Sejam bem-vindos à Ilha de Deus

 

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Guilherme dos Santos, Laysa Vitória e Letícia Barbosa

Recife, a cidade construída sobre suas águas e seus mangues, carrega em sua história um embate infindável do pseudo progresso contra o meio ambiente. Espigões são erguidos, vias urbanas se multiplicam, empreendimentos surgem sufocando biomas e a especulação imobiliária é prática comum na capital pernambucana, conhecida como a “Veneza brasileira”. Com isso, os rios adoecem e a paisagem, emoldurada por lixo, vira natureza morta.

O avanço da disputa territorial tem como consequência danos ambientais, que atingem em cheio àqueles cuja sobrevivência depende dos rios e da maré. Os desafios de pescadores, pescadoras e marisqueiras afetados pela ganância e pela falta de ação dos órgãos responsáveis e dos governos municipal e estadual são o tema do documentário “Órfãos do Mangue: o projeto de destruição ambiental e os impactos nas comunidades pesqueiras”.

Financiada pelo Instituto Vladimir Herzog, a produção foi uma das três pautas vencedoras do 15° Prêmio Jovem Jornalistas Fernando Pacheco Jordão, que seleciona equipes de estudantes de jornalismo de todo o Brasil para a realização de um documentário. O tema deste ano foi “Novas e velhas lutas: qual o papel do jornalismo na reconstrução do Brasil?”.

Nosso time, da Universidade Federal de Pernambuco, foi composto por Guilherme dos Santos, Laysa Vitória e Letícia Barbosa. Investigamos os ataques que uma comunidade sofreu e ainda sobre com o derramamento de óleo em 2019, a poluição e a crescente especulação imobiliária, que ameaça os territórios pesqueiros.

A protagonista do filme foi a Ilha de Deus, localizada a 7,5 quilômetros do centro de Recife. A comunidade tem cerca de dois mil habitantes, dos quais cerca de 80% (1.600) dependem da pesca artesanal. Cercada pelos rios Jordão, Tejipió e Pina, e perfumada pelo cheiro de peixe, a Ilha de Deus possui um dos maiores manguezais urbanos da América Latina.

Lá, é possível assistir a rotina de homens e mulheres que têm suas vidas definidas por marés. As cascas de sururu espalhadas pelo chão dão a ideia do trabalho de quem se dedica ao tratamento dos mariscos. As casas simples dos pescadores dividem espaço com uma aberração: um shopping erguido sobre o mangue.

FALSO ALERTA

A primeira visita à Ilha de Deus, feita com o objetivo de identificar as fontes que entrevistaríamos, começou com emoções fortes. Nenhum de nós conhecia o local. E o motorista de aplicativo contava histórias sobre os perigos da “ilha sem Deus”, que era utilizada nas décadas de 1980 e 1990 como esconderijo de criminosos por causa do isolamento e do abandono.

“Sejam bem-vindos à Ilha de Deus. Vocês estão em um lindo lugar”. Essas foram as palavras do motorista que, depois de cultivar o medo, se despediu com ironia. Mal sabia que estava sendo profético.

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O que encontramos na comunidade foram pessoas acolhedoras, sorridentes, trabalhadoras, e, sobretudo, resistentes. Maria de Fátima da Silva, marisqueira há 55 anos, como ela se orgulha em repetir várias vezes; seu Paulo, que nos ofereceu um passeio de barco; e uma dezena moradores entrevistados posteriormente foram solícitos e acolhedores. Realidade bem diferente da que foi apresentada pelo motorista. Não à toa, Mamão, nascido em outra comunidade pesqueira, afirmou que a Ilha de Deus é o melhor lugar que ele já viveu.

Após a primeira visita, houve mais cinco para realizar gravações. Ficamos atentos para não perder nada. Tudo era informação. Toda fala, imagem e emoção. E como não havíamos de ter uma imersão nesse lugar? Até a trilha sonora nos cercava. Através de alto-falantes da rádio comunitária nos postes da ilha. Ouvimos muitas músicas que conversavam com a realidade do local.

Uma delas, chamada “1975”, do cantor pernambucano Vinícius Barros, foi essencial para a construção do nosso mini documentário. Quando a escutamos, não perdemos tempo: anotamos e gravamos um áudio para ter certeza que ela não se perderia em nossas mentes. Entramos em contato com Vinícius, que autorizou o uso da composição no documentário.

Cada nova entrevista e descoberta tornava a ilha mais encantadora. As paredes extremamente coloridas das casas e os diversos animais – gatos cachorros, galinhas e pássaros – representavam para nós o amor das pessoas pelo local. Entretanto, esse sentimento pelo local e pela profissão de pescador ganhava tom de preocupação quando a pergunta era: “Como a especulação imobiliária e a poluição afetam a pesca?”. O rosto sorridente ganhava feição de aflição.

As denúncias e relatos dos moradores se concretizaram em um passeio de barco, oferecido por Fábio Pereira, um dos pescadores. O que era discurso se materializou. Das águas, esverdeadas pela poluição, vinha o cheiro de podre.  A cena mais impactante saiu de um cano largo, próximo à estação de tratamento da Companhia Pernambucana de Saneamento.  O duto expelia água fedorenta, de coloração escura e com espumas. A destruição do mangue se tornou visível.

Só mais distante é que a situação melhorava. As águas pareciam mais limpas e havia peixes. No entanto, os pescadores estão proibidos de trabalharem ali por seguranças de empreendimentos como o Iate Clube Cabanga e Novotel, torres de prédios altíssimas. Contactadas, as empresas não quiseram se manifestar.

A MONTAGEM DO FILME

Construir o roteiro e editar o documentário se revelou como um grande desafio, pois os pescadores tinham muito para falar e o tempo estipulado para o documentário era curto. Nossa missão era sintetizar as seis horas de gravação e de imagens captadas pelo cinegrafista Sebastião Possidônio em 15 minutos.

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Debatemos muito para decidir o que entrava e as partes que, infelizmente, precisavam ser cortadas. Além da preocupação em denunciar os abusos sofridos pela comunidade pesqueira, queríamos repassar as sensações que vivenciamos na Ilha de Deus.

Buscamos, sobretudo, evidenciar os depoimentos e as falas dos pescadores e pescadoras. Era preciso mostrar como tudo mexia com eles. Foi por isso que optamos por mostrar a vergonha de Fábio Pereira em mostrar os pés com as cicatrizes deixadas pela cerâmica de banheiro que o feriu na maré; a irreverência do vice presidente na colônia de pescadores, Augusto de Lima, ao falar sobre os males causados pelo governo de Bolsonaro; e a preocupação com o futuro das filhas manifestada pela pescadora Alessandra Fernandes. Era essencial mostrar a humanidade deles.

Nos propomos a falar das pessoas fortes que, apesar de tudo, se orgulham das lutas que enfrentam. O documentário é sobre tantos outros personagens que mesmo não aparecendo no vídeo, influenciaram na forma que a história seria contada. As artesãs que transformam cascas de mariscos em arte, o comunicador que fomenta cultura, a ciranda de mulheres. Enfim, as diversas formas de resistência na Ilha de Deus.

Ter a oportunidade de produzir Órfãos de Mangue foi indescritível para nossa vida profissional, pois foi uma oportunidade de aprofundar as técnicas de jornalismo, como apuração, entrevistas, pesquisa, decupagem, transcrição, roteiro, e uma série de técnicas jornalísticos que devemos pôr em prática em qualquer trabalho.

Além disso, o documentário nos mostrou a potência em denunciar injustiças e ter sensibilidade no trato com nossas fontes e pautas. Descobrimos, com isso, o jornalismo que queremos fazer. Aquele que  expõe injustiças sociais, ambientais e identitárias.

“Órfãos do Mangue” nos trouxe pessoas importantes que desejamos levar para o resto de nossa caminhada E nos apresentou um lugar que desperta curiosidade e interesse, pois sabemos que há ainda muito para se falar sobre a comunidade. Lá, as pessoas querem contar suas histórias, são amáveis, acolhedoras e batalhadoras. Para a surpresa de um certo motorista de aplicativo, fomos muito bem-vindos à Ilha de Deus.

DOCUMENTÁRIO PREMIADO

–*–*–

Legenda da foto principal: Marisqueira. Reprodução do documentário.

Equipe da UFPE Contributor

Guilherme dos Santos, Laysa Vitória e Letícia Barbosa são estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco. Vencedores do 15º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, realizado pelo Instituto Vladimir Herzog, também formam o Coletivo Caburé. Eles estão acompanhados da professora Adriana Santana.

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