Madeiro pesado

 

Nossa Senhora das Dores (SE) é a única cidade do Brasil a realizar a procissão, seguida majoritariamente por mulheres, na Sexta Santa

Angelina Nunes, Cláudia de Jesus, Paulo Oliveira e Elvira Lobato (participação especial)

Às 14 horas do dia 3 de abril, Sexta-feira Santa, 195 beatas, vestidas com uma espécie de burca, que deixa à mostra apenas um dos olhos, as mãos e os pés, dão início à procissão do Madeiro. Elas carregam um rosário branco entre os dedos e um cordão de São Francisco em torno da cintura.

A peça de cedro de aproximadamente 200 anos, que representa a Cruz de Jesus Cristo, é o símbolo maior do cortejo, um dos quatro realizados no feriado santo, em Nossa Senhora das Dores, em Sergipe. Além de realizar quatro procissões na data que relembra a crucificação e a morte de Jesus, a “Capital Sergipana da Fé” se orgulha de ser a única do Brasil a realizar esse ritual.

A caminhada dura entre quatro horas e meia e cinco horas. Além das beatas, 20 homens, com funções específicas, vão percorrer o trajeto. Uma das missões deles é o revezamento para carregar o pesado Madeiro, que a organização calcula pesar 10 quilos, mas parece bem mais. Alguns meninos acompanham o grupo, usando a mesma túnica branca dos adultos. Quem sabe, no futuro, substituirão os mais velhos.

A temperatura gira em torno de 32º centígrados, quando as quase duas centenas de mulheres, incluindo meninas a partir dos sete anos, dão os primeiros passos. A marcha é feita em trechos de terra e de asfalto escaldantes. Muitas delas seguem descalças para pagar promessas ou por penitência.

“Diante do sofrimento de Jesus, é nada o que a gente está fazendo” – disse uma delas.

O ponto de partida é o galpão ao lado da casa de Maria José Pereira Nascimento, 73 anos, representante da família guardiã do Madeiro. Assim como dois outros cortejos do dia, a Via Sacra ao Cruzeiro do Século [1] (madrugada) e a Procissão dos Penitentes [2] (noite), a procissão vespertina é organizada por famílias tradicionais e grupos de moradores. Apenas a do Senhor Morto é de total responsabilidade da Igreja Católica.

A residência de Maria, no bairro Gentil, representa a primeira estação da Via Sacra. Lá, todas as fiéis rezam um Pai Nosso, dedicado àqueles que participaram da procissão em anos anteriores, mas que por doença ou falecimento não mais seguirão o cortejo. Depois, um Salve Rainha, um Senhor Deus e o agradecimento por mais um ano de vida. O canto de saída é Ó, Virgem Senhora, Mãe da Piedade”, cujo refrão abre essa reportagem.

Outra parada ocorreu em um cemitério na estrada de terra nos fundos da casa de Maria José. A “pequena cidade dos mortos” foi fundada por Manoel Pereira dos Santos, o Pajaú.

Antigamente, havia o costume de enterrar bebês e crianças em encruzilhadas. Por considerar a prática errada, o organizador da procissão transformou parte de suas terras em uma “Santa Cruz”, local considerado adequado para os sepultamentos. Nele, foi construída a capelinha que homenageia o criador do campo-santo. Embora proibido por questões legais, o cemitério foi transformado em Fundação Pajaú, mantendo as covas antigas.

No cemitério, as beatas e os homens suplicam perdão para as almas que estão no purgatório, em maus caminhos ou “vagam nas ondas do mar”:

De acordo com os relatos de Maria José, as almas do mar referem-se às pessoas que morreram afogadas. Na crença associada à Procissão do Madeiro, elas perambulam porque não encontraram em um “bom lugar”.  As rezas também visam a obtenção dos pecados das beatas e dos homens do Madeiro.

Por ora, deixemos o grupo ajoelhado, fazendo suas preces.

 

ROUPAS PRETAS

 Maria José cresceu ouvindo a história da procissão contada pelo pai. Poucos dias antes da Semana Santa de 1960, escutou mais uma vez que a caminhada foi criada por José Vicente, seu tataravô. Ele reuniu um grupo de homens e mulheres para carregar uma cruz de madeira na tarde da Sexta-feira Santa, visitando as “Santas Cruzes” (locais onde pessoas eram enterradas antes da existência de cemitérios oficiais) para rezar pelas almas dos defuntos. Em uma época em que tudo era transmitido oralmente, muita coisa foi esquecida.

Não se sabe, por exemplo, o motivo que levou o patriarca da família a sair carregando uma cruz, acompanhado por mulheres vestidas com roupas e xales pretos. Aos sete anos, a futura guardiã não se importava com os detalhes. O que ela queria mesmo era participar da procissão. Por isso, contentou-se com a vaga explicação de que tudo começou com uma promessa, sem se importar qual.

Somente a partir de 1992, Maria José começou a fazer os primeiros registros escritos. Em um caderno, a guardiã passou a anotar o nome, endereço e telefone de cada participante. Os registros incluem a data em que as beatas pegam as roupas pretas e quando as devolvem.

No ano passado, um de seus primos, Nivaldo Alves de Moura Filho, professor de ciências biológicas e integrante da Academia Dorense de Letras, produziu o “Devocionário da Procissão do Madeiro”. No livreto de 12 páginas, ele fez um resumo da história da caminhada, analisou a simbologia dos objetos utilizados e transcreveu as orações e os 18 hinos e benditos entoados na caminhada.

Embora a tradição familiar seja o pilar principal, estudos acadêmicos sugerem que a estrutura da procissão recebeu influências das santas-missões capuchinhas que ocorreram na região no final do século XIX. Essas missões incentivavam a penitência pública e o uso de cânticos específicos para clamar pelo perdão dos pecados e salvação das almas, elementos incorporados ao rito do Madeiro.

Maria José contou que as roupas, inicialmente, eram feitas de pano grosso como as que eram usadas pelas viúvas de antigamente no Brasil ou até hoje em algumas aldeias portuguesas. As participantes pediam as roupas emprestadas, assim como Maria fez na primeira participação:

“Às vezes a gente pegava a roupa e nem lavava. Também não tinha nenhum tipo de calçado. Eu sempre fui de pé descalço” – lembrou.

Beata da procissão do Madeiro. Foto: Paulo Oliveira

Trinta e dois anos depois, a menina que ficava fascinada com a procissão não pretendia assumir a organização do cortejo. Segundo ela,  Manoel, que estava muito doente. Durante a enfermidade, o patriarca foi morar com a filha e passou alguns ensinamentos.

Na dissertação “Procissão do Madeiro: devoção e diversão em N. S. das Dores entre os anos de 1992 e 1997”, a historiadora Gisselma Silva de Jesus de Almeida narrou que Paulo Figueiredo, influente político sergipano, assumiu a função de organizador.

Na versão de Maria, Paulo Figueiredo começou a participar da procissão quando seu pai ainda estava doente. Quando o patriarca morreu, ele dividia as tarefas com ela, mas depois de três anos se apossou do Madeiro e não quis devolvê-lo. Maria José não participou do evento naquele ano.

Paulo aproveitou para fazer mudanças, introduzindo cenas da Paixão e Morte de Cristo durante o cortejo. A alteração desagradou os membros mais antigos da família.  A atual guardiã e um primo dela, José Correia, foram ao fórum da cidade se queixar da apropriação indébita do madeiro ao promotor. Este, por sua vez, fez o símbolo maior da procissão ser devolvido à família Pajaú. A atitude marcou o retorno da procissão ao modelo tradicional.

Na liderança, Dona Maria José passou a comprar tecido e dar nova forma às vestes. Os xales que cobriam a cabeça foram substituídos por um manto do mesmo tecido da túnica, preparado para deixar apenas um olho descoberto. A roupa lembra a vestimenta das mulheres de Jerusalém que acompanharam o calvário de Jesus Cristo.

Além de ganhar a confiança das participantes, Maria e o marido arcavam com todos os custos do próprio bolso. Ano passado, eles pagaram, por exemplo, para fazer novas vestimentas quando o estoque de vestes para empréstimos acabou. Foram R$ 1.200 reais em tecidos.

Com relação às vestes, cada beata tem o compromisso de devolver as roupas passadas e ensacadas uma semana após a procissão. Nos pacotes, elas colocam os nomes e endereços para utilizarem a mesma roupa no ano seguinte. Caso alguém desista, a indumentária é entregue para uma nova integrante.

Em 2026, a organização recebeu doações e pôde abandonar a prática de juntar garrafas de refrigerantes, que eram lavadas na semana da procissão. Água era colocada nos vasilhames, que iam para geladeira. Assim era possível economizar a compra de 50 ou 60 litros de água.

“Era muito trabalho. Mas este ano não precisou ser feito” – contou, aliviada.

Ellen (E) participa há seis anos da procissão. Faltam dois para cumprir a promessa que fez
O CORDÃO DE SÃO FRANCISCO

Outra despesa resultou da a compra dos cordões de São Francisco. Foram 26 ao todo no ano passado, ao preço total de R$ 650. O relevante acessório surgiu na Idade Média, quando o santo substituiu o cinto de couro utilizado pelos camponeses pelo de algodão, simbolizando pobreza e desapego material.

O cordão de São Francisco é tido como um poderoso protetor, capaz de afastar demônios e tentações, promover curas, garantir partos bem-sucedidos, servir de açoite para penitentes, agradecer graças alcançadas e para direcionar almas ao céu. Apesar da crença, está cada vez mais difícil encontrar cordígeros no Nordeste. O pai de Maria José foi um deles. Hoje, uma moradora de Nossa Senhora das Dores é quem os produz.

Existem cordões de três, cinco, sete e nove nós. Cada um tem uma serventia e reza específica. Para um dos tipos é preciso rezar o Creio-em-Deus-Padre, o Senhor-meu-Jesus-Cristo, Eu-pecador, Pai-nosso, Ave-Maria e Santa-Maria, a cada nó. Além disso, é preciso ter muita fé em Deus, senão as rezas não têm valia. O cordão de três nós representa os votos de pobreza, castidade e obediência.

Perguntada se recebia alguma ajuda da Igreja, a guardiã lembrou que, na época do pai, a procissão nem passava nas igrejas porque os padres não permitiam. O mais próximo que chegavam da paróquia de São Cristóvão era na praça em frente, onde ainda não existia o cruzeiro. Já na Matriz, o ritual era cumprido do lado de fora porque os religiosos não queriam que o grupo lotasse o templo. Alegavam que o povo estava suado e usava trajes inadequados. Na verdade, os administradores da Igreja não queriam perder o monopólio da salvação.

Foi o religioso conhecido como “Padre Bolinha” quem pacificou o impasse criado pelo vigário Monteiro Barbosa.  Levado por uma professora para visitar Manoel Pajaú, acamado, o religioso abençoou a procissão antes de ela sair e anunciou que a partir daquele dia, todos os participantes podiam entrar nas igrejas. Desde então, as portas se abriram para os fiéis.

A CASA DE DONA YAYÁ

 A procissão segue adiante. O sol não dá trégua. No trajeto famílias inteiras aguardam a passagem do Madeiro. Cadeiras nas portas, crianças brincando nas calçadas. Muita gente, principalmente mulheres, estão vestidas de branco. Turistas do Brasil e até do exterior seguem o cortejo. Há drones no céu para registrar a fé daquele povo.

O grupo demora um pouco na quinta estação, onde as participantes aproveitam para utilizar o banheiro. O ritmo das rezas, porém, não diminui. As beatas mais jovens se ajoelham. Devido à artrite e outros problemas de saúde, as mais velhas fazem as preces de pé.

A parada ocorre na cruz santa diante da casa de Rosângela Dantas Souza, filha de Aparecida, neta de dona Heloída e bisneta de Dona Yayá. Há 100 anos, a família mantém a tradição de receber os fiéis do Madeiro, assim como fazem à noite com os Penitentes. A residência começou a ser usada como local de oração por causa de Yayá, rezadeira afamada e respeitada na comunidade.

A quinta estação simboliza o momento em que Simão Cirineu é obrigado a ajudar Jesus a carregar a cruz.

LUCAS 23: 26-28

26 Enquanto o levavam, agarraram Simão de Cirene,
que estava chegando do campo, e lhe colocaram a cruz
às costas, fazendo-o carregá-la atrás de Jesus.
27 Um grande número de pessoas o seguia, inclusive
mulheres que lamentavam e choravam por ele.
28 Jesus voltou-se e disse-lhes: “Filhas de Jerusalém, não
chorem por mim; chorem por vocês mesmas e por seus filhos!

 Rosângela explicou que as estações foram definidas pela amizade que existia entre os antigos e, depois, mantidas por conta da tradição. As 14 cruzes instaladas em cemitérios, igrejas, casas de devoção e em locais onde ocorreram mortes violentas, representam as estações da Via Crucis. Uma delas está no local onde Bralho Alves dos Santos foi assassinado, no dia 5 de fevereiro de 1950. Ninguém lembra mais de detalhes do crime,

Após 15 minutos, as beatas reiniciam o trajeto em marcha acelerada.

Desde que assumiu a organização, Maria José não usa as vestes de beata. Ela explicou que precisa estar atenta a tudo por ser a responsável pelo evento. Uma das atribuições tem a ver com a montagem de uma estrutura de apoio com seis auxiliares.

Os ajudantes, coordenados pela guardiã, cuidam da distribuição de água para evitar desidratação e estão prontos para acudir pessoas que eventualmente desmaiem, devido ao desgaste físico. Isso inclui os fiéis e as pessoas que acompanham o cortejo. O grupo transporta o estoque de medicamentos, incluindo comprimidos para dor de cabeça, dor de barriga, dores em geral e enjoos.

“Durante a caminhada, também observo se as orações e cantos estão sendo executados corretamente. Essa é mais uma atribuição” – explicou.

FUNÇÕES MASCULINAS

 Os homens desempenham papéis fundamentais durante o cortejo. As principais funções incluem o revezamento no carregamento do Madeiro e a proteção das beatas, evitando que elas batam em carros estacionados nas ruas ou sejam empurradas por turistas afoitos que seguem a procissão. Como funções secundárias, eles retiram obstáculos do caminho e auxiliam na parte litúrgica, conduzindo os cânticos.

Os homens usam túnica branca, onde estão estampadas, no lado esquerdo, a inscrição “Procissão do Madeiro – Fundação Pajau” e uma cruz preta. Diferentemente das mulheres, eles carregam o rosário branco, preso ao cordão de São Francisco.

Na Igreja de São Cristóvão, uma das duas paróquias da cidade administradas pela Arquidiocese de Aracaju, é feita a mais longa das paradas. Lá, o padre Anderson Leão celebra a missa do Madeiro. Difícil não se emocionar ao ver o grupo entrar no templo.

No pórtico do templo, a assessora de marketing da Câmara Municipal, Ellen de Jesus, 28 anos, revelou que este ano foi a sexta vez que participou da procissão descalça. Ainda faltam dois anos para o cumprimento da promessa realizada por ter sido curada de um problema de saúde. Aliás, esse o principal motivo dos compromissos assumidos pelas mulheres.

Carregadores do Madeiro (foto)  usam o cordão de São Francisco na cintura. Foto: Paulo Oliveira 
 UMA SEMANA DEPOIS

 Mais relaxada e feliz por tudo ter dado certo na procissão, Maria José recebe a equipe de Meus Sertões na residência dela. Com calma, ela detalha que quando sucedeu o pai havia poucas beatas, que se preparavam para a procissão em um quarto improvisado.

Uma de suas primeiras providências foi utilizar o salão construído ao lado de casa para servir como local de reunião, preparação e ensaio para o ato de fé. A única exigência que manteve foi a de que as mulheres deveriam comparecer aos encontros realizados, das 15h às 17h30min, nos sete domingos que antecedem o dia da procissão.

Em uma cidade pequena, com 24.996 habitantes, de acordo com o IBGE, nem sempre há o que fazer. Para as reuniões ficarem mais atraentes, parte dos encontros passaram a ter lanches gratuitos e sorteio de lembranças.

Durante as reuniões, Maria aproveita para ouvir e acolher as 195 “filhas”, como ela chama a beata. Além da filharada postiça, a organizadora do evento tem 14 filhos biológicos – sete mulheres e sete homens -, além de netos e netas.

Maria Gislene

Durante a conversa, em que os detalhes da procissão são esmiuçados, duas jovens chegam para devolver as roupas que usaram. A estudante de pedagogia Maria Gislene Santana Santos, 22 anos, estreou em 2024. No ano seguinte, não pôde ir por estar doente, mas voltou nesta edição. Ela é a única pessoa da família que acompanha a procissão:

“Minha participação é espontânea, não tem um motivo específico. Eu acho as vestes bonitas e me interesso pelos cantos e pela tradição. O trajeto não é sacrificante. É apenas uma boa caminhada” – disse.

Já Suelen Ferreira Santos, 21 anos, outra estudante de pedagogia, contou que sempre se encantou pela procissão ao vê-la passar. Embora fosse um pouco retraída no início, ela sentia um chamado. Foi isso que a fez procurar a guardiã da fé e se integrar às beatas.

As vestes que fascinam meninas e moças, se depender de Maria José, nunca serão modernizadas. Isso porque elas cumprem o duplo papel de reproduzir as roupas das mulheres que acompanharam o martírio de Jesus e de não permitir que as beatas sejam identificadas.

“Com o rosto e o corpo cobertos não dá para saber quem está na procissão. Nem os parentes delas, nem mesmo eu que as visto e boto o cordão nelas. Para ver quem é, chego perto e levanto o véu. Até com minhas filhas biológicas acontece isso” – contou Maria, que pretende liderar a procissão enquanto viver.

Ao falar disso, a guardiã revelou a maior de suas preocupações: encontrar alguém para sucedê-la.

Apesar de ter sete filhos e sete filhas biológicas, a organizadora do Madeiro ainda não identificou com clareza quem tem paciência e preparo necessários para liderar o grupo. No entanto, pede a todos eles que não deixem a tradição acabar, pois ela deve permanecer sempre dentro da família.

“Eu fico procurando qual deles vai dar continuidade. Tem uma que eu olho, mas acho que ela é muito frágil, que não vai aguentar. É muita luta. A pessoa que vai me substituir tem que ter paciência com as meninas, saber conversar e agradá-las. Faço isso porque elas merecem e cantam muito bem” – falou, emocionada.

AS ÚLTIMAS ESTAÇÕES

Ouça o nono hino da procissão, na voz de dona Maria José: “Madeiro Pesado”

A parte final do Madeiro começa após a missa na Igreja de São Cristóvão. A sequência do percurso tem um forte significado devocional. Na Igreja Matriz, o povo aguarda a chegada do Madeiro para realizar orações aos pés do cruzeiro ou na nave do templo. É um momento de grande emoção para os devotos.

A caminhada segue para o cemitério municipal, onde mais uma vez são feitas preces (Pai Nosso e Ave Maria), dedicadas às almas. Ainda há duas estações antes da procissão terminar.

A penúltima é no Cruzeiro do Mercado, onde está envolta uma toalha branca. É para simbolizar que, embora seja o dia da Paixão, Cristo está vivo e ressuscitado. Aí é feita a oração final.

O último ponto físico é na casa onde morava uma das sobrinhas falecidas de dona Maria José, na localidade conhecida como Coco Verde II. A escolha da última parada simboliza a família de Pajaú e a continuidade da tradição.

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          A senhora acha que a fé dos dorenses está inabalável ou está se apagando nesses tempos loucos em que vivemos?

“Eu acho que pelo menos aqui está inabalável. Lá fora eu não sei. Aqui, vejo da seguinte maneira: antigamente não havia festas no dia de domingo; na verdade, não tinha dia nenhum. Hoje, todo domingo tem som, festa. Mesmo assim, nas semanas que antecedem a Sexta-Feira da Paixão, às 15 horas, chegam setenta, oitenta mocinhas de treze a 18 anos e mulheres de 40 ou mais. Elas vêm de longe, do Cruzeiro Velho, de dentro da faixa, do Cruzeiro das Moças. Elas ficam duas horas e meia, rezando e ouvindo as coisas que falo sobre a procissão. Eu acho que isso é fé” – respondeu Maria José.

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Notas de pé de página

[1]  O Cruzeiro do Século está localizado em um morro. Recebe esse nome porque foi erguido na transição do século XIX para o século XX para marcar a virada do milênio. Embora sempre tenha servido para orações, a procissão foi instituída em 1983, a partir de uma promessa  feita por um grupo de mulheres para pedir o fim de uma seca devastadora. A primeira líder se chamava Maria de Lurdes. É considerada Patrimônio Cultural e Imaterial de Sergipe. A procissão sai da Igreja Matriz às quatro horas da manhã, rumo ao monumento. Durante o percurso de cinco quilômetros, são feitas rezas e meditações nas estações que simulam a Via-Sacra.

[2]  É a última celebração do dia, realizada na noite da Sexta-Feira Santa, avançando durante a madrugada de sábado. Os participantes vestem túnica e capuz brancos. O grupo percorre cemitérios, cruzeiros e igrejas, rezando pelas almas do purgatório e entoando benditos. No passado, havia o rito de autoflagelação. Hoje a penitência é focada na caminhada, no jejum e na oração. O cortejo foi mantido apesar da tentativa de proibi-la por conta dos autos-flagelos. O ritual foi levado para a então Vila das Dores, na segunda metade do século XIX, pela família de Domingos Dias dos Santos, o Dominguinhos, originário do Crato (CE). Ele migrou para Sergipe para fugir das secas. Em 2017, a Procissão dos Penitentes foi declarada Patrimônio Cultural e Imaterial de Sergipe.

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Legenda das duas primeiras imagens: As beatas param no cemitério construído por Manoel Pajau a fim de fazer orações. Imagens: Angelina Nunes

Maria José Nascimento, guardiã do Madeiro, canta o hino que dá início a procissão. Imagens: Angelina Nunes.

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Equipe de Meus Sertões

Equipe da cobertura do Madeiro: Paulo Oliveira, Cláudia de Jesus, Elvira Lobato e Angelina Nunes (entrevistas, texto, áudios, vídeos, fotos e edição). Ao centro, Maria José, organizadora da procissão

 

 

Paulo Oliveira Administrator

Jornalista, editor, professor e consultor, 60 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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