O tototó das oferendas

Comandante da embarcação é o homem que leva os presentes para Iemanjá

Paulo Oliveira

O cais da orlinha do Bairro Industrial está tomado de pessoas que foram até lá para homenagear Iemanjá. Elas cantam músicas, batucam, lavam a rampa onde pescadores atracam e saúdam a yabá (orixá feminina). Na outra ponta do embarcadouro, sentado próximo a embarcação Sergipe Star, está um senhor de chinelos, short e camisa de manga comprida.

Ninguém presta atenção nele, nem a maioria dos repórteres que cobre o evento. O barco e o comandante, porém, têm muitas histórias. Embarcações do mesmo tipo, conhecidas por tototó por causa do motor barulhento, eram as principais responsáveis pela ligação entre Aracaju e Barra dos Coqueiros.

Esse meio de transporte reinou nas águas dos rios São Francisco, em Propriá, onde foram construídos, e Sergipe por décadas. Em, dezembro de 2011, os tototós foram reconhecidos como patrimônio cultural e imaterial do estado. Cinco anos depois, a partir da conclusão da ponte Construtor João Alves, tiveram que se reinventar.

O Sergipe Star, segundo Pedro Henrique, o senhorzinho que passava despercebido no cais antes de Meus Sertões encontrá-lo, foi construído na primeira metade dos anos 1950. Por fora, está castigada pelo tempo, mas por dentro aparenta boas condições. O desbravador fluvial possui lugares para 70 pessoas e equipamento de segurança (boias e coletes salva-vidas) para todos, de acordo com o mestre Pedro.

O comandante tem a vida ligada ao mar. Primeiro, seguiu a profissão do pai: pescador. Antes de virar “totozeiro”, transportando passageiros e carga, foi canoeiro, locomovendo-se entre rios e igarapés. Com a construção da ponte João Alves passou a oferecer passeios para turistas.

Coandante Pedro Henrique ao lado do Sergipe Star. Foto: Paulo Oliveira

O trajeto mais conhecido é o que leva os visitantes às ilhas de Pomonga (praia para banho), da Vela do Navio e, dependendo da maré, a das Tartarugas (vila de pescadores). O aluguel da embarcação das 8 às 16 horas saí por 600 reais. Quem aluga pode levar quantas pessoas quiser até o limite da lotação da embarcação.

Pedro só tem o Sergipe Star, mas diz que é capa de comandar reboques e até navios:

“Sou comandante para isso” – disse, orgulhoso.

Ele também contou que foi amigo pessoal do lendário José Martins Ribeiro Nunes, o Zé Peixe (1927-2012), prático que conduzia embarcações na entrada e saída de Aracaju pelo rio Sergipe de uma forma inusitada, que lhe rendeu diversos prêmios e homenagens.

Zé Peixe não precisava de embarcação de apoio para transportá-lo após o navio sob sua responsabilidade sair da barra. Exímio nadador, maior conhecedor das correntezas e do humor das águas, ele amarrava as roubas e documentos na bermuda que usava e saltava do parapeito da embarcação na água, uma altura de 17 metros. Depois nadava 10 quilômetros para chegar na praia e percorria distância semelhante a pé até a sede da Capitania dos Portos.

Na chegada dos navios, utilizava, de vez em quando, uma prancha para ir mais distante e os aguardava em cima da boia de espera a 12 quilômetros da praia. Chegava a passar a noite ou mesmo 24 horas até a maré ser propícia à aproximação e desembarque no porto. Suas habilidades ajudaram-no a salvar muitas vidas após acidentes e incêndios no mar.

“Não tinha ninguém melhor do que ele nesse negócio de mergulhar e nadar”, ressaltou mestre Pedro.

Voltando ao tema que nos levou a conversar.

O comandante contou que assumiu essa função de entregar os presentes de Iemanjá. desde que a festa começou há cerca de 20 anos. Católico, ele declarou respeitar todas as religiões, mas ressaltou que nada é maior do que Deus.

Pedro Henrique levou cerca de 50 adeptos do candomblé, para eles depositarem suas oferendas e presentes aduas milhas náuticas de distância (o equivalente a 3,7 quilômetros). Os presentes do terreiro Ilê Yátassytaôô Ifá Enibalé, de Mãe Rita de Iansã, promotora da homenagem, são os maiores e seguem no teto da área para passageiros.

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Serviço

O telefone de contato da equipe do Sergipe Star é 79 9 827-0216. Falar com Hugo, filho do mestre Pedro Henrique

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Legenda da foto principal: Os presentes do terreiro de Mãe Rita seguem na proa da embarcação. Foto: Paulo Oliveira/Meus Sertões

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Leia a cobertura completa:

Dois de fevereiro sergipano O chamado espiritual de Mãe Rita É preciso saudar a força de Iemanjá Próxima festa é na Barra dos Coqueiros Baianos vão a Sergipe para homenagear yabá

 

 

 

 

 

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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