Padre da paróquia de Nossa Senhora das Dores conta o que sentiu quando viu a Procissão do Madeiro pela primeira vez.
– Elvira Lobato e Paulo Oliveira
O padre diocesano Anderson Leão Costa, 50 anos, pároco da Igreja de São Cristóvão, em Nossa Senhora das Dores (Sergipe), assumiu o cargo em setembro de 2019. No entanto, devido à pandemia de Covid-19, ele só viu a Procissão do Madeiro (representação da Cruz de Jesus Cristo) pela primeira vez em 2022, quando o avanço da doença arrefeceu.
“Eu me senti muito emocionado” – recorda o religiososo, que desde então é o celebrante da missa realizada quando as “beatas” e os demais acompanhantes do cortejo param em sua paróquia para rezar e pedir a salvação das almas.
Em entrevista exclusiva para Meus Sertões, o pároco considera válida a promessa dos fiéis e a penitência feita por alguns de caminharem descalços durante os 12 quilômetros do trajeto.
“A igreja não vê isso de forma negativa. Muitas pessoas têm, como um sacrifício a mais, estar descalço para poder viver aquele momento, que o próprio Cristo viveu, de entrega, de dor por amor à humanidade” – disse.
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
O senhor está há quanto tempo na paróquia de São Cristóvão?
Eu cheguei em Nossa Senhora das Dores para essa missão em setembro de 2019. Então vou fazer sete anos na paróquia.
Quando foi a primeira vez que o senhor viu a procissão do Madeiro?
Vim para a paróquia depois da Semana Santa. No ano seguinte, foi a pandemia. A primeira vez que eu vi a Procissão do Madeiro foi quando as atividades estavam retornando [2022]. Foi na Sexta-Feira da Paixão, quando o cortejo saiu pelas ruas e passou pelas respectivas paróquias. Primeiro, pela minha, São Cristóvão. Depois, continuaram o trajeto e passaram na paróquia Nossa Senhora das Dores. Eu os vi pela primeira vez nessa circunstância, em um momento de alta reflexão, que é a Sexta-Feira da Paixão. Para nós católicos, um dia de suma importância.
Qual foi a sua sensação?
Uma vez que nesse dia nós meditamos sobre a Paixão e a morte de Jesus Cristo, eu fiquei muito impactado. O madeiro é só o símbolo, a cruz em si. Ele tem um significado muito forte para nós. A cruz é nossa via de redenção. Cristo se encarnou e aceitou livremente o chamado do Pai para morrer pela humanidade. Ele abraçou sua Cruz como sinal de redenção. É nela que ele vai vencer a morte e nos libertar de todo o pecado. Então, quando eles entram com o madeiro [na igreja] naquele momento, a minha experiência foi com o próprio Jesus, que de fato deu a sua vida.
Ali a gente, meditando sobre a morte dele, vê entrar o sinal de mais importância para nós católicos. A cruz não se limitou a ser sinal de morte. Mas, além disso, ser o sinal da ressurreição. Olhar para a cruz é olhar para o projeto do Pai completo. é olhar para o Cristo já glorificado, ressuscitado.
Então eu me senti muito emocionado. Naquele momento, fui impactado com isso. Com a grandeza que era aquela expressão de fé daquelas pessoas que talvez não tivessem a total compreensão do poder da espiritualidade que eles estavam expressando. Foi isso que eu vivi.
Três das quatro procissões da Sexta-Feira da Paixão em Nossa Senhora das Dores são organizadas por famílias ou grupos de fiéis. Qual a avaliação da Igreja sobre estas manifestações?
Essas procissões são organizadas diretamente por grupo de fiéis, que estão ligados diretamente à igreja. Fiéis esses que são a Igreja Católica. Pois a gente sabe que a Igreja Católica não é simplesmente o templo físico. Mas como diz o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica é o povo de Deus. Então essas manifestações são abraçadas pelo povo de Deus, motivado por uma tradição própria. E com características próprias, em busca de nos levar a viver os passos de Jesus de modo particular na Sexta-Feira Santa.
Porém, em relação ao Madeiro, existe uma tradição forte. Daquilo que eu recolhi, conversando com os mais antigos. O madeiro iniciou exatamente por famílias tradicionalmente católicas daqui da região. E, claro, consequentemente, com o passar dos anos isso foi agregando outras pessoas e a Igreja, que abraçou essas devoções ao longo do tempo também.
De que forma a Igreja apoia ou participa dessas procissões (Cruzeiro do Século, Penitentes e Madeiro)?
A igreja tem participação direta em relação a essas procissões: Cruzeiro do Século, Penitentes, Madeiro, além da do Senhor Morto, na Sexta-feira da Paixão. Nós apoiamos em que sentido? Primeiro no apoio direto para com os fiéis. Nós participamos das procissões juntos. Tanto eu como o padre Marcos, que é da paróquia de Nossa Senhora das Dores. A gente está sempre ali para poder, de fato, da melhor maneira possível, organizar bem. Nós acionamos o poder público, acionamos as instituições de segurança para que tudo aconteça com harmonia e da melhor maneira possível dentro do município e para que ninguém se isente de vivenciar esses momentos.

Algumas pessoas fazem a caminhada de 12 quilômetros descalças. Esse tipo de penitência é válido?
É válido, sim. A igreja tem a seguinte visão: primeiro de respeito e caridade pela postura de piedade de cada pessoa. Há pessoas que fazem promessas, de fato, para irem descalças, agradecendo por alguma graça alcançada, ou até pedindo mesmo algo por meio da devoção do Madeiro. Nesse caso, a petição é para Cristo, é para o próprio Jesus. Então é válido, sim, e a igreja não vê de forma negativa isso não. Pelo contrário, até porque como se trata de um dia extremamente penitencial, muitas pessoas têm, como um sacrifício a mais, estar descalço para poder viver aquele momento que o próprio Cristo também viveu, de entrega, de dor por amor à humanidade, entende? As pessoas encontram dessa forma uma maneira também de colocar-se em sacrifício.
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Legenda da foto principal: Padre Anderson Leão ficou emocionado ao ver pela primeira vez a Procissão do Madeiro. Foto: Diocese de Aracaju.
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Nota da redação: Por um longo período, a Igreja Católica lutou contra a realização de procissões e penitências realizadas por populares. Paulo Araújo de Carvalho, historiador e integrante da Academia Dorense de Letras, relatou na dissertação “Uma cruz para os Enforcados: práticas penitenciais”, que essas manifestações surgiram em um período marcado por mortes causadas pela seca e por epidemias. Além disso, missionários católicos pregavam que o caminho para a salvação da alma era a penitência.
“Diante disso, leigos fundaram e organizaram as procissões, sem submeter-se à hierarquia, ou seja, ao controle dos sacerdotes” – escreveu Paulo Araújo.
Sem estar ao alcance da disciplina imposta pelo clero, o autor acrescenta que as procissões foram combatidas pelo vigário Monteiro Barbosa. A tática empregada, de acordo com a dissertação, era deteriorar o capital simbólico do Madeiro para a Igreja monopolizar a “gestão dos bens de salvação”. Barbosa afirmava que o cortejo não era de Deus.
Paulo Araújo prossegue: “Outrossim, o pároco criou a Procissão do Senhor Morto, como parte da programação da “Sexta-feira Santa”, dia no qual também ocorriam as duas manifestações citadas [Madeiro e Penitentes] e que se almejava disciplinar. O vigário, portanto, produzia e ofertava naquele mercado um bem de salvação que os paroquianos deveriam consumir. Para isso, por sua vez, fazia-se necessário abandonar os outros atos devocionais existentes, e ora combatidos pelo clero, uma vez que os mesmos aconteciam praticamente no mesmo horário, final da tarde e início da noite da “Sexta-feira da Paixão”.
A manutenção das procissões e a resiliência dos organizadores fizeram a Igreja mudar de ideia, passando a apoiar e participar dos eventos.
Maria José contou que antigamente os padres não permitiam que a procissão entrasse nas igrejas devido à multidão e ao estado físico dos fiéis (suor e cansaço). Isso mudou com o padre Araújo, carinhosamente conhecido como Bolinha. O religioso foi visitar Manoel Pajaú, abençoou o grupo e autorizou a entrada, tanto na Igreja de São Cristóvão quanto na Matriz. Permitiu também a realização de missas dedicadas ao Madeiro, na Sexta-feira Santa, e cerimônias mensais na igreja e no bairro Gentil.
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