O Quilombo dos Palmares, símbolo máximo de resistência contra a escravidão, foi criado por volta de 1590. No auge, chegou a ter população estimada de 20 mil habitantes, sendo que o maior reduto, a Cerca Real do Macaco, no alto da Serra da Barriga, possuía 6 mil moradores.
Na época, a serra pertencia a capitania de Pernambuco, mas hoje faz parte da cidade de União dos Palmares, em Alagoas. A população, formada por pessoas que fugiam da escravidão, incluindo indígenas, soldados desertores e brancos pobres e marginalizados que se uniram aos negros bantos do núcleo estruturante e maioria na comunidade.
Durante os quase 100 anos de existência do quilombo, o grupo sobreviveu da agricultura diversificada (milho, mandioca, feijão e cana-de-açúcar), caça, pesca, artesanato, ferraria e trocas comerciais com vilas vizinhas. Liderados por Aqualtune, Ganga Zumba, Zumbi e outros líderes guerreiros, foi possível resistir a dezenas de expedições militares.

No entanto, em fevereiro de 1694, o quilombo foi destruído pelas forças do Bandeirantes Domingos Jorge Velho. Somente nessa investida, centenas de quilombolas foram mortos na ofensiva e um grande número de pessoas que se recusavam a voltar a ser escravos se suicidaram, jogando-se do abismo ou caindo dele durante a fuga. Outras 500 pessoas, a maioria mulheres e crianças foram presas e reescravizadas após a distribuição deles para os paulistas e oficiais pernambucanos.
Desde a criação do Quilombo de Palmares, também conhecido como Angola Janga (Pequena Angola), é possível cogitar que nas cerca de 30 expedições e no ataque final milhares de pessoas foram mortos.
Zumbi conseguiu fugir. E manteve a resistência por cerca de um ano até ser delatado por Antônio Soares, homem de confiança do líder negro. Soares não só entregou o local do esconderijo do comandante de Palmares, na Serra dos Dois Irmãos, como o esfaqueou na barriga com uma adaga.
Em seguida, as tropas do bandeirante saíram da mata e mataram o quilombola. Após a emboscada, a cabeça de Zumbi foi cortada e levada para Recife, onde ficou exposta para desmistificar a crença de que ele era imortal.
Em 20 novembro de 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso decretou a inclusão do líder negro no “Livro de Heróis da Pátria”. Quinze anos depois, a presidente Dilma Roussef criou o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, deixando a cargo dos estados e municípios a definição de decretar ou não feriado. Em 2023, o presidente Lula sancionou a Lei 14.759, que instituiu o dia da morte de Zumbi como feriado nacional a partir de 2024.
Apesar disso, a tragédia escravagista não será apagada. Além disso, União do Palmares registrou no século XXI duas outras tragédias, que estão marcadas na memória do povo.
OCASO NA SERRA

No dia 24 de novembro de 2024, ano em que pela primeira fez foi comemorada a data da Consciência Negra e do herói negro Zumbi, um ônibus escolar saiu de União de Palmares para levar 48 pessoas, a maioria jovens e crianças, para assistir o cair do sol, no alto da Serra da Barriga. O passeio fazia parte do projeto Pôr do Sol, criado pela prefeitura palmarina.
O veículo só não ia mais cheio porque havia a determinação de não levar passageiros em pé. O trajeto de 15 minutos, por cerca de nove quilômetros, é bucólico. E a subida da serra tem uma vista incrível. No caminho, há fazendas, restaurantes, pelo menos um terreiro de candomblé. O local é considerado histórico para o Brasil, sagrado para religiões de matriz africana e patrimônio cultural do Mercosul.
A estrada estava movimentada. O ônibus escolar se arrastava ladeira acima até que o motorista perdeu o controle. O veículo desceu de ré, caiu de uma ribanceira e se projetou por 30 metros (equivalente a 10 andares) em queda livre. Após bater na encosta, o ônibus ainda deslizou por 120 metros (há quem diga que a queda foi de 400 metros de altura) até parar no meio da vegetação.
Três viaturas e um helicóptero do Corpo de Bombeiros foram mobilizados para fazer o resgate das vítimas. No local, morreu o motorista e mais 16 pessoas, incluindo uma gestante. Outras três morreriam no hospital nos dias seguintes. As vítimas tinham entre quatro e 84 anos.

As investigações da polícia apontaram falha humana como causa do acidente. Os laudos periciais informaram que o ônibus não apresentava falhas mecânicas que pudessem provocar a queda, reforçando a tese de imperícia do motorista ou erro de condução.
Em julho deste ano, o Ministério Público de Alagoas (MP-AL) determinou o arquivamento do inquérito policial. Como o motorista do veículo estava entre as 20 vítimas fatais do acidente, houve a extinção da punibilidade por morte do agente.
O Ministério Público de Alagoas (MPAL) ajuizou uma ação civil pública cobrando indenizações por danos morais e materiais da prefeitura, dona do ônibus. No entanto, as indenizações às vítimas e aos familiares não foram pagas. Decisão liminar garantiu o custeio de despesas médicas e psicológicas para as vítimas, mas a definição sobre a compensação financeira definitiva não foi decidida pela justiça.
DEBAIXO D`ÁGUA
A comunidade do Muquém foi reconhecida, em 2005, pela Fundação Palmares, como única remanescente do quilombo de resistência instalado no alto da Serra da Barriga. As terras no sopé do monte foram ocupadas há mais de 200 anos e ficaram conhecidas pelo artesanato de traços primitivos, produzido por artesãs e artesãos. A mais famosa é Mestra Irinéia, cujo nome que consta na identidade é Irinéia Rosa Nunes da Silva.
Pois bem, em junho de 2010, uma série de fatores climáticos provocou uma enchente devastadora do Rio Mundaú, que invadiu e destruiu o quilombo do Muquém. Entre os dias 17 e 19 de junho, um sistema conhecido como Distúrbio Ondulatório Leste (Dol)[1], causando chuvas extraordinárias nas cabeceiras dos rios Mundaú e Paraíba do Meio, no agreste Pernambucano.

Como estava chovendo há semanas na região, a água da chuva escorreu para as calhas dos rios. O grande volume de água desceu os vales em alta velocidade. Cidades rio abaixo receberam violenta e repentina cheia, pegando a população e as defesas civis de surpresa.
A tragédia resultou em mais de 50 mortes em Alagoas e Pernambuco, além de centenas de desaparecidos. Mais de 100 mil pessoas perderam suas casas nos dois estados.
Em Muquém, a velocidade com que o nível da água subiu cortou qualquer rota de fuga convencional. Sem tempo para correr em direção às áreas mais altas da cidade, a única alternativa de sobrevivência para dezenas de quilombolas foi escalar as copas das jaqueiras centenárias e se abrigar nos poucos telhados que resistiram à forte correnteza.
Os sobreviventes permaneceram nas árvores e nos telhados por até 18 horas até serem localizados e resgatados pelas equipes de salvamento.

Como a antiga área de Muquém ficava às margens diretas do rio e corria risco iminente de novas inundações, a comunidade precisou ser reassentada. A nova vila do Muquém foi construída em um terreno mais alto e seguro, situado nas encostas da histórica Serra da Barriga. Foram construídas 142 novas casas pelo governo federal para abrigar as famílias afetadas.
A nova área passou a contar com equipamentos públicos estruturados, incluindo uma escola em tempo integral, posto de saúde e uma oca comunitária voltada para eventos e assembleias locais.
Mestra Irinéia foi uma das pessoas que não teve tempo de se proteger das chuvas. Ela, o marido, familiares e vizinhos, escaparam porque escalaram uma pilha de dormentes que tinha no quintal da casa. Anos depois, a artista transformou o episódio em duas peças de barro “A Jaqueira” e “A lenha”, que estão entre as suas obras as mais vendidas.
Veja o vídeo dela contando como sobreviveu à enchente e como surgiram duas das peças de seu artesanato que mais vendem.
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Pé de página
[1] Também conhecido como Onda Leste é um fenômeno meteorológico que se forma da baixa atmosfera sob a influência de ventos alísios, fluxo de ar constante e úmido, que se desloca da costa da África em direção ao continente americano e atingindo o litoral do Nordeste brasileiro. O distúrbio libera forte liberação de calor e, ao encontrar o ar aquecido do litoral, dá origem a enormes nuvens cumulonimbus, gerando ventos fortes, raios e chuvas muito intensas. O fenômeno provoca transbordamento de rios, enchentes, alagamentos e deslizamentos nos estados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte e Sergipe.
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Legenda da foto principal: Muxima de Palmares, o coração do quilombo. Local onde os líderes quilombolas são homenageados. Foto: Paulo Oliveira.
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Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.





