‘O que está em jogo é a entrega de nossas riquezas para os americanos’

Deputada trans analisa a crise política em Brasília e recorre de decisão do TRE de Sergipe

– Paulo Oliveira

O encontro entre a deputada Linda Brasil (PSOL), 53 anos, candidata à reeleição, e a equipe de Meus Sertões ocorreu por acaso. Ela fazia campanha da mesma forma que realizou nas eleições anteriores, após perceber que tinha recebido votos em todos os municípios de Sergipe. O breve encontro resultou na marcação de uma entrevista, marcada para a última quarta-feira (9/9).

Linda, a primeira mulher trans eleita vereadora em Aracaju, em 2020, conseguiu vaga de deputada estadual, dois anos depois. Com atuação destacada nas áreas de educação, direitos humanos e na militância transfeminista, agora busca a reeleição. No entanto, uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe colocou sua candidatura sub judice. A postulação foi indeferida, mas há recurso em andamento.

Enquanto aguardando julgamento definitivo, Linda pretende visitar todas as cidades do estado, mesmo aquelas em que obteve pouco mais de uma dezena de votos na disputa de 2022.

Em para Meus Sertões, a deputada fala sobre como espera reverter o julgamento que indeferiu o Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários (DRAP) da Federação PSOL-Rede, no TRE-SE, e explica sua estratégia de campanha. Ela Também avalia como a crise causada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) impacta nas eleições deste ano.

“A legislação eleitoral permite que eu mantenha a campanha e receba os votos, que ficarão condicionados à decisão judicial final. Eu espero que isto ocorra antes da diplomação dos deputados” – diz.

Com relação à sua campanha: o que a senhora estava fazendo em uma cidade pequenininha, na qual obteve apenas quatro votos na primeira eleição para deputada e 11, na segunda?

Em 2018, quando eu fui candidata pela primeira vez a deputada percebi que eu tinha sido votada nos 75 municípios aqui de Sergipe. Isso pra mim foi muito gratificante. Eu me senti vitoriosa, mesmo não sendo eleita, porque minha mensagem chegou nessas cidades, mesmo eu tendo concentrado a campanha em uns 10 municípios mais próximos de Aracaju. Por isso, na campanha de 2022, rodei todas as cidades do estado. Foi a forma que encontrei para me conectar com todas as pessoas e expandir o meu eleitorado.

Como são essas visitas?

Antes de ir para General Maynard, eu passei em Carmópolis, cidade a menos de cinco quilômetros de distância. Estive na feira livre e conversei com muitas pessoas, que depois encontrei na cidade vizinha. Com nossas ações mostramos que a nossa campanha é contrária ao tipo de política coronelista, com voto de cabresto. Infelizmente, o interior de Sergipe ainda tem. Não só em Sergipe, na verdade, há muito ainda esse voto de cabresto e compra de voto.

Por que o TRE-SE colocou a sua candidatura sub judice?

O Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe indeferiu o Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários (DRAP) da Federação PSOL-Rede porque o diretório da Rede tem pendência de prestação de conta perante a Justiça Eleitoral. A decisão de atingir as candidaturas do PSOL por causa da pendência de prestação de contas da Rede, em 2018, é algo injusto, na nossa avaliação. A Rede não apresentou candidatos próprios em Sergipe. Além disso, esse problema é anterior a 2022, ano em que a federação dos partidos foi instituída. Nos já recorremos da decisão e a nossa assessoria jurídica está muito otimista.

Isso pode ser revertido antes ou depois das eleições?

A gente está lutando, pressionando para que isso seja revertido antes. Mas mesmo que não seja, eu e todas as candidaturas do PSOL permanecem na disputa. Nós precisamos que haja uma resposta antes da diplomação dos eleitos para não nos prejudicar se tivermos conseguido uma ou duas cadeiras na Assembleia.

Mas isso pode atrapalhar os votos na senhora? As pessoas podem entender errado?

É, por isso que é importante que os canais de comunicações divulguem que nós estamos na disputa, justamente para que a desinformação não desmotive as pessoas em votar. Estou confiante porque temos uma “mandata” muito atuante e nos destacamos por ser contra o projeto privatista do governo atual, que privatizou a Companhia de Saneamento de Sergipe e está sucateando a educação.

Como é que está repercutindo na capital e no interior de Sergipe essa crise sem precedentes do STF?

Na nossa avaliação, é uma situação que enfraquece esse poder tão importante. O Supremo Tribunal tem um papel fundamental de sanar brechas em que o Congresso Nacional não legisla, principalmente em questões sociais. Ele é fundamental para a nossa democracia. Creio que há um movimento para descredibilizar o STF. Há interesses internacionais para que isso aconteça, principalmente incentivado por ministros que são ligados a áreas que não estão comprometidas com a nossa soberania, com o estado democrático de direito.

Analistas políticos avaliam que a ação do ministro André Mendonça busca levar o governo Lula para o centro da questão e fragilizar os partidos de esquerda. A senhora tem a mesma avaliação?

Na minha avaliação, não é mais uma disputa ideológica. O que está em jogo é a garantia de direitos conquistados com tanta luta, tanta resistência, seja da classe trabalhadora ou seja dos grupos minorizados.

E os eleitores estão cientes disso?

As redes sociais hoje são instrumentos que facilitam a desinformação, a falta de transparência dos fatos. Elas estão sendo usadas como forma de enganar a população e isso, com certeza, gera um risco muito grande de Lula não ser reeleito. Espero que o STF resolve essa questão que envolve, principalmente, a disputa entre os ministros Mendonça e Moraes. O que está em jogo não é mais uma questão da reeleição de Lula, mas sim entregar o Brasil nas mãos de pessoas que não têm nenhuma responsabilidade com a nossa democracia e que, principalmente, podem entregar as riquezas do país nas mãos do imperialismo norte-americano.

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Legenda da foto principal: Linda Brasil abraça eleitora em General Maynard. Foto cedida pela assessoria de imprensa

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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