sobrinhos durante a epidemia. Mesmo de luto não esmoreceu.
[4] O cilício é um objeto de mortificação da carne e penitência voluntária, utilizado por religiosos Isabel (depois adotou o nome de Rosa) vivenciava uma espiritualidade radical, marcada pela penitência física rigorosa. Os objetos mais comum utilizados por ela eram uma coroa de rosas que escondia uma tiara de ferro com partes pontiagudas, viradas para dentro; um cinto com pontas de ferro espetando a barriga. Além disso, ela se martirizava autoaplicando chicotadas. As práticas visavam a união com os sofrimentos de Cristo; disciplina para subjugar os desejos da carne e oferta de sacrifícios em intenção à conversão dos povos indígenas ao catolicismo e a salvação das almas. O rigor do autoflagelo era extremo até para a época. Hoje a Igreja recomenda jejum e caridade.

[5] Lima, na realidade, não foi invadida porque o objetivo principal da viagem de circum-navegação não era a conquista territorial de colônias, mas sim a pirataria, o ataque a frotas espanholas e a busca por suprimentos. Além disso, a esquadra não tinha recursos para enfrentar a forte defesa naval espanhola organizada pelo vice-rei. Os holandeses eram comandados pelo almirante Joris van Spilbergen.
[6] Equivalente ao número 17 em algarismos romanos.
[7] Equivalente ao número 10 em algarismos romanos.
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Legenda da foto principal: Santa Rosa de Lima. Imagem: Enciclopédia Humanidades/Editorial Etecé
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Na próxima semana: “68 km² de história”
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Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.








