Uma mulher de fibra

Capítulo 3 da série “Fibra Sergipana”

-Paulo Oliveira-

O livro “O Sublime Ofício das Mãos – Mestres e Mestras do Artesanato Sergipano”, colocado no balcão da Casa do Artesanato Sergipano, no Shopping Jardins, atrai os olhares e desperta curiosidades. No único exemplar disponível constam as história de 15 mestres e mestras do artesanato estadual. De artistas que transformam fios, madeira, barro e couro em objetos divinos. Dentre eles, estão Gilson José dos Santos, que utiliza argila para reproduzir as igrejas da histórica Laranjeiras, e Maria Domingas dos Santos Neto, cuja magia é feita a partir de um punhado bilros.

A divulgação de arte popular em um movimentado centro de compras de um bairro nobre tem muitos aspectos positivos. Dentre eles, o de tornar os artistas mais conhecidos e de fazer com que recebam o preço total do que definiram para os trabalhos. Em outras lojas, o eles deixam os objetos em consignação e pagam aos proprietários 30% do que for arrecadado.

O livro produzido pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap) e pelas secretarias estaduais de Trabalho e de Comunicação é bem feito e lindamente ilustrado com fotos. No entanto, para dar conta de todos os talentosos artistas de Sergipe precisava ter mais centenas de páginas. Nele, por exemplo, faz falta Valdelice Dias, 58 anos, moradora do povoado Cana Brava, em Santa Rosa de Lima. Ela faz magia com as mãos e transforma filamentos de bananeira em esculturas de palha.

 

Anjo, Maria, José e Jesus, um dos trabalhos de Valdelice. Foto: Paulo Oliveira

Distante da capital 45,7 quilômetros ou 55 minutos, dependendo do objeto que for usado para marcar a lonjura, Valdelice mostra literalmente, que é uma mulher de fibra. Com a ajuda de Eric, um dos quatro filhos (três homens e uma mulher) ela se prepara para extrair,no quintal de casa, quatro tipos diferentes de matéria prima do pseudocaule [1], que pesa entre 30 e 60 quilos. Os filamentos darão forma e sustentação às esculturas que a artesã produz há 12 anos.

Versada em renda inglesa, pintura de quadros, tecidos e telhas, a artesã começou a trabalhar com fibras da bananeira, em 2014, após concluir curso ministrado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A iniciativa gerou expectativa de melhoria de renda na região e reuniu 24 pessoas, que logo fundaram uma associação.

A euforia dos participantes os fez esquecer de duas qualidades fundamentais: paciência e resiliência. Como o produto utilitários criados tivessem pouca saída inicialmente, os dois atributos acabaram rimando com desistência. Cada um buscou seu rumo e a associação foi desativada.

Valdelice, porém, não desistiu. Continuou a produzir e a estocar peças. Ela nunca duvidou que seria bem sucedida. Os primeiros vestígios davam-lhe essa certeza. A associação, no curto período de existência, ganhou o prêmio TOP 100 de artesanato, graças aos acessórios, brincos, colares e objetos decorativos produzidos. A premiação nacional seleciona e reconhece anualmente, desde 2006, as 100 unidades de produção artesanal mais competitivas, qualificadas e sustentáveis do Brasil.

Na busca por clientes que apreciassem o trabalho, Valdelice passou a frequentar feiras de artesanato, mesmo sem vender muito. No tempo de vacas magérrimas, ela participou da feira anual multisetorial, na orla de Atalaia, em Aracaju. Durante 20 dias, saiu de casa às 4 horas da manhã e voltou às 11 horas da noite. Tirando o tempo da viagem entre Santa Rosa e a capital, passou 14 horas diárias, oferecendo seus produtos.  Mas só conseguiu vender cinco peças durante o evento.

“Eu não me desanimei porque eu gosto de trabalhar com arte. Mas era muito sacrifício” – comenta.

Durante a pandemia, a situação beirou o insustentável. Não havia pedidos, mas Valdelice resistiu. e não se desfez dos sacos onde guardava as fibras. Um dia, pós Covid-19, o Tribunal de Contas de Sergipe encomendou 60 arvorezinhas de palha para um evento. A esperança reacendeu.

A artesã continuou a buscar novos mercados. Há três anos, surgiu uma oportunidade. Um amigo a apresentou ao ex-prefeito de Santa Rosa de Lima e ex-diretor do Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon), Júnior Macarrão. Com isso, ela obteve, através do político, acesso à Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo (Seteem), a mesma que mantém a loja no Shopping Jardins.

A direção da secretaria também franqueou o acesso de Valdelice à Feirinha da Seasic [2], realizada semanalmente, em versões fixa e itinerante, em Aracaju. Nesses eventos os artesãos e artesãs participam em rodízio. A melhoria do desempenho das vendas nas feiras combinou com o aumento de visibilidade da artista, após a criação de uma página no Instagram (clique aqui para acessar).

“Vamos dizer que ainda não está 100%, mas melhorou muito” – diz ela

OS ORIXÁS

Criatividade e inovação foram fundamentais para a artesã prosperar. Direcionando a memória para o início do processo, ela contou que não teve dificuldade para aprender a lidar com as fibras. No início, porém, a achou as primeiras peças “terríveis de feias”.

“Eu achei horríveis o homenzinho e a mulher que a professora estava ensinando. Ela me respondeu que eu tinha de levar em consideração que as peças para mim. E o que pode ser feio para alguém, é bonito para o outro” – recorda.

O gosto de Valdelice pela nova arte começou quando um outro professor orientou às alunas que colocassem na peça que produziriam algo que estivessem acostumadas a fazer. A artesã nem pestanejou: confeccionou uma almofadinha, acrescentando renda inglesa.

“Fez o maior sucesso. Porém, eu confesso que não gosto de fazer renda” – revela.

Daí em diante foi uma sequência de tapetes, mandalas, peças decorativas e enfeite para abajur. Com o término da associação, a artista não via mais a fibra como algo a ser usado como renda.

Oxum. Reprodução do Instagrtam

“Foi aí que resolvi fazer esculturas de orixás. Levei para as feiras e elas tiveram uma boa aceitação. Também fiz imagens de santos, todas bem aceitas. ” – conta Valdelice, que respeita todas as religiões, mas professa o espiritismo na tentativa de entender os mistérios da vida.

As primeiras iabás (orixás femininos) produzidas foram Oxum, Iansã e Iemanjá. Elas foram aprovadas pelo pessoal da Seteem. A exigente Valdelice achava que ainda tinham defeitos, mas ouviu dos organizadores da feira:

“Faça as peças que a gente vai arrumar feiras para você”.

No início de 2024, ela vendeu quatro peças em um único dia. Após insistir por uma década, o trabalho começou a dar frutos. O preço das imagens de ancestrais, santas e orixás variam de R$ 95 (preto ou preta velha de 22 centímetros de altura) a R$ 140 (Santa Rosa de Lima, Nossa Senhora Aparecida e Oxum de cerca de 30 cm). Esculturas mais complexas como a de Nossa Senhora de Fátima, acompanhada pelos três pastorinhos, custam R$ 160.

A artesã ressalta que, devido ao processo ser extremamente trabalhoso e lento, não é viável comercializar as peças por menos.

MATÉRIA-PRIMA

A retirada dos quatro tipos de fibra de bananeira é muito trabalhosa. Depois da cortar o pseudocaule e retirar as partes imprestáveis, Valdelice separa as camadas (calhas) de acordo com a textura e a finalidade de cada uma. A seguir o detalhamento das fibras.

 

Linho fino. Foto: Paulo Oliveira

1) Linho fino: É extraído das bordas das calhas. É a fibra utilizada para trabalhos mais detalhados, como a renda irlandesa, crochê, colares e acessórios. Foi com ele que Valdelice fez a primeira almofadinha de renda irlandesa.

 

Linho grosso. Foto: Paulo Oliveira

2) Linho grosso: É mais resistente, utilizada para itens utilitários e estruturais. Valdelice a aplica no corpo e na base das esculturas, no preenchimento para dar forma ao “corpo” das imagens. Também podem ser utilizados na produção de cestarias, tapetes e bandejas.

 

Seda. Foto: Paulo Oliveira

3) Seda: Fibra de cor clara que fica na parte interna da calha da bananeira. É utilizada para confeccionar as roupas e vestimentas das esculturas. Ela também serve para recobrir estruturas e para dar sustentação interna às peças. Geralmente, recobre o papelão usado em mantos.

 

Renda. Foto: Paulo Oliveira

4) Renda: É o nome dado a uma parte específica da fibra. Ela é voltada para a ornamentação externa, servindo ainda para produção de laços e caixas decoradas. Também pode ser utilizada para fazer o preenchimento e para dar forma à escultura.

Depois de retiradas, as fibras são lavadas com água sanitária e fervidas após a aplicação de vinagre de álcool. Em seguida, devem ser colocadas para secar por pelo menos três dias de sol intenso. Não dá para trabalhar com as elas no período chuvoso. Se a secagem não for perfeita, o material criará mofo.

Segundo Valdelice,bem cuidadas, as fibras terão a mesma durabilidade do que o cordão de lacê (mistura de algodão e seda), utilizado na renda irlandesa.

As fibras podem ser tingidas ou não, depende do gosto do freguês. Elas também receber jatos de spray de verniz, recomendado por secar mais rápido do que o esmalte aplicado com pincel.

Outro material utilizado nas peças são as bases redondas de pinus, que variam de 8 a 15 centímetros de diâmetro. A compra é feita pela internet e o preço da unidade varia de R$ 7,50 a R$ 12. Embora reconheça que paga caro, a artesã santa-rosense diz que vale a pena porque a base vem lixada e no tamanho certo.

Valdelice produz uma  escultura por dia, com exceção dos arcanjos com asas bem detalhadas. e outras peças complexas. Essa rotina de produção é intercalada com as tarefas domésticas e outra atividade. Considerada mestra do samba de coco, a professora de dança também atua  resgatando tradições e costumes locais junto aos grupos de idosos de  três localidades: Cana Brava, Areias e a sede municipal. Ao todo, são 35 idosos que mantêm o ritmo, as músicas e as pisadas tradicionais da dança.

À noite é dedicada ao artesanato. Valdelice fez de uma oficina a partir de um quarto. É lá que ela dá expediente sdas sete às 11 horas da noite. Não raras vezes vai até meia-noite.

DORES

A produção é um exercício de paciência e superação física. A artesã sofre com problemas na coluna lombar.Às vezes, as dores a impedem de andar ou trabalhar durante dias. Enfrentar desafios faz parte do temperamento da artista. Uma das encomendas mais expressivas que recebeu foi a de 16 orixás para um cliente de São Paulo. Essa venda específica serviu como uma “prova de fogo”, pois exigiu um trabalho intenso e a busca por referências para criar as peças, das quais não tinha prévio conhecimento.

Apesar do interesse de clientes de fora ter aumentado, Valdelice aponta dificuldades logísticas para expandir o négócio. Dentre elas estão o precário e caro serviço dos Correios. Devido aos entraves, o mais distante que ela consegue enviar é para o Mercado Central de Aracaju, onde o marido possui uma banca de frutas. É ele quem faz as entregas para clientes que estão de passagem na capital sergipana.

Bailarinas de coco. Foto: Reprodução do Instagram 

As dificuldades, no entanto, motivam ainda mais a artesã, que não para de inovar. O portfólio de Valdelice é interminável. Na época do Natal, ela preparaminiaturas de presépios dentro de cabaças. Recentemente, também começou a fazer “bailarinas”, adaptando diferentes materiais à técnica artesanal.  O corpo das dançadeiras é feito com fibra de bananeira e as saias, de casca de coco . A parte interna das peças é de papel machê. Preço da unidade: R$ 80.

 

Presépio. Reprodução do Instagram

Recentemente, resolveu criar a imagem de outra santa, a Virgem de Guadalupe. Representação de Nossa Senhora, mestiça, que teria aparecido no México, em 1531, e deixado sua imagem impressa em um manto de fibra de agave [3].

Nada faz Valdelice esmorecer. Ela está sempre pensando em novidades. Suas esculturas tem sempre um detalhe que diferencia umas das outras. A próxima criação será a de uma “anja” com asas bem grandes e bonitas. Outra ideia é produzir as “daminhas”, pequenas bonecas de fibra para oferecer como opção às santas, aos santos e aos orixás.

Tão imersa em criar, a artesã não se preocupa em assinar as peças que produz. A assinatura, com certeza, valorizaria as esculturas de fibra de bananeira, produto exclusivo do Vale do Cotinguiba.

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Notas de pé de página

[1] O pseudocaule é feito de folhas enroladas. O caule verdadeiro fica debaixo da terra.

[2] A Feirinha da Seasic é o nome informal da Feira da Agricultura Familiar, evento periódico realizado pela Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania (Seasic), toda primeira quarta-feira do mês, das 9h às 13h, na sede da secretaria, na Avenida Hermes Fontes, 2120, Bairro Luzia, Aracaju. Além da edição mensal fixa, o projeto conta com a versão itinerante. Ela circula por diferentes órgãos públicos e instituições (secretarias de Estado, tribunais e universidades), em datas variadas.

[3] planta cuja maioria das espécies floresce uma única vez antes de morrer e é utilizada para fabricação de tequila

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Legenda da foto principal: Valdelice analisa as fibras que retirou do pseudocaule da bananeira.. Foto: Paulo Oliveira.

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Leia a série completa:

A santa peruana que veio parar no Nordeste As preciosidades de Santa Rosa de Lima

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No próximo mês: arte com palha de milho

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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