Pedreiro de Nossa Senhora Aparecida, em Sergipe, passou a fazer arte depois que se aposentou
– Angelina Nunes e Paulo Oliveira
Miguel Menezes Moura, 70 anos, morador da localidade Lagoa do Veado, em Nossa Senhora Aparecida, Sergipe, converteu a experiência como trabalhador na construção civil em arte popular. Seu Miguel passou a utilizar cimento e mulungu (madeira leve e esbranquiçada) para dar forma a animais estáticos que ornamentam jardins no estado e fora dele. Para isso, emprega algumas ferramentas que utilizava antes de se aposentar.

Após décadas de trabalho como pedreiro, armador e encarregado de obras, seu Miguel encontrou no artesanato um novo e prazeroso campo de atuação. A inspiração para a mudança aconteceu durante uma visita que ele fez ao complexo de Mercados Centrais de Aracaju.
Ao contemplar os objetos do Mercado Thales Ferraz, um dos três existentes no local, já aposentando, ele achou as peças bonitas:
“Aí, quando voltei para casa, eu disse: “rapaz, eu vou fazer isso” – contou.
A primeira obra de seu Miguel foi uma garça pequena, que não saiu perfeita, na opinião dele, mas permitiu que ele desse partida para a nova atividade. A partir daí, o seu facão passou a libertar dos tocos de mulungu, os pássaros e animais que povoavam o imaginário do artesão.

Primeiro vieram gansos, emas, patos, seriemas, vacas, bodes, codornizes, passarinhos. Em seguida, foi a vez de personagens históricos como Lampião e de Maria Bonita. Tudo é entalhado individualmente.
Fôrmas só são utilizadas para a feitura da imagem do Cristo Redentor ou para peças de maior envergadura, compostas por ferro e cimento para garantir a sustentação necessária.
O artesão revelou que, no início da atividade, ele fazia brinquedos com cabacinhas e cumbucos. A maioria eram bonecas. Ele relatou que deixou de produzir por causa da escassez do material na região.

A beleza rústica e o preço das peças a partir de 20 e 30 reais, dependendo do tamanho do pássaro são atrativos das obras do ex-pedreiro. Fatores que contribuíram para comercialização de seu trabalho ultrapassar as divisas de Aparecida, atingindo a capital sergipana (Aracaju) e Canindé de São Francisco.
Os principais clientes de Miguel são turistas que passam pela estrada e param diante da placa “Miguel Artes”, com o número de telefone borrado, e algumas peças espalhadas. Donos de chácaras e pousadas que buscam ornamentação que lembre o ambiente rural fazem parte desse grupo.
Um dos hotéis da região comprou, por exemplo, uma vaca em tamanho real. Outro, em Canindé de São Francisco, duas esculturas de cangaceiros. Ele também costuma vender peças para clientes em São Paulo e em Santa Catarina.
O atual desafio para Miguel é confeccionar uma escultura de veado, Ele ganhou a galhada de um animal de um amigo mato-grossense para dar verossimilhança ao objeto que planeja produzir.

O instinto artístico do aposentado também se manifesta nas pinturas que faz nas paredes para decorar a própria casa. Na cozinha, ele pintou uma casa em um cenário rural. Na sala, ele pintou árvores e o campo, utilizando os pássaros de mulungu para completar o cenário.
“Meu objetivo é imitar a natureza.” – explicou.
CASAL
Miguel é casado com Maria Aparecida há 49 anos. Ela apoia a iniciativa do marido e elogia o artesanato que ele faz. O local onde moram se chama Lagoa do Veado porque no passado a fauna silvestre era abundante em torno do reservatório de água. A fonte secou e o desmatamento fez os bichos desaparecerem.
O artesão construiu uma passarela entre a porta de casa e o portão do terreno. Em torno dela estão várias de suas esculturas. O capricho e a simplicidade caminham juntos em tudo o que o artista faz. No entanto, ele enfrenta desafios em função da redução da demanda e das limitações causadas por problemas de saúde.

“Eu estou meio doente, mas vou me recuperar” – diz, queixando-se de uma fraqueza.
Nesse período, ele está priorizando a produção de peças de pequeno porte. Outra dificuldade que o artesão enfrenta é a diminuição da procura pelos objetos. Ele lembrou que há cinco anos, quando começou a fazer arte, o movimento era muito grande. Mas agora, está em declínio.
Para mitigar a baixa procura, ele envia peças para uma revenda na cidade de Aparecida. Miguel costumar cobrar 150 reais por um Cristo Redentor, mas para o revendedor o mesmo produto sai por 80 reais. O parceiro compra até cinco Cristos por vez. E os revende por até 200 reais, cada.
Outra providência é levar os pássaros para vender no mercado de Aracaju, para onde Miguel viaja com regularidade. Afinal de contas, 86 quilômetros não é nada para quem o artesanato deu nova vida.
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Serviço:
Telefone de seu Miguel – 79 99957-6123
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Legenda da foto principal: O tucano é um dos pássaros produzidos por Miguel. Foto: Paulo Oliveira
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Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.








