O fabricante de cachimbos

Antes de se estabelecer em Campo Redondo, no semiárido potiguar, e se tornar referência na fabricação de cachimbos, André Rayatty atuou como pedagogo, em Natal, capital do Rio Grande do Norte. As mudanças de profissão e de modo de vida ocorreram depois que ele começou a produzir as peças, que hoje são vendidas entre 250 e 1.000 reais, dependendo do formato e da madeira utilizada.

“As máquinas, como o esmeril e o torno, utilizadas para fazer os cachimbos artesanais são muito barulhentas. As paredes de onde eu morava eram coladas a dos vizinhos, que ficavam incomodados. Comecei a pensar em uma forma de sair dali a todo custo. Veio a pandemia e deu o impulso que eu precisava. Larguei tudo e investi nas redes sociais. Quando comecei a receber encomendas quase que diariamente, desisti de trabalhar na área de educação e das pinturas que fazia porque os cachimbos tomaram conta de tudo” – conta o artesão.

De quebra, Rayatty ganhou inspiração e paz, proporcionada pelo sertão.

“Acordar de manhã, ouvindo o galo cantar e o som dos bodes é muito inspirador” – completa o fabricante.

André Rayatty. Reprodução

Os cachimbos ao que tudo indica tiveram origem nas Américas. Eles eram usados, principalmente, em rituais sagrados no período pré-colombiano [1]. A presença deste objeto é citada em diferentes mitologias de etnias como fundamental para a criação do mundo. No Amazonas, o avô do Sol, criador de todas as coisas, soprou fumaça do cachimbo. E dela, fez-se a Terra.

Inicialmente feitos em barro, os apetrechos indígenas se disseminaram pelo mundo, ganhando diversos formatos, a partir de diferentes matérias-primas. Também ganharam outros usos: estimulante intelectual, uso de drogas ilícitas, por exemplo.

André Rayatty sempre gostou de fumar, mas preferia charuto em vez de cigarro. Certo dia, viu um cachimbo em uma loja e passou a se interessar pela prática de fumar, utilizando o objeto.

“Foi algo bem intuitivo. Até hoje acho que não podemos fumar cachimbo por modismo. É preciso gostar mesmo porque não é algo tão simples para ser pitado” – acredita.

O primeiro pito que comprou era bem simples. Aos poucos, até pelo preço, foi comprando uns melhores. A falta de condições financeiras para usar os mais sofisticados fez com que produzisse os primeiros protótipos.

“Fiquei maravilhado quando consegui fazer sair fumaça de um deles. Mostrei para minha mãe muito empolgado e disse que estava pensando em fabricar e vender cachimbos. Ela disse: ‘Quem vai comprar essa merda?’” – conta e ri. Em seguida, diz que a reprovação o estimulou a seguir em frente.

Quando fabricou o quarto exemplar, o dono de uma tabacaria, em São Paulo, que o acompanhava desde a primeira experiência, disse que Rayatty estava no caminho certo. O mentor fez a primeira encomenda: dois cachimbos.

A busca pela perfeição prolongou o trabalho por um ano e meio. Quando recebeu a encomenda chegou, o comerciante fez um vídeo e postou no You Tube, elogiando o artesão nordestino [2].

“Ele colocou a gravação de manhã. No final da tarde, eu já estava cheio de encomendas. Mesmo sem experiência, aceitei todas. Foi um grande desafio. Estávamos em 2015” – recorda.

Para se aperfeiçoar, Rayatty usou como referência empresas estrangeiras que estão há cerca de 200 anos no mercado. Depois do mentor, o primeiro cliente foi um fumante de João Pessoa, na Paraíba. Desde então, a qualidade dos produtos passou a ser elogiada. Logo, com a ajuda da internet, o potiguar virou referência nacional de produção artesanal. Ele utiliza esmeril, torno, serra de fita e furadeira. Serrote só para fazer alguns detalhes específicos.

Todo cachimbo começa a partir de um bloco reto de madeira, que vai sendo lixado no esmeril até ganhar forma. A estrutura de cada um tem câmara de ar, câmara de condensação e fornilha. São necessárias três perfurações para proporcionar prazer ao fumar. Já as piteiras são produzidas com delrin, uma espécie de resina, acrílico ou chifre.

Tanto a forma quanto o tipo de madeira utilizado interferem no degusto. No modelo Bent, dependendo do tabaco, o saboreio vai ser diferente do formato reto. Existem ainda madeiros que soltam uma seiva e tornam o gosto desagradável.

CACHIMBOS E FUMANTES FAMOSOS
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A maioria dos apreciadores possuem diversos cachimbos e fazem rodízio. Há quem possua 1.500, 3.000 cachimbos e os utilize fazendo rodízio. Importante ressaltar que o hábito de revezar o objeto faz com que eles durem 200, 300 anos.

A madeira mais utilizada por Rayatty é o pau d’arco do Nordeste, mais conhecido como ipê roxo. Antes, era a imburana, que tornou o trabalho do artesão elogiado. No entanto, por ter se tornar escassa na região e por absorver muita umidade – ela pode levar até seis anos para ficar bem seca – foi necessário buscar uma alternativa.

O fabricante nordestino também utiliza madeiras de outras partes do mundo como a briar, extremamente apreciada pelos cachimbentos. Ela é importada de países como a Itália, Grécia e Argélia. Um tipo de carvalho semi-fossilizado e enegrecido, encontrado no fundo dos pântanos da Ucrânia e da Rússia é outra opção:

“Essa madeira, chamada de morta, tomba e é arrastada pela correnteza para os pântanos. Lá, ficam enterradas por um longo tempo. É preciso fazer uma datação de carbono para determinar a idade. Normalmente, varia de 500 a 1.200 anos. Existem equipes especializadas em encontrar morta” – explica.

Além da madeira, pode-se utilizar bambu de cana da Índia, prata e ouro para fazer adornos nas peças. Tudo isso encarece o valor final do cachimbo. O artesão aconselha os iniciantes a adquirirem as peças mais simples até ter certeza de que gostam mesmo de fumar.

Alguns modelos possuem tampas no fornilho (local onde se queima o fumo). As tampinhas são usadas em áreas ao ar livre, onde há corrente de vento forte. Ela evita a sobrecarga de temperatura e não deixa a madeira rachar. Ela possui perfurações para permitir a entrada de ar e oxigenar a parte interna da peça.

Os tipos de cachimbo possuem nomes conhecidos mundialmente: Full Bent, Calabash, Billiard Bent, Oom Paul, Bulldog e Apple Chuby. Além deles, Rayatty produz a linha sertão, criada por ele, na qual se destaca o modelo Asa Branca, um dos recordistas de venda desde 2021.

A coleção surgiu depois que um cliente baiano, praticante de religião afro-brasileira, encomendou dois cachimbos e deu liberdade de criação para o artesão potiguar.

“Comecei a imaginar o que poderia ser feito. Aí sonhei com o Asa Branca. Quando mostrei para o comprador, ele disse que ficou da forma com que as entidades com as quais trabalhava idealizaram. O restante da linha veio a seguir” – revela.

São Cipriano, bispo da Antióquia e famoso mago do século III, é um personagem mítico, cujos escritos geram polêmicas e histórias de superpoderes, como ficar invisível ou se transformar em animais. Os relatos inspiram contos fantásticos e provocam medo no sertão. Ele também é uma entidade da umbanda. Pois bem, um rapaz do Rio de Janeiro, que ‘trabalha’ com o guia, encomendou um cachimbo e aprovou o trabalho. O próprio Cipriano incorporado elogiou a peça e disse que encomendaria outras.

A rotina de Rayatty inclui a produção de até 35 cachimbos por mês, mas ele ressalva que os mais demorados são fabricados em quatro dias. Um dos fregueses importou morta da Ucrânia para o artesão produzir a peça. Isto foi feito antes do início da guerra russo-ucraniana. Atualmente, é desaconselhado fazer a compra porque há um grande risco de ela não ser entregue.

O fabricante ressalta que também se inspira em grandes nomes das artes e da literatura, fumantes de cachimbo, em seus trabalhos. Ele cita o filósofo polonês Zigmunt Bauman e os cantores Roberto Carlos e Belchior.

A curiosidade por tudo que envolve o hábito de fumar fez André Rayatty plantar fumo, tipo Virgínia, mais adocicado que o Burley. Ele mistura os dois tabacos na proporção de 70% e 30%. Segundo ele, o solo sertanejo faz o Virgínia ter um sabor diferente do que é produzido no Sul do país.

O recente fumageiro encomendou recentemente sementes de Mata Fina, usado em charutos, e Burley para fazer experiências de misturas:

“Talvez com a demanda crescente, eu consiga destinar alguns fardos de tabacos para meus clientes” – planeja.

–*–*–*–

[1] A era pré-colombiana engloba todas as subdivisões periódicas na história e na pré-história das Américas, antes do aparecimento dos europeus no continente americano.

[2] Segundo Rayatty, no Brasil existem poucos fabricantes experientes de cachimbo. Ele conhece 10, distribuídos pelo Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. No Nordeste, além dele, há outro artesão em Fortaleza, no Ceará.

–*–*–*–

Contatos de André Rayatty:

Celular:  84 9 8861-5791

Instagram: @rayatty.pipe

 

Nasceu e cresceu numa típica família brasileira. Potiguar, morando na Bahia há vinte anos, é médica de formação e pesquisadora da cultura popular. Nos últimos 10 anos abandonou a sua especialidade em cardiologia e ultrassonografia vascular para atuar como médica da família na Bahia e no Rio Grande do Norte, onde passou a recolher histórias e saberes. Nessa jornada publicou cinco livros.”. No final de 2015 passou temporada no Amazonas recolhendo saberes indígenas.

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4 respostas

  1. Bom dia, senhores.
    Aprecio o prazer de fumar um cachimbo, obviamente com um fumo de qualidade e sabor.
    Ocorre que estou a procura de piteira para meu cachimbo, a qual teve parte da referida peça, destruída pela ação de meu cachorro domestico.
    Não encontro essa parte (piteira) em nenhum lugar que pudesse repor para uso de meu cachimbo.
    Pergunto aos senhores: vcs vendem essa peça como reposição e remetem à pessoa. Tenho interesse em comprar 3 peças, modelo convencional para meu estoque.
    Apreciarei que em havendo o fornecimento, me informe o custo da peça e remessa.
    Cordialmente,
    Walter
    Cordialmente

    1. Senhor Walter, boa noite. Nós somos um site jornalístico, apenas fizemos a reportagem. O senhor deverá entrar em contato com o fabricante André Rayatty. Os contatos dele são: 84 9 8861-5791 (celular) e @rayatty.pipe (Instagram).

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