Capítulo 2 da série “Fibra Sergipana”
– Paulo Oliveira
Em uma cidade em que a maioria da população (59,19%) tem o sobrenome Santos[1] [2], seria óbvio que ela tivesse como primeira escolha para batizá-la o nome de alguém que se notabilizou pela fé, caridade e por fazer milagres? O nome de uma santa?
Se a resposta foi sim, caro leitor, você errou.
A localidade que começou a ser povoada em 1601, com a divisão de sesmaria na região de Corropoiba, onde acabavam os mangues verdadeiros [3], primeiro foi chamada de Presa. A denominação estava relacionada às constantes enchentes dos rios Sergipe e Cotinguiba, que deixavam o local isolado.
Por 283 anos, essas terras ficaram aprisionadas ao nome de origem. Até que ganhou o status de vila e passou a ser chamada de Santa Rosa, em 1884. A chegada da imagem da padroeira da capital peruana para a capela jesuíta ali existente dois anos depois, consolidou o hagiônimo [4].
O que os moradores não contavam é que em 1943, durante o governo do presidente Getúlio Vargas, foi decretado que as vilas não podiam ter nomes iguais às cidades mais populosas e aos acidentes geográficos, o jeito foi fazer nova mudança.
Surgiu, então, o distrito de Camboatá, nome tomado emprestado a uma árvore nativa brasileira, que desempenha papeis ecológico e econômicos vitais, sendo amplamente utilizada em paisagismo urbano, na recuperação de áreas degradadas, na alimentação da fauna silvestre, na marcenaria e na medicina popular [5].
A pressão dos moradores que desejavam a emancipação do distrito, pertencente à Divina Pastora, aumentou com o passar do tempo. Em 25 de novembro, de 1953 a Assembleia Legislativa de Sergipe aprovou lei criando oficialmente a nova cidade e devolvendo a identidade original, batizando-a de Santa Rosa de Lima definitivamente. A autonomia político administrativa, no entanto, só se concretizaria no dia 2 fevereiro de 1955.
Além da cidade gaúcha e da sergipana, uma terceira, em Santa Catarina surgiria para homenagear a primeira santa latino-americana. O nono menor torrão em área dentre os 75 municípios do menor estado brasileiro ganhou, em 1962, mais uma xará.
SÁBADO CHUVOSO
Os 36 quilômetros que separam Aracaju, capital de Sergipe, e Santa Rosa de Lima foram percorridos debaixo de chuva, em um sábado de julho. As estradas são tranquilas, com exceção de um trecho da BR-101, próximo a Laranjeiras, onde predomina uma buraqueira danada e um labirinto de desvios de uma obra que nunca termina.
Seguindo pela SE-160 (Canhoba-Tomar do Geru), após passar por Riachuelo, chegamos ao entroncamento, onde se destaca a escultura em homenagem à Divina Pastora, município ao qual Santa Rosa pertenceu nos tempos em que era distrito.
É tradição sergipana ostentar os padroeiros na entrada ou na saída das sedes municipais. As esculturas revezam com grandes blocos de concreto onde está escrito “Eu❤️” mais o nome da cidade. Esse tipo de declaração de amor foi inventado em Nova Iorque (Estados Unidos) em uma campanha para atrair turistas e se espalhou pelo mundo a partir da segunda metade dos anos 1970.
Oito quilômetros adiante, no entroncamento com a SE-240, outra padroeira está a postos. É a primeira das duas esculturas de Santa Rosa de Lima, que zela essa parte do território sergipano.
O último trecho até o destino é repleto de fazendas e placas, garantindo o leite e a genética de qualidade do gado. O que mais chama atenção, porém, é uma igreja instalada em uma propriedade rural histórica, erguida entre o final do século XIX e o início do século XX.

Localizada no complexo de fazendas que integrava a Usina Lourdes, o templo reflete a opulência do ciclo do açúcar em Sergipe [6] e da família Dantas, proprietária de terras desde 1750, incluindo os tradicionais engenhos Mouco, em Santa Rosa de Lima; e Vassouras, em Divina Pastora.
A Capela da Fazenda Usina Lourdes, como é conhecida, extrapola demasiadamente as dimensões médias de pequenos santuários (5,5 metros de largura, 10 metros de comprimento e até 4,5 metros de altura). Construída para servir como principal local de oração, missas, sacramentos e até sepultamentos de proprietários e seus parentes. É nela que está a imagem trazida pelos jesuítas para a cidade e não na matriz de Santa Rosa, construída no centro, a partir de 1920.
A prática de enterrar os mortos sob o piso do templo foi interrompida devido ao temor de propagação de pestes e epidemias, conforme estabelecido por autoridades sanitárias. Com a proibição dos sepultamentos, foi criado um cemitério ao lado da igreja. O fato de estar perto das paredes da capela, acreditava-se, garantia que os corpos e restos mortais estariam abrigados em solo sagrado.
Além da capela, o complexo possuía casa-grande, senzala e instalações para moagem e purga do açúcar. Após um período de abandono, a propriedade e tudo o que existia nela foi adquirido por Waldemar Dantas, produtor rural e dono de um haras e de uma rede de produtos para fazendas e animais domésticos. O dono anterior era um primo dele. Em 2003, o empresário iniciou cuidadoso processo de restauração.
O casarão preserva móveis de estilo austríaco e manuelino, pisos originais, livros de registros seculares de partilhas e de nascimentos de antepassados, documentos históricos e registros sobre o patrimônio cultural açucareiro e a escravidão. Veja abaixo o vídeo feito pelo canal Fazendas Antigas, em 2021, e passeie virtualmente pela antiga fazenda da Usina Lourdes.
Importante ressaltar que a história de Santa Rosa de Lima conjuga riqueza colonial e a violência do período escravagista. Assim como Zumbi, em Alagoas, João Mulungu se destacou como herói da resistência no estado vizinho. Em 1868, segundo consta, ele fugiu de uma fazenda após ver a mãe ser morta a chicotadas. A partir daí, João organizou abrigos para os negros fugitivos e desafiou as autoridades policiais da província e os senhores de engenho.
VENDA DE CARNES

Antes de seguirmos para o aglomerado rural de Cana Brava, um dos cinco povoados da cidade [7], avistamos o belo conjunto que forma o mercado municipal. Um dos prédios está fechado, mas o outro, o Talho de Carne Verde [8], abre às sextas, dia da feira livre. Quando a mercadoria não é toda vendida, o açougue, inaugurado em 1923, funciona também aos sábados.
IGREJA MATRIZ
A devoção à Santa Rosa de Lima, como informado no primeiro capítulo da série “Fibra sergipana”, começou no século XIX, quando a localidade era uma vila que pertencia ao município de Divina Pastora. Em 1886, os padres jesuítas doaram uma imagem da padroeira da capital do Peru, o que consolidou o nome geográfico e definiu a padroeira da pequena cidade sergipana. A escultura, no entanto, não está ali.
A igreja fica em uma praça tranquila, que possui até um coreto. O interior do templo tem nave única. No altar principal, ladeando Jesus na cruz, há uma imagem de Santa Rosa (à direita) e São Benedito (à esquerda). A matriz preserva relíquias da primeira santa latino-americana. Nela, são celebradas missas noturnas cinco vezes por semana. Na segunda-feira e no sábado não há celebrações, pois o pároco costuma atender as capelas das comunidades rurais nesses dias.

Bem próximo da igreja, há uma padaria. Nela, o visitante não encontrará café com leite, por exemplo. Só pães. Para atender os clientes, o proprietário mantém uma garrafa de café quente, mas não cobra pela bebida.
CALÇADÃO DE NOSSA GENTE
As distâncias praticamente inexistem no centrinho de Santa Rosa de Lima. Alguns passos adiante nos levam ao Calçadão de Nossa Gente, na verdade uma praça reurbanizada em 2017, que apresenta sinais de desgaste. Apesar disso, o painel de azulejos feito para homenagear e imortalizar moradores que fazem parte da memória afetiva dos santanenses chama a atenção.
A obra valoriza os cidadãos comuns, trabalhadores e personagens icônicos do município. Dentre os homenageados estão Dona Zefa, parteira respeitada na comunidade, e Seu Zé de Rita, figura ligada aos folguedos juninos e à música popular. Fazem parte da cena trabalhadores rurais, benzedeiras e figuras folclóricas.
A iniciativa é uma boa ideia, abrindo espaço entre nomes de ruas, esculturas e tributos diversos para políticos. Na cidade não faltam homenagens para os familiares, nem para o ex-governador sergipano, ex-vice-governador, ex-prefeito de Aracaju, ex-deputado federal e ex-deputado estadual Jackson Barreto, 82 anos. A família Barreto é de Santa Rosa de Lima.

ECONOMIA
Atualmente, a economia santa-rosense tem a administração pública como principal empregadora. Ela é responsável por 63,6% de toda a atividade econômica da cidade, sendo a principal força motriz e geradora de receita local. O setor de serviços (18,3%) e a agropecuária (13,6%) vêm em seguida.
Os engenhos tradicionais de Santa Rosa de Lima entraram em declínio vertiginoso na década de 1970, quando usinas de álcool se instalaram nos municípios vizinhos de Laranjeiras e Maruim.
O município que tem nome santo e solo manchado com o sangue dos escravizados ainda mantém a cana-de-açúcar como principal produção agrícola. A colheita chega a 20 mil toneladas anuais.
Já a principal lavoura permanente é a banana, com produção variando de 3.000 a 4.700 toneladas ao ano. É a palha da bananeira que dá origem ao belo artesanato do povoado de Cana Brava, tema do terceiro capítulo da série “Fibra sergipana”.

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Notas de pé de página
[1] Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em novembro de 2025.
[2] O sobrenome Santos tem origem portuguesa, espanhola e religiosa. Ele surgiu como abreviação de “Todos os Santos” e era atribuído às pessoas que nasciam em 1º de novembro, data celebrada pelos cristãos como o Dia de Todos os Santos. Além disso, o sobrenome foi amplamente adotado por cristãos-novos, nome dado aos judeus convertidos ao cristianismo, durante a Inquisição.
[3] Também chamado de mangue-vermelho é um dos três tipos de plantas que filtram o sal da água do mar. É a vegetação mais emblemática de manguezais do litoral brasileiro.
[4] Nome próprio derivado de um santo
[5] As cascas e folhas do camboatá são usadas principalmente em chás e banhos de cozimento para tratar problemas respiratórios, inflamações, febre e feridas na pele.
[6] O vale do rio Cotinguiba foi o coração financeiro da Sergipe colonial. Os163 engenhos de açúcar existentes moviam a economia da província. O solo fértil e facilidade de escoar a produção pelo rio contribuíram para a região responder por 25% do total da produção açucareira de Sergipe e da Bahia. Por dois séculos, a partir da criação da Capitania de Sergipe em 1590, a região ficou subordinada à administração dos baianos por dois séculos.
[7] Os outros são Areias, Rio Escuro, Lagoa do Carão e Cuba.
[8] Termo histórico e regional que se refere a um açougue que vende carne fresca.
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Legenda da foto principal: Blocos de concreto com declaração de amor às cidades se espalhou pelo mundo na década de 1970. Foto: Paulo Oliveira
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Jornalista, editor, professor e consultor, 60 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.




