Morre o guardião da memória da segunda Canudos

O escritor Eldon Dantas Canário, 86 anos, será sepultado nesta quinta-feira, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador

– Paulo Oliveira

O escritor e advogado Eldon Dantas Canário morreu em Salvador, Bahia, nesta quarta-feira, aos 86 anos. Ele estava internado devido a complicações causadas por problemas cardíacos. Seu corpo será cremado, na quinta-feira, dia 27, às 11 horas, no Cemitério Jardim da Saudade.

Eldon nasceu no povoado de Canudos, então município de Euclides da Cunha (BA), 42 anos após o fim da guerra (outubro de 1897). No conflito, o Exército trucidou cerca de 20 mil brasileiros, seguidores do beato Antônio Conselheiro.

Foi na segunda Canudos, reconstruída por cima das ruínas da primeira, que o futuro escritor passou a infância. Mais tarde, o local seria alagado para dar lugar ao açude de Cocorobó.

Embora Eldon tenha ido morar e estudar em Salvador aos 12 anos, ele se transformou no maior memorialista de sua terra natal. A importância do povoado sempre foi relegada ao segundo plano se comparada com o interesse dos pesquisadores pela primeira, a da guerra, e a terceira, a atual, Canudos.

Eldon Canário tomou posse na Academia de Letras e Artes de Salvador em 2015. Na época, ele tinha publicado nove livros. Cinco deles versavam sobre a Canudos Velha, como a segunda cidade também é conhecida.

Em sua bibliografia constam “Canudos” (1967), “Memória de Canudos” (1984), “Cativos da Terra” (1988), “Os mal-aventurados de Belo Monte: a tragédia de Canudos” (1997) e “Canudos sob as águas da ilusão” (2002), além de romances e livros sobre o cangaço e o Dois de Julho, data da independência do Brasil na Bahia.

A jornalista Socorro Araújo, conterrânea de Eldon, ressalta que a importância dele se deve ao fato de documentar, nos mínimos detalhes, a história da segunda Canudos:

“Os pesquisadores costumam pular esta etapa. Eldon foi criança em um tempo não muito distante do fim da guerra. Ele convivia com pessoas que contavam a história do massacre e, assim como eu, brincou nos locais das batalhas, onde costumávamos recolher projéteis de balas disparados no conflito” – revelou.

Socorro diz que Eldon foi tão importante para o povoado natal quanto Euclides da Cunha foi para a Canudos da guerra:

Capa do livro. Reprodução

“A obra dele ganha mais importante à medida que o tempo passa. Ele mostra a nossa Canudos como um lugar que nunca foi triste, apesar de no pós-guerra a gente correr e brincar em cima de uma sepultura onde havia aproximadamente 20 mil pessoas enterradas. A alegria dali emanava da festa de Santo Antônio, que une as três Canudos. ” – ressalta a jornalista, acrescentando que o livro de Eldon que mais gosta é Canudos sob as águas da ilusão.

A obra é um ensaio, no qual o autor faz uma crítica contundente à construção da barragem que submergiu um sítio histórico de grande importância. A Belo Monte, aldeia sagrada erguida pelos seguidores de Antônio Conselheiro foi reconstruída, anos depois, por novos habitantes e sobreviventes da guerra.

Embora houvesse outras opções, durante a ditadura militar, o governo federal optou por represar o rio Vaza-Barris para alagar o local e apagar os vestígios da resistência conselherista. Há quem considere a decisão um crime contra a memória nacional.

SANTO ANTÔNIO

Em junho de 2021, Eldon concedeu uma entrevista para Meus Sertões. Ele contou que sua terra natal estava submersa, mas que ele mantinha fotos e quadros dela em casa:

“Havia a praça, o barracão no meio e a igreja no fim da rua. Praticamente todo mundo vivia da criação de bode e da plantação de milho, feijão e outras coisas, ou seja, da agricultura de subsistência. Tinha também aqueles que eram comerciantes, policiais etc.” – descreveu.

Segundo Eldon, a monotonia foi quebrada pela chegada dos funcionários do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). A justificativa era a construção da Transnordestina, que ligaria Feira de Santana à Fortaleza. Mas o que mais marcou foi o desenvolvimento e a sofisticação que a Festa de Santo Antônio teve a partir daí.

“Era um período impressionante: o padre de Euclides da Cunha ia, eram realizados casamentos e batizados. Vinha gente de Uauá, Canché, Macururé, Chorrochó, Jeremoabo” – contou o escritor.

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FEIRA LITERÁRIA

A última homenagem para o escritor canudense, ocorreu em outubro do ano passado, durante a primeira edição da Feira Literária Arretada da Várzea da Ema (Fliave). Com o tema “Vida no Sertão – literatura, memória e resistência”, o evento reuniu consagrados escritores e guardiões da história e da memória popular.

O principal homenageado foi Eldon Canário, referência como defensor da memória sertaneja. Segundo o artista visual e arte-educador Raimundo Mundin, coordenador cultural da feira, Eldon podia ser definido como um homem do sertão: íntegro, fiel às raízes, guardião da palavra e da cultura popular.

“A trajetória dele honra a literatura e engrandece o povo sertanejo” – disse.

Distante cerca de 450 km de Salvador, Várzea da Ema é uma localidade histórica pertencente ao município de Chorrochó. O povoado carrega forte identidade cultural e preserva episódios históricos.

Em 28 de julho de 1928, por exemplo, Lampião e seu bando invadiram o arraial. O cangaceiro incendiou o mercado local por ter desavenças com comerciantes da época. Hoje, uma réplica desse mercado atrai turistas interessados no circuito do cangaço.

Do ponto de vista da resistência cultural, o povoado sedia a Associação de Apoio à Várzea da Ema (AAVE). A entidade foi criada em 2004 por Rayner Canário, mulher de Eldon. Além de organizar a feira literária, a associação fundou o Museu AAVE para salvaguardar fotos e objetos típicos do sertão.

Os padroeiros do povoado são Santo Antônio e o Imaculado Coração de Maria.

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Legenda da foto principal: Eldon Canário visita o museu da Associação de Várzea da Ema, em Chorrochó. Divulgação

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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