O cantor mascarado

Quando José dos Santos chegou com o irmão em Cruz da Donzela, povoado de Malhada dos Bois, em Sergipe, em busca de trabalho, só havia umas barracas que vendiam carne de caça salgada e uma das pistas da BR-101. Logo, ele arrumou bico de pedreiro e de “meloso”, profissional que lubrifica motores de veículos. Ainda no ano de 1968, passou a ser borracheiro na oficina de Manuel de Sinuca, que viria a ser seu compadre. Alagoano de Penedo, José testemunhou o surgimento de novos negócios e o avanço das obras na estrada.

Alagoano de Penedo, Sarito não troca Cruz da Donzela por nada. Foto: Paulo Oliveira

“Neguinho, você sabe trabalhar de bombeiro”, perguntou o responsável por um dos postos de gasolina criado para atender a demanda provocada pelo aumento do tráfego de caminhões. O jovem que sim. A mentira lhe rendeu carteira assinada como frentista, salário e almoço.

Durante os oito anos em que operou a bomba de gasolina ele se enamorou por Maria José, a Zezé. Na época, sua futura mulher tinha 16 anos e costumava buscar água, carregando um porrão na cabeça, às duas horas da manhã. A menina, quase sempre acompanhada de duas amigas, percorria o caminho de terra até o poço nesse horário para fugir da concorrência de outros moradores diante da pouca água que havia na fonte.

“Zezé era bonitinha. Quando casamos eu tinha 22 anos e ela, 18. Eu era frentista e ela, professora do Mobral [1]  – recordou.

João construiu sua primeira casa na rua João Batista de Matos, localizada no trecho onde seriam instalados os cabarés que fizeram a localidade ser conhecida em todo o Brasil, graças ao boca a boca dos frequentadores, caminhoneiros majoritariamente.

Usando os conhecimentos de pedreiro José levantou uma casa de 16 metros quadrados (4m x 4m). Os blocos (tijolos), comprados à prestação, só foram entregues após ele quitar a primeira parcela.

Por mais difícil e pesado que a vida e o trabalho fossem, o jovem alagoano estava sempre a cantar.

O APELIDO

Sari é o nome do pedaço de pau ao qual o fumo de rolo é enroscado até formar “bolas” de até 100 quilos, que serão vendidas nas feiras de todo o Nordeste. A qualidade do produto produzido em Alagoas é elogiada e apreciada por quem gosta de mascar fumo e/ou tragar cigarros de palha enrolados com o tabaco picado, geralmente com canivete. José e o irmão mal tinham chegado à Cruz da Donzela quando ganharam o apelido e Sarizinho e Sarizão. Quando o irmão foi embora, José passou a ser o único sari da região. O apelido logo se transformou em outras 12 alcunha, incluindo Sarilho, Charola e Soró. A que vingou foi Sarito.

Quando os bordéis começaram a proliferar em torno da pequena casa de do frentista, um episódio lhe deixou preocupado. Um dos frequentadores dos cabarés era muito parecido com ele, inclusive a própria mãe do rapaz tinha confundido os dois. O sósia deu calote no dono de um prostíbulo e este foi cobrar a conta de Sarito, ameaçando chamar a polícia para prendê-lo. Foi aí que José se deu conta de como seria difícil viver ali. Pior ainda seria criar filhos naquele ambiente.

Com essa convicção, o alagoano trocou a casa que construíra por outra na margem oposta da BR-101, sentido Propriá-Aracaju. Como compensação, ainda deu uma televisão preto e branco. A nova moradia, onde ele, a mulher e os cinco filhos e filhas iriam morar precisou ser ampliada aos poucos. Importante acrescentar que antes mesmo de cogitar a se mudar para essa banda de Cruz da Donzela, Sarito estabeleceu uma pequena mercearia. O comércio progrediu no mesmo ritmo que a localidade.

FEITIO DE ORAÇÃO

Sarito virou compositor de uma hora para outra. Precisamente, quando estava indo visitar a mãe, na cidade natal, a 48 quilômetros de Malhada dos Bois. No caminho, sem mais nem pra quê, as frases foram se formando em sua mente:

Quando o dia amanhece/eu rezo e peço para Nosso Senhor/Quando eu saio para um trabalho nunca esqueço/ o que minha mãe me ensinou. Eu sigo sozinho, mas no meu caminho/ não me sinto tão só/ Porque lembro de meu pai/ lembro minha mãe, meus irmãos e meus avós.

“A primeira música que fiz foi tipo uma oração” – comparou.

Dona Zezé e Sarito: casamento duradouro. Foto: Paulo Oliveira

Seu método de criação, não tem explicação. De acordo com José Sarito, boa parte das composições surgem à noite, quando ele está na cama, quase dormindo. Em suas palavras “vem aquele negócio na cabeça, levanto e começo a anotar”. No dia seguinte, Zezé, com quem está casado há 52 anos, ajeita as vírgulas e corrige os erros de português.

Sarito não tem vergonha de dizer que estudou muito pouco. A principal escola foi o posto de gasolina, onde o patrão lhe ensinou a tirar notas fiscais e calcular. Para concluir a 8ª série, foi necessário fazer o supletivo.

MÁSCARA, CAPA E CHAPÉU

Em 1996, aos 46 anos, Sarito começou a realizar o sonho de ser cantor. Ao mesmo tempo em que se apresentava para parentes e amigos, acalentava a ideia de fazer shows para uma plateia maior e gravar suas músicas. Sem condições financeiras, se conformava que não era todo cantor que conseguia produzir um disco.

Para se diferenciar da concorrência, o alagoano teve uma ideia: criar um personagem que ajudasse a projetá-lo. Inspirado no Zorro [2], herói fictício imortalizado em uma série de TV, Sarito fez uma máscara, comprou um chapéu e pediu para dona Zezé, habilidosa costureira, confeccionar uma capa. Assim, vestido de preto e fazendo pose, surgiu o Maskarado do Brega. O complemento do nome artístico deixava claro o tipo de repertório e homenageava ídolos dele como o pernambucano Reginaldo Rossi.

Dois anos depois, o Maskarado juntou grana para fazer a primeira gravação. Só o dinheiro não foi suficiente, ele teve de solucionar outros problemas. As músicas, por exemplo, tinham sido gravadas em MD [3]. Para converter ao formato CD foi preciso enviar o material para um estúdio na capital. A conversão custou 350 reais, ou seja, cerca de 289 dólares, o equivalente hoje a 1.411 reais.

A primeira “bolachinha prateada” ganhou o título de “Relembrando o passado”. Tinha oito faixas, incluindo composições que homenageavam a esposa, o saudoso amigo Cesário e a nora Claudiane, uma forma indireta de agradecer ao filho, que sonorizava os shows. Apenas uma música não era romântica, mas não deixava de ser um tributo:

“Venha pra Cruz da Donzela/ Venha para ficar/ Cruz da Donzela tem gente de todo lugar/ (…) Cruz da Donzela agradece/ A todos que vierem migrar/ Trazendo desenvolvimento/ Para este pequeno lugar/ Com tanta gente chegando/ Uma cidade logo será”.

“Cruz da Donzela dos Imigrantes” foi composta para um dos desfiles do Bloco Unidos da Folia, outra obra de Sarito. O trio animou o carnaval do povoado entre 2007 e 2013. Os desfiles terminaram por dois motivos: falta de apoio das autoridades locais e por atrair um número maior de pessoas do que a estrutura do povoado podia suportar.

A PROMESSA

Maskarado do Brega entrava no palco rodando a capa. Em seguida, engatava o refrão:

Sou mascarado do brega/ Canto para aliviar sua paixão/ A parte que mais dói no corpo do corno/ é o coração”.

A fé na Cruz da Donzela e na Santa Guilhermina. Foto: Paulo Oliveira

Um dia a voz saiu falhada. Não deu para completar os versos. Desesperado com a iminência da carreira terminar, Sarito se apegou à Santa Cruz da Donzela. A virgem no caso era uma jovem da comunidade que, em tempos imemoriais, rejeitou um pretendente. Este, por sua vez, a matou após tentar estuprá-la. Guilhermina, como a moça se chamava, foi beatificada pelo povo

A santa já tinha intercedido a favor de Sarito quando ele fez uma promessa para se eleger vereador nas primeira (1996) das três vezes que obteve o mandato. Em troca da cura, o cantor jurou que nunca mais perderia uma missa dominical. A única exceção prevista pelo prometedor era se sua casa estivesse cheia de visitas e ele não conseguisse dispensá-las.

Para provar que ficou completamente restabelecido, Sarito sobe o tom e canta “Mosca na sopa”, de Raul Seixas.

“Viu como a voz está limpa?” – regalou-se.

O Maskarado do Brega gravou quatro CDs, dois DVDs e descobriu o You Tube há quatro anos. O primeiro a colocar suas músicas na internet foi o sobrinho de dona Zezé, Jedson dos Santos, o mesmo que fez a capa do disco “No Boteco com os Amigos”. Esse CD é o recordista de visualizações. Até ontem eram 1.900.

O material estreou também chamou a atenção dos canais Portal do Brega Official e Cabra CDs (ou Pirateiros CD). Ambos incluíram trabalhos do cantor dentre os vídeos que apresentam.

“Eles não precisam pagar direitos autorais. Fico feliz com a divulgação do meu trabalho” – comentou o artista.

No ano seguinte à inclusão no universo digital, o Maskarado parou de fazer shows por causa da pandemia de covid 19. A última apresentação foi em Pacatuba, município a 40 quilômetros de distância, em 2019.

Na mesma cidade em um show anterior, Sarito, como sempre fez, dirigiu o veículo que levava os músicos e as dançarinas, montou o som, se vestiu a caráter e se apresentou. Ao voltar para casa, dormiu ao volante. Só não se acabou por dentro de um canavial porque o chamado do filho o despertou. Depois disso, passou a chamar alguém para dirigir o carro nos dias em que o Maskarado do Brega entrava em ação.

Outro motivo para interrupção foi a doença da mãe de Sarito, que faleceu em 2021, aos 102 anos. Os cuidados com a idosa foram prioridade. Agora, o cantor não volta aos palcos por menos de três mil reais.

LIMITE

O Maskarado nunca fez show em um bordel, embora Cruz da Donzela tenha tido dezenas deles. A justificativa é que não era ambiente para a filha, a nora e duas jovens dançarinas que se apresentavam com ele. Entretanto, histórias relacionadas às prostitutas serviram de inspiração para composições do artista. “Cuida da Vida”, por exemplo, trata da paixão de um rapaz por uma profissional do sexo.

 “Eu conheci uma mulher/ lá no cabaré/ Hoje ela vive comigo/ mas ela sai com quem quiser/ (…) Quando eu saio para o trabalho/ eu nem olho para trás/ Comento com meus amigos / Essa mulher sabe o que faz/ E antes de voltar/ Vou logo telefonar/ Perguntar para a mulher/ que hora eu posso chegar.”

Por fim, pergunto ao autor de músicas que revelam um universo repleto de luxúria, se dona Zezé alguma vez sentiu ciúmes ou reclamou da carreira dele. A resposta vem na mesma velocidade que o Zorro fazia o “Z”, com a espada, em seus inimigos:

“Esse negócio de putaria é só na música” – desferiu.

–*–*–

NOTA DE RODAPÉ

[1]  Programa criado em 1970 pelo governo federal com objetivo de erradicar o analfabetismo do Brasil em dez anos. O Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) foi extinto em 1985, sem atingir a meta.

[2] O personagem era, na verdade, o filho de um rico fazendeiro, perito em esgrima, que lutava em favor do povo pobre e oprimido da Califórnia. Foi criado pelo escritor e roteirista americano Johnston McCulley, em 1919,

[3] Lançado pela empresa Sony a 12 de janeiro de 1992, o MiniDisc (MD) é um disco compacto de tamanho reduzido destinado ao armazenamento de áudio digital. Embora apenas um ano mais tarde, em 1993, tenha sido lançado o MD Data – um formato que podia ser utilizado para guardar todo o tipo de dados -, este nunca recebeu grande aceitação do público, pelo que os MiniDiscs acabaram por se tornar dedicados à música.

 

Jornalista, editor, professor e consultor, 61 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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