Nos versos femininos do cordel

Projeto Representação da Mulher lança Cordelteca Alda Cruz em escola do sertão sergipano

 Kátia Azevedo

Às marisqueiras de São Cristóvão

O mar está para o peixe
E o peixe está para o mar
O peixe está para a rede
É só você saber pescar
Bem como está o marisco
Esse precioso petisco
Que você pode apreciar
As marisqueiras cristovenses
Exímias profissionais
Uma profissão tão nobre
Levam cestos ou bornais
Seguem as regras do Ibama
Constroem luvas com lama
Sempre estão de alto astral

 Alda Cruz

Nos versos rimados da literatura de cordel, Alda Santos Cruz, mulher preta, idosa, nordestina, é uma voz feminina potente e uma das principais expressões culturais da literatura da poesia popular no Brasil. Uma voz que resiste à invisibilidade histórica das mulheres nos espaços culturais predominantemente masculinos.

 

A cordelista Alda Cruz. Foto: Kátia Azevedo

Às vésperas de completar 94 anos, Alda Cruz é um exemplo vivo e pulsante das mulheres cordelistas que fazem da arte do cordel um oficio militante e espaço de resistência feminina na sociedade. Sua arte chega agora em uma escola pública do alto sertão sergipano, no Centro de Excelência Manoel Messias Feitosa, em Nossa Senhora da Glória, que passa a contar com a Cordelteca Alda Cruz.

A iniciativa é um dos resultados do Projeto Representação da Mulher no Cordel, apoiado pelo edital 2/2022 da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec-SE), que envolve também uma pesquisa sobre a participação feminina na arte da poesia popular.

O lançamento da cordelteca ocorreu no dia 11 de outubro, com a presença da homenageada, que integra a Academia Sancristovense de Letras e Academia Sergipana de Cordel.

A poeta, professora e cordelista recitou versos, falou da sua relação com o cordel ainda menina em Aracaju, onde nasceu, e agradeceu:

“Recebo com alegria esta homenagem que para mim é muito significativa para a valorização da nossa cultura popular sergipana e para o despertar das novas gerações do cordel e do seu papel educativo. Sou grata por todo este reconhecimento e fico feliz por contribuir com este belo projeto” – disse.

Os professores e responsáveis pelo projeto, Jorge Henrique Vieira Santos e Isis Gabrielle Silva da Penha, lembraram a importância literária de Alda como uma das grandes cordelistas brasileiras, símbolo de resistência negra e feminina da literatura popular.

“A escolha do nome da cordelteca é uma forma de prestigiar a cordelista mais idosa de Sergipe em atividade. Um reconhecimento a sua trajetória de vida e sua produção como um valioso tesouro que merece todas as honras e deve estar presente no nosso espaço escolar para servir de referência e inspiração às novas gerações”.

O professor Jorge Henrique explicou como surgiu a ideia de criar um espaço de divulgação de cordel na biblioteca.

“Durante o processo desta pesquisa pensamos em utilizar os recursos que a Fapitec nos forneceu para adquirir cordéis para a análise do corpus do estudo, mas depois decidimos organizar a cordelteca”, contou.

Na abertura do evento, a cordelista Isis Penha, coorientadora da pesquisa, enfatizou que o espaço tem a proposta de conservar e popularizar a herança literária do cordel de Sergipe e do Brasil, fazendo ecoar, em especial, as vozes das autoras brasileiras.

Ela também pontuou que uma das suas reivindicações como cordelista e pesquisadora é a efetivação de ações que fomentem o conhecimento e fortaleçam a memória dos que já se foram e dos que estão produzindo o cordel na ativa.

Isis destacou ainda que é preciso desconstruir a falácia de que existem poucas mulheres produzindo cordel. De acordo com a professora, os folhetos que compõem o acervo da cordelteca demonstraram o contrário, revelando uma presença massiva de obras femininas.

Alda e a equipe da cordelteca. Foto: Kátia Azevedo
LEI DESCUMPRIDA

A professora também enfatizou a importância do projeto para a discussão de desafios como a falta de políticas públicas que garantam a popularização de folhetos de cordel nas escolas. A pesquisadora usou como exemplo o fato de que a maioria das instituições de ensino não tem folhetos de cordel nas bibliotecas e nem professores conhecedores da cultura popular tendo em vista que este tema não é matéria obrigatória nas universidades.

“Temos uma lei que obriga que a escola trate da literatura do cordel, mas na prática não temos acesso ao material. Então a nossa cordelteca, além de trazer material para a escola, beneficia toda a rede escolar da região, disponibilizando e promovendo visitações e acesso a um rico acervo com 456 folhetos de autoras e atores de Sergipe e de outros estados. Também realizaremos oficinas abertas ao público e seminários sobre a literatura de cordel para os professores. Assim, contribuímos para a efetivação da lei”, destacou.

A relação entre o cordel e a escola está nos resultados e metodologias do Projeto Representação da Mulher no Cordel, apresentadas pelo orientador da pesquisa, Jorge Henrique.

 “O projeto começou a ser desenvolvido pela escola no início do ano letivo com a participação de três alunas. A proposta foi investigar a representação da mulher em folhetos de cordel escritos por homens e por mulheres, partindo de duas razões específicas: a primeira considerando que a literatura de cordel se consolidou ao longo dos anos como um espaço eminentemente masculino, entretanto, na última década as mulheres vêm reivindicando o seu lugar de destaque nesse tipo de literatura. O segundo: faltam pesquisas que investiguem esta temática da representação feminina no cordel”, explicou.

O grupo buscava respostas para três perguntas: “Como a mulher é mencionada nos cordéis? Como é caracterizada? Como esta caracterização se relaciona com a narrativa?”

BOLSISTAS

A pesquisa contou com a participação direta de três alunas do ensino médio, bolsistas de iniciação científica. A adolescente Maria Luiza Silva Santos, de 16 anos, foi uma das selecionadas. Ela estudou as narrativas e os espaços de fala feminina nos cordéis.

“Adquiri mais conhecimento sobre o tema e a respeito do feminismo, um processo muito gratificante e desafiador no qual pude aprender melhor a análise de artigo, participar de palestras, conversar com várias pessoas e fazer parte de encontros de leituras sobre o tema” – revelou.

Já a aluna do 2º ano do ensino médio, Giulia Meneses Brito Dantas, analisou os estereótipos sobre a mulher nos folhetos de cordéis, enquanto Emilly Vitória Canuto Santos, de 17 anos, analisou o estudo da historiografia do cordel, identificando que historicamente a relação da mulher com a literatura de cordel é tema pouco abordado em determinados períodos.

“A maioria das pesquisas sobre o tema busca a representação feminina no cordel nos séculos XIX e XX (19 e 20). Depois desde período, no século XXI (21), o assunto é pouco abordado. Por isso, buscamos compreender como as cordelistas estão representadas nas fases históricas mais recentes”.

Emilly contou que a pesquisa permitiu o encontro com a obra e vida de Alda Cruz:

“A partir desta experiência tive a oportunidade de adquirir um melhor conhecimento sobre a autora e através da sua obra e história saber mais sobre as mulheres cordelistas. Me apaixonei pela história dela e pelo legado da literatura de cordel no decorrer da trajetória da pesquisa”, comentou.

A cordelteca. Foto: Kátia Azevedo

A inauguração da cordelteca foi prestigiada pela diretora técnica da Fapitec-SE, Carla Xavier, e pela coordenadora do Programa de Comunicação Científica e Tecnológica (Procit), Stefani Dias e integrantes da Associação Cordelista de Nossa Senhora da Glória.

Carla Xavier destacou a alegria de presenciar um momento tão importante para a educação, ao mencionar que a literatura de cordel tem o papel de transformar as pessoas e potencializar o fortalecimento da cultura popular nordestina.

“Quando entrei na escola fiquei muito feliz ao ver este projeto. Nós da fundação que trabalhamos com os editais temos a felicidade de apoiar um projeto tão bonito em parceria com a Seduc. Parabenizamos a toda equipe por esta iniciativa, que revela a riqueza do chão da escola ao promover uma ação que valoriza as nossas raízes culturais” – parabenizou.

ALDA LÊ UM DE SEUS CORDÉIS

Katia Azevedo Contributor

Jornalista e mestra em direitos humanos, com especialização em divulgação e popularização da ciência (Fiocruz – em andamento) e graduanda em filosofia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). É pesquisadora do grupo de pesquisa de assuntos pós-coloniais da Universidade Federal do Recôncavo Baiano. (UFRB) e da cátedra Otavio Frias Filho de estudos em comunicação, democracia e diversidade da Universidade de São Paulo (USP). Foi colunista do jornal A Pátria – Jornal da Comunidade Científica da Língua Portuguesa.

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