Documentário sobre reforma agrária de Angical supre a falta de informações sobre o episódio
– Paulo Oliveira
O documentário “14 de julho de 1986: 1000 no lugar de 1” é o registro histórico fundamental para compreender a trajetória da reforma agrária no Brasil. Com 33 minutos de duração, a obra condensa quatro décadas de uma complexa realidade, que culminou com a criação do primeiro assentamento da Nova República, iniciada após a ditadura civil-militar.
A desapropriação da maior parte do latifúndio da empresa Sertaneja de gado de corte, que ocupava 89 mil hectares de terra entre os municípios de Angical e Cotegipe é relatada no filme do documentarista e editor Thomas Bauer, que contou com a parceria do teólogo austríaco Martin Mayr no roteiro. Ele atua na região desde 1992 do primeiro assentamento criado no bojo do Plano Nacional de Reforma Agrária
A narrativa do documentário mergulha nos detalhes da desapropriação de 61% da antiga Fazenda Sertaneja. Com uma área gigantesca, a terra pertencia às famílias de Antônio Balbino, ex-governador da Bahia, e do engenheiro Geraldo Rocha, que tinha grande influencia política perante até de presidentes da República.
De acordo com os depoimentos colhidos, a desapropriação só foi possível graças a uma manobra estratégica liderada por Aurélio Miguel, então responsável pelo Instituto Nacional de Colonização Agrária (Incra) em Barreiras. Às vésperas do Natal, Aurélio levou a documentação pessoalmente a Brasília, contando com o apoio de Márcio Palmeira (irmão do ator Marcos Palmeira e funcionário do Incra), que trabalhava no órgão federal.
A ação decisiva foi a omissão dos nomes dos proprietários no memorial descritivo da área, constando apenas o nome da fazenda. Acredita-se que, se Sarney soubesse que estava assinando a desapropriação das terras de Balbino, o decreto jamais teria sido promulgado em 8 de janeiro de 1986. O documentário relata que, ao descobrir o ocorrido, o governo reagiu com indignação, mas o ato já era irreversível.
Após a assinatura, Sarney teria percebido a manobra e enviado um mensageiro para reclamar com Chico Pinto, um deputado influente e parente de Aurélio Miguel. O mensageiro chamou Aurélio de “comunista safado” por ter enganado o governo, sem saber que o próprio Aurélio estava presente na sala durante a conversa.
Conflitos e Resistência
Embora Martin Mayr afirme que “ninguém morreu por causa da luta” naquela área, o processo foi marcado por momentos tensos. Os relatos apontam para a presença de jagunços, ameaças constantes e invasões de casas, refletindo a resistência do latifúndio em ceder espaço para a reforma agrária. Thomas Bauer ressalta que, no Brasil, esses processos raramente ocorrem sem sobressaltos ou confusões.
Quarenta anos depois, o assentamento transformou a economia local. Os assentados de Angical passaram a ter como principal atividade econômica a criação de gado de corte. Além disso, o município passou a ser conhecido como a “capital do queijo”.
Apesar do sucesso econômico de muitas famílias, que hoje vivem em casas confortáveis com acesso à energia e à internet, a situação fundiária permanece com problemas. Apenas metade das famílias de posseiros recebeu o título definitivo da terra. As ameaças iniciais, a ausência de estrutura e a demora fez muitos dos assentados desistirem de seus lotes.
O documentário expõe um cenário de caos burocrático e o desaparelhamento do Incra nos últimos anos, o que impede que muitos pioneiros acessem créditos bancários por falta de documentação.


Um dos personagens centrais da obra é Edvaldo Mendes, cuja história sintetiza perdas e conquistas do assentamento. perdeu um filho para a meningite nos primeiros anos, devido à precária situação sanitária e água insalubre no local. Ele foi um dos fundadores da Escola Família Agrícola (EFA), instituição baseada na pedagogia da alternância que se tornou referência educacional para os jovens da região.
A trajetória de Edvaldo também ilustra uma falha crítica na política de reforma agrária: a questão geracional. Por ter seguido rigorosamente as regras e se recusado a comprar lotes ilegalmente, ele vê hoje seus filhos, que trabalham na terra, sem direito a lotes próprios, enquanto pessoas de fora conseguem adquirir terras no mercado paralelo.
Para produzir o filme, Thomas viajou a Angical três vezes. Em duas dessas incursões, ele e Mayr permaneceram uma semana fazendo filmagens e entrevistas. A terceira visita foi de apenas um dia para acompanhar a entrega de alguns títulos de terra. A dupla também esteve em Salvador, onde entrevistou Carlos Borges, superintendente o Incra.
Segundo o documentarista, a obra foi considerada “muito boa” por quem já teve acesso a ela, com destaque positivo para as cenas feitas com drone, que ajudam o espectador a ter uma noção da totalidade da área do assentamento.
Thomas está ansioso para o lançamento oficial. A expectativa é para como as pessoas que foram entrevistadas vão reagir. Ele também quer ouvir a opinião delas sobre o documentário.
“Nunca é fácil condensar 40 anos de história em cerca de 30 minutos de filme” – admitiu.

O documentário contou com o apoio de entidades como o Mosteiro Kremsmünster, a organização Horizont3.000 e a Escola Família Agrícola. Thomas descreve a produção como um desafio de “responsabilidade enorme”, especialmente pelo esforço de garantir que o conteúdo seja acessível mesmo para quem não tem familiaridade com o tema.
O lançamento oficial está previsto para o próximo sábado 11 de julho, às 20 horas, em Ouriçangas, comunidade onde o assentamento teve início. Haverá celebração que envolve as 19 associações de moradores. Para os produtores, fica a sensação de “dever cumprido” e a expectativa de que o filme sirva como um espelho para os próprios assentados e uma ferramenta de divulgação da história da reforma agrária brasileira.
Para Mayr, o documentário é fundamental para contar uma parte da história do Brasil pouco documentada, apesar das proporções e repercussões terem sido imensas à época. O coordenador da Agência 10envolvimento revelou também a possibilidade de ser lançado um livro sobre o episódio.
O teólogo austríaco também ressalta a importância de várias pessoas na caminhada até a reforma agrária. Dentre elas, Maurício Lelis Costa, ex-funcionário do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e militante do PCdoB.
Segundo o austríaco, o então presidente do INCRA no governo Fernando Henrique, Marcos Lins, acolheu o pedido dos posseiros de colocar o Maurício como executor do processo. E ele foi diligente. Mayr também exalta a participação da sogra dele e da mulher, Lu, que desenvolveram o lote da família.
“Eu me lembro de ter roçado o terreno delas, sem jeito. Mesmo assim fui acolhido” – conta
Quanto ao documentário em si, ele ressalta a competência e parceria de Thomas:
“A gente sabia que as condições não eram muito grandes em termos de tempo e em termos de recursos técnicos. Ele com toda a capacidade técnica, muito rapidamente idealizou a condução cênica e uma narrativa desse filme. Acho que conseguimos otimizar bem o trabalho. Thomas acolheu também as minhas ideias e, às vezes, os meus desejos de acrescentar alguma coisa” – declarou.
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Legenda da foto principal: A abertura do documentário. Reprodução
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Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.








