Diferentes gerações exaltam João do Vale

Paulo Oliveira –

Influência de cantor e compositor maranhense marca a vida e a carreira de artistas famosos

O que Anna Torres, 53; Juliana Linhares, 35 anos; e Chico Buarque, 81, têm em comum? Representando distintas gerações de cantoras e cantores e de diferentes estados do Brasil, eles são fãs e/ou sofreram a influência do maranhense João do Valle.

Prova concreta do talento e da sensibilidade do artista que teve suas composições gravadas por Maria Bethânia, Nara Leão, Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Ramalho, Chico César, Marlene, Luiz Vieira, Dolores Duran…Enfim, craques da MPB que seriam convocados para qualquer seleção.

Anna Torres gravou CD com músicas de João do Vale. Reprodução do Instagram

A carreira da cantora e compositora maranhense Anna Torres, radicada na França, é marcada por uma profunda conexão com suas raízes nordestinas, sendo o legado do compositor João do Vale uma influência fundamental.

Anna Torres cresceu ouvindo João do Vale e Luiz Gonzaga. Sua relação com a música é descrita como “mítica”, algo que a escolheu desde a infância. Ela iniciou a carreira em São Luís aos 19 anos, em 1991, cantando em serestas e bares. Posteriormente, se mudou para o Rio de Janeiro e São Paulo, onde cursou Canto Popular na Universidade Livre de Música

A ligação de Anna com João do Vale vai além da admiração musical. Há uma identificação regional e de história de vida. Ela nasceu na Lago da Pedra, e João do Vale, em Pedreiras, a 72 quilômetros de distância. A cantora se identifica com a luta do compositor para se ser um cantor e compositor famoso.

Decidida a homenageá-lo, Anna Torres fez um show em São Paulo com músicas de João. Em junho de 2005, em Paris, ela gravou o sexto CD de sua carreira: “O Canto da Anna: Anna Tores homenageia João do Vale”. O encarte do disco tem prefácio escrito pelo poeta e escritor maranhense Ferreira Gullar e um resumo da biografia do cantor, produzida por Marcio Paschoal.

Anna considera que o CD abriu portas para sua carreira ir mais longe e se sente honrada em levar o repertório de João à Europa:

“Graças a esse CD, eu fiz programas de enorme importância nacional, como Hebe Camargo, Jô Soares e o São João do Nordeste. Posso considerar que ele abriu portas importantíssimas. No ano do Brasil na França, em 2005, me apresentei no pavilhão Carreau du Temple, onde  Elba Ramalho e Cidade Negra, dentre outros, também fizeram shows” – lembrou.

Cachacinha de Chico com João durou uma vida. Reprodução

DEPOIMENTO

O apreço de Chico Buarque a João do Vale é bem conhecido e reafirmado nas declarações do artista carioca, que sempre socorreu o amigo em horas difíceis. O depoimento de Chico, gravado na época da inauguração do parque que celebra o filho mais famosos de Pedreiras, em setembro de 2021, merece ser transcrito:

“Conheci João do Vale em 1965, (…) no show Opinião (…). Esse espetáculo foi um tremendo sucesso. Eu assisti pelo menos 20 vezes.

Uma dessas vezes, eu fui lá procurar o João do Vale na saída do teatro e o convidei para tomar uma cachacinha. Essa nossa cachacinha durou até o fim da vida dele.

Eu era aprendiz, aspirante a compositor, mas ele me deu força desde o começo. E não era só em torno da música. Nós brincávamos muito. João do Vale bebia sem moderação, mas nunca perdeu a lucidez A gente brincava muito, mas na hora que precisava ser sério, ser firme, precisava ser duro- nós enfrentamos várias vezes situações complicadas naquela época e tal -, ele era sério.

Tinha uma sabedoria, a gente não sabia bem de onde vinha. Ele era danado, ele… Eu tenho a dizer que João do Vale foi das melhores pessoas, foi um dos melhores seres humanos que eu conheci na minha vida. Além do enorme legado musical que ele nos deixa. Nós viajamos pelo Brasil, muito pelo Nordeste. Fomos a Cuba, fomos à Angola…”.

Juliana: show com músicas do compositor maranhense. Reprodução do Instagram

Já a potiguar Juliana Linhares, quase cinco décadas mais nova que Chico, estreou o espetáculo “Juliana Linhares canta João do Vale”, na Caixa Cultural de Salvador, em março deste ano.

Em entrevista para o jornalista Osmar “Marrom” Martins, ela contou que comprou um LP de João do Vale em uma feira e ouvia o disco por horas.

Juliana disse ainda que o universo do maranhense fez parte da formação musical dela e solidificou a importância de João para a MPB:

“Trazer a obra de João a Salvador é unir os mares do Nordeste fazendo uma travessia rasgante de Pedreiras, no Maranhão, até a capital baiana, travessia como as que ele canta em tantas de suas músicas” – avaliou.

O público lotou os três dias de apresentações.

(Fim da série)

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Legenda da foto principal: CD de Anna Torres, gravado na França, abriu portas para a carreira dela. Foto: Reprodução

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Leia a série completa

Teste seu conhecimento sobre João do Vale A cidade de Pedreiras e as pedradas de João Prima Tereza, a companhia perfeita Abandono após a morte A maldição do carcará A onça mora no pé do lajeiro Uma bodega chamada João Lembranças carinhosas e aventuras João será enredo de escola de samba carioca

 

 

 

Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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