Poderes do sal

Oferenda aos deuses egípcios e sinal de sabedoria para os romanos, o sal sempre teve, ao longo da história da humanidade, valências dúbias, positiva e negativa, usado em rituais de purificação e bruxaria, nas sagrações e esconjuras.

“Vós sois o sal da terra e a luz do mundo”, diz Jesus no Sermão da Montanha e aqui temos o exemplo mais vivo da importância dos cristãos conforme entendida até hoje. Este mesmo sal ganha valor negativo, denunciador de mau agouro, quando o vemos derramado diante de Judas na Última Ceia de Leonardo da Vinci.

Usado no batismo católico até o Concilio Vaticano II, o sal purificava e dava sabedoria ao batizado afastando o demônio do novo cristão. Em idioma ou dialeto africano, soubemos que PADRINHO vem a significar PAI COM SAL, assim como MADRINHA significa MÃE COM SAL.

No Brasil encontramos matéria vasta a sinalizar o que remanesce de tradições antiquíssimas, sofrendo variações ao longo do tempo e recebendo pitadas de outras culturas.

Está nos provérbios, no imaginário fértil que a nossa mestiçagem temperou, nos hábitos ainda presentes no cotidiano de alguns grupos e de todos nós.

O banho de sal grosso é usado em descarregos – cura quebranto, salva de “coisa-feita”. Derramado nos cantos da casa protegem-na e aos seus habitantes das forças do mal. Igualmente, torna a terra infértil, amaldiçoa terrenos e obras.

Sal que cai de mãos desastradas recomendam preparação para más notícias e diz provérbio a um só tempo nosso e universal que só se conhece um amigo depois de com ele comer um saco de sal.

Na década de 90, em mudança de apartamento, ouvi da jovem que ajudava a nossa família que não se leva sal de uma casa para outra esclarecendo que para vida nova, sal novo, assim como a vassoura!

No solo, torna a terra improdutiva, e para livrar de mau vizinho, jogue-lhe sal aos telhados e a mudança será certa!

“Em nome da Virgem e de todos os santos, com este sal quebro todos os encantos”, diz oração colhida por Alceu Maynard de Araújo.

E assim os símbolos universais se perpetuam deslizando entre significados, justificando temores e alertando incautos, de igual credulidade salvando infelizes amaldiçoados e promovendo maldições outras.

Nasceu e cresceu numa típica família brasileira. Potiguar, morando na Bahia há vinte anos, é médica de formação e pesquisadora da cultura popular. Nos últimos 10 anos abandonou a sua especialidade em cardiologia e ultrassonografia vascular para atuar como médica da família na Bahia e no Rio Grande do Norte, onde passou a recolher histórias e saberes. Nessa jornada publicou cinco livros.”. No final de 2015 passou temporada no Amazonas recolhendo saberes indígenas.

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