A artesã que borda folhas

De como uma jovem mulher negra superou dificuldades e transformou tudo em arte 

Angelina Nunes e Paulo Oliveira

O relógio marcava 14h de um domingo em que o sol se escondia entre as nuvens. O tempo nublado refletia o estado de espírito de Kathellen Wiliane dos Santos, que aos 26 anos buscava um sentido novo para os seus dias. Quatro meses haviam se passado desde o nascimento de sua filha, e entre as funções de atendente na Sala Saberes e Fazeres e as esperas por turistas, ela sentia a necessidade latente de criar algo que carregasse sua própria identidade. Naquele instante, o tédio e uma inquietação causada por problema afetivo pediam uma saída que o crochê e o fuxico [1] ainda não haviam preenchido totalmente.

Sentada na Casa Amarela [2], antigo Centro de Artesanato de São Cristóvão, a “Cidade Mãe de Sergipe” [3], Wiliane observou o quintal através de uma janela. Lá fora, viu a copa de uma árvore balançar ao vento, despertando uma curiosidade súbita e despretensiosa. Sem planejar, a atendente caminhou até o eucalipto e arrancou um pedaço. Aquele vegetal, seria o ponto de partida para uma transformação artística que uniria a fragilidade das folhas à força do bordado.

 

A inclusão de novos elementos mostra a evolução artística da artesã. Foto: Paulo Oliveira

De volta ao seu canto, sem técnica prévia para superfícies tão delicadas, Wiliane viu a folha se partir sob a pressão da agulha, revelando que seria necessária empregar técnica diferente da que era utilizada no tecido. A primeira palavra que desenhou foi “Amor”, que se despedaçou, talvez transparecendo o que o coração dela sentia.

A trajetória de Wiliane na Sala Saberes e Fazeres havia começado em julho de 2022, inicialmente para representar o trabalho de outro artesão, como o xilogravurista Mestre Nivaldo Oliveira, renomado restaurador e conhecedor da artesania barroca [4].

Enquanto observava os corredores repletos de quadros e bonecas, ela se perguntava se um dia alcançaria uma arte que fizesse as pessoas lembrarem dela. Incentivada pela coordenação do espaço, a jovem experimentou o fuxico e o crochê, mas foi no bordado que encontrou a voz que procurava.

A transição do tecido para o suporte vegetal exigiu o desenvolvimento de um método próprio e intuitivo. Embora tenha aprendido os pontos fundamentais com as artesãs Tatá e Marta Menezes, a aplicação na folha foi uma descoberta solitária. O que começou como um experimento para aplacar o tédio em um domingo silencioso evoluiu para marcadores de livros, inicialmente. Mas para a artista do bordado não seria vantajoso produzir uma peça que custava 10 reais em uma época em que as telas dos celulares substituíram o papel.

 

Wiliane busca inspiração na Praça de São Francisco, Patrimônio da Humanidade. Foto: Angelina Nunes

A são-cristovense, que adotou o nome artístico de K. Wiliane, contou que utiliza folhas de diferentes árvores: eucaliptos, cajueiros ou gameleiras. Elas são frequentemente coletadas do chão, ressignificando o que poderia ser descartado como lixo. Gislene e até Kayla, respectivamente amiga e a filha de quatro anos da artesã, buscam no chão do quintal de uma casa em um povoado e na rua, folhas adequadas para serem bordadas.

Antes de receberem a linha, as folhas passam por um período de secagem natural que dura até dez dias. Em seguida, cada folha é limpa e passa por um tratamento de superfície. As etapas seguintes são o desenho e o bordado, que pode levar até três dias, dependendo da complexidade do ponto. Wiliane utiliza técnicas como o ponto cheio, que demanda múltiplos furos em um espaço reduzido, exigindo leveza para não estragar a folha. Por fim, o verniz é aplicado.

A artista enfatizou que o verniz tem a função de conservar a folha, impedindo que ela se estrague ou se deteriore após a finalização da obra. Se ela bordasse a folha ainda verde, mesmo passando o verniz, o material acabaria se estragando. Essa dica, ela aprendeu com Nivaldo.

O reconhecimento desse trabalho autêntico atravessou as fronteiras de Sergipe. Wiliane foi contemplada com edital previsto pela Lei Aldir Blanc e selecionada para expor no 20º Salão de Brasília. Através de seu perfil no Instagram, ela compartilha uma arte que não buscou referências em outros artistas, afirmando com orgulho que sua principal inspiração é sua própria história e vivência.

 

Obras cada vez mais ousadas: fogo, folha e cordões. Foto: Paulo Oliveira

Se no início eram bordadas palavras soltas, à medida que se aperfeiçoava o acabamento, fazendo cursos de bordado como o realizado na Casa de Costura Dona Zil [5], a complexidade dos trabalhos aumentava.

Das palavras para as frases foi um pulo, o que fez a artesã passar a prestar atenção no que as pessoas diziam e registrar os pensamentos e filosofias populares. Depois, vieram os desenhos, incluindo personagens do folclore sergipano, borboletas, casas, flores. Aos poucos ela foi inovando e acrescentando outros objetos como fitas de gravador e cordões diversos.

Hoje, a jovem que buscava uma identidade na árvore de um quintal planeja o futuro de sua técnica. Estudante de fisioterapia, Wiliane pretende expandir suas criações para esculturas utilizando troncos, mantendo a folha bordada como seu elemento central.

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Notas de pé de página:

[1] Técnica popular do Nordeste brasileiro, onde retalhos de tecido são transformados em pequenas flores ou círculos para artesanato. Acredita-se que o fuxico foi criado por mulheres escravizadas que reaproveitavam sobras de tecidos para criar novos objetos.

[2] Depois transformada em Sala dos Saberes e Fazeres.

[3] São Cristóvão é considerada a “Cidade Mãe de Sergipe” por ser a primeira capital e uma das cidades mais antigas do estado, fundada em 1º de janeiro de 1590 por Cristóvão de Barros. Ela serviu como centro administrativo da Capitania de Sergipe até 1855, quando a capital foi transferida para Aracaju. Também é a quarta cidade mais antiga do Brasil e abriga a Praça São Francisco, declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, o que reforça sua importância histórica.

[4]  Nivaldo fez vários trabalhos em igrejas de Salvador, capital da Bahia. Em 2002, ele mudou-se para São Cristóvão, onde também passou a se dedicar à arte popular e à xilogravura.

[5] A Casa da Costura Dona Zil é um equipamento da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) de São Cristóvão, focado na capacitação profissional, geração de emprego e renda, e promoção da cultura local. Criado em 2018 e reaberto em 2021, o espaço oferece cursos gratuitos de corte, costura, bordado e crochê para moradores com mais de 16 anos.

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Legenda da foto principal: Wiliane se divide entre a arte e a faculdade de fisioterapia. Foto: Paulo Oliveira

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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