Memórias escritas com palha de milho

Capítulo 5 da série “Fibra sergipana”

– Paulo Oliveira –

Josefa Maria, a avó de Joelma, ao lado do forno para queimar o barro. Reprodução

Josefa Maria de Jesus, “a menininha do boi de barro”,  e José João moravam em povoados a oito quilômetros um do outro, em estados diferentes. A mulher era de Pau Preto, em Paripiranga (BA), o homem de Pau de Leite, em Simão Dias. Avós de Joelma Batista Santana, eles deram início a tradição familiar de transformar o barro em arte. Faziam milagres com as mãos e criavam santos e diversos animais. As técnicas foram passadas para os filhos – tios e mãe da personagem central dessa história.

Em 1993, morando em Salvador, Joelma resolveu trabalhar para ajudar na renda da família. O que Manuel ganhava não dava para custear as despesas do casal e dos dois filhos. Foi aí, que a tradição artesanal que corria no sangue dela há mais de 60 anos começou a se manifestar.

Mesmo sem nunca ter prestado atenção no que a família fazia com o barro, a ex-técnica de enfermagem, que sonhava em fazer medicina, resolveu tentar a sorte com o artesanato. À época, ela tinha 35 anos.

Os primeiros trabalhos, oferecidos de porta em porta, foram ímãs de geladeira, feitos de tecido, e Mamães e Papais Noéis reciclados de garrafas PET. De volta a Simão Dias, cidade natal, em 2005, Joelma passou a criar bonecas de pano.

Dezessete anos depois, em uma reunião preparatória para a construção da Casa do Artesanato Simão-Diense, projeto do governo estadual e do Banco do Estado de Sergipe (Banese), ela conheceu a matéria-prima que a notabilizaria: a palha de milho.

“Chegou um pessoal que estava dando apoio à iniciativa. Um deles levou uma cabaça com uma santa dentro dela, feita com a fibra do milho. Fiquei curiosa, mas permaneci quietinha. Passados uns dias, visitei minha irmã que tem um sítio no interior. Lá tem uma plantação de milho e me deu vontade de pegar a palha para trabalhar. Em casa, tentei fazer uma peça. Não deu certo. Depois, comprei uma cabacinha na feira e, após algumas tentativas, produzi a mesma obra de arte que vi na reunião” – detalha.

Joelma e Ézio, ex-supeintendente do Banese. Foto cedida pela artesã

Quem havia levado a peça para o projeto da Casa do Artesanato foi Ézio Déda, escritor, arquiteto e ex-superintendente do Instituto Banese. A intenção dele era que pelo menos uma pessoa dentre as cinco dezenas de artesãos e artesãs do município se interessasse pelo material. Afinal de contas, Simão Dias é o segundo maior produtor de milho do estado e chega à colher entre 130 mil e180 mil toneladas por ano. Com as cidades de Carira e Poço Verde, os três municípios formam o núcleo de produção de grãos de Sergipe.

PROTETORA DAS GESTANTES

A santa que Joelma esculpiu homenageava Nossa Senhora do Parto. Esse primeiro trabalho foi vendido para uma funcionária do Banco do Nordeste, que presenteou a prima grávida.

“Aí eu fiquei entusiasmada, né? Eu disse: ‘Se a primeira deu certo, vamos fazer a segunda. E aí, graças a Deus, meu trabalho foi se expandindo” – lembra.

Depois de uma sequência de santos, Joelma teve a ideia de colocar a infância dela para jogo, reproduzindo as brincadeiras do tempo de menina.

A primeira foi a menina soltando pipa, reproduzida na campanha de Natal do Banese, em 2024. Os braços e pernas da boneca foram feitos com arame retorcido.

A propaganda intitulada “É tempo de ir além”, destacava a importância da cultura, dos saberes e das raízes do povo sergipano. Nela, bonecos de fibra de milho animados reproduziam cenas cotidianas, como o trabalho no campo, a pesca e a produção artesanal.

Campanha do Banese 2024. Reprodução

Como resultado, a arte de Joelma passou a ser reconhecida muito além dos limites do agreste sergipano. Além da menina da pipa, surgiram a menina do balão, do catavento, da boneca, a criança pulando corda e a bailarina:

“Eu dançava na calçada com as meninas porque naquela época não tinha escola de balé. Eu era meio moleque” – conta e dá uma risada.

Na sequência veio a coleção “Vestido Vermelho”, que homenageia a mãe da artesã:

“Ela fazia minhas roupas. Eu gostava muito do vestido que ela fez pra mim. Além de costurar, minha mãe penteava o meu cabelo, passava minha roupa com aqueles pesados ferros em brasa. Cada coleção tinha quatro peças, mostrando todas essas situações. Levei várias delas para uma feira em São Paulo. Todas foram vendidas”- diz.

As encomendas, à princípio feitas por funcionários do banco estadual, cresceram via Instagram.

CABAÇAS

O convite para fazer parte da Casa do Artesão partiu da coordenação do projeto. Na época da inauguração havia 58 participantes. Agora são 32 artesãos e artesãs, que também se revezam no atendimento aos turistas e clientes. O turno de Joelma é das 17 às 21 horas, aos sábados.

“Esse trabalho me ajuda a pagar boletos, comprar uma peça de roupa ou de cama.” – revela.

Joelma produz cinco a seis peças por dias e ainda cuida da mãe, acamada.

Material usado por Joelma. Foto cedida pela artesã.

Para fazer cada peça é necessário borrifar a palha de milho para que fiquem flexível e possa ser moldada. Pernas e braços são produzidos com arame; para a cabeça, uma bola de isopor pequena. São necessárias ainda cola instantânea e uma base de madeira (pinho) para sustentar a imagem.

Algumas esculturas recebem fibra de banana no corpo ou na roupa e palitos de churrasco nas sombrinhas ou cestos que as meninas carregam.

Joelma incrementa suas peças com cabaças. Dentro da cuia são montados presépios de diversas formas ou a Santa Ceia. Serrar a cabaça é função assumida pelo marido da artesã.

Depois é preciso limpar o fruto da cabaceira, uma espécie de trepadeira, para tirar as impurezas. Pintar o interior e passar verniz fazem parte do processo de embelezamento do porongo. Há, porém, fregueses que preferem a cor natural.

Vale lembrar que, enquanto no Nordeste a cabaça é utilizada na confecção de caixas de ressonância do berimbau, no Sul do país e do continente ela se transforma em cuia de chimarrão.

A curiosidade da artesã não tem limites. Atualmente, ela está experimentando trabalhar com pó de café. Ela viu a técnica de uma artesã paulistana e reproduziu sozinha, pois a colega se recusou a contar os segredos dessa arte. A sergipana foi descobrindo aos poucos como fazer esse trabalho, utilizando cola branca de escola ou a cola caseira feita com palma-forrageira e farinha de trigo. Depois, tudo é moldado à mão.

As primeiras peças que fez foram o crucifixo, terços, um macaco parecido com o King Kong. Para fixar a borra é necessário passar verniz incolor depois da escultura secar ao sol entre cinco e 15 dias.

REPERCUSSÃO

A prática do artesanato com palha de milho se difundiu em Simão Dias. Há mais de uma pessoa que trabalha com esse material. No entanto, Joelma diz que a concorrência opta pelas obras clássicas, ou seja, as bonecas. Porém, segundo ela, as concorrentes não colocam os acessórios: sombrinha, cestos, vaso de flores…

A simão-diense já ministrou uma oficina para duas dezenas de pessoas em Aracaju. Os ensinamentos fizeram parte da contrapartida exigida aos beneficiados pela Lei Aldir Blanc.

TRABALHOS FEITOS À MÃO

Devido ao sucesso do modelo descentralizado de distribuição de verbas para municípios e estados, a lei deixou de ser apenas emergencial e tornou-se política pública permanente de fomento à cultura.

As aulas serviram ainda para garantir a permanência da artesã na Casa do Artesanato. Outra forma de se manter no local é a permuta por obras dos artistas.

Embora admita que já teve vontade de desistir da profissão por conta de dificuldades com a logística e o preço da matéria-prima, sempre em alta, Joelma sonha em ter um negócio próprio. A vontade parece estar prestes a se materializar quando ela participa de feiras de artesanato em outros estados.

Por exemplo, na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (Cop-30), realizada em novembro do ano passado, em Belém (PA), a artesã vendeu dezenas de peças para participantes do Egito, Estados Unidos, Argentina, Peru e Finlândia.

“Não é só por vender. A gente fica empolgada, feliz porque conhece pessoas e novas culturas. Tudo que está me perturbando é deixado de lado. Adoro participadesses eventos” – comenta.

Artesã mostra o crucifixo feito com borra de café. Foto: Paulo Oliveira

Do ponto de vista da produção, a artesã não para de ter novos planos. Agora ela quer incluir a avô em seus trabalhos, reproduzindo dona Josefa negociando seus bois e santos na feira de sábado, em Simão Dias.

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Legenda da foto principal: Joelma e seus trabalhos feitos com palha de milho. Foto: Paulo Oliveira

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SERVIÇO: Instagram: @atelie.j.a

  WhatsApp: 79 9 9682-4892

Aplicativo: atelieja.netlify.app

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Leia a série completa:

Bloco 1

A santa peruana que veio parar no Nordeste As preciosidades de Santa Rosa de Lima Uma mulher de fibra

Bloco 2

A cidade com nome de vaqueiro

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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