Artesão é o único a reproduzir edificações e casario colonial de cidade sergipana histórica
– Paulo Oliveira
Quando criança, Gilson José dos Santos observava a mãe trabalhar com barro, produzindo potes, panelas e outros objetos utilitários. Ainda na infância, ele passou a usar a técnica de modelagem para produzir boizinhos para brincar em Laranjeiras, cidade histórica de Sergipe, fundada em 1605.
O tempo foi passando, Gilson, hoje prestes a completar 71 anos, se alistou na Marinha, mas não passou no psicotécnico. O sonho de usar farda branca acabou quando o redirecionaram para o Exército. Dois anos depois, em 1975, cogitou entrar na Polícia Militar, mas o baixo salário o fez desistir da ideia.
Depois de passar por empresas privadas, em 2000, resolveu resgatar o conhecimento que adquiriu no tempo de guri e assumiu de vez a profissão de artesão. E se transformou no único artista a produzir réplicas da Igreja Matriz, nove templos, sobrados e casas coloniais da “Atenas Sergipana”, como Laranjeiras ficou conhecida a partir do século XIX (19) por sua importância cultural e econômica.
As peças são fabricadas manualmente, sem o uso de moldes. Elas são feitas em três tamanhos (pequeno, médio e grande). As duas primeiras custam entrem R$ 110 e R$ 150. Casas e sobrados são vendidas a partir de R$ 55. No catálogo de Gilson, constam as peças em formato tridimensional e em placas decorativas.
Entre as construções mais vendidas estão a Matriz, a Igreja de São Benedito e a Capela de Sant’Aninha, construída em 1860 no local onde funcionava um depósito de pólvora.

O pequeno santuário foi erguido no solar que deu o nome à capela. Hoje, ela está em ruínas, mas já foi considerada uma das capelas particulares mais ricas do Nordeste. O altar-mor possuía uma talha dourada suntuosa, além de ter peças em ouro maciço no acervo.
Segundo o artesão, houve uma tentativa de compra da propriedade por um funcionário da Petrobras que desejava recuperar a Sant’Aninha com recursos próprios. O proprietário do terreno, no entanto, não aceitou a proposta.
As peças são queimadas em forno instalado na casa do genro do artesão, a 500 metros de distância da residência de Gílson. Elas podem manter a cor natural do barro ou receber pintura que reproduz as cores reais das edificações. Na base de cada obra, são gravadas informações sobre o monumento, o ano de construção e a autoria do trabalho. A comercialização atende ao mercado local e a turistas de outros estados e países.
DE VOLTA ÀS IGREJAS
O artesão Gílson destaca que uma característica torna a réplica da Igreja dos Pardos uma das mais procuradas por turistas, sendo a segunda mais vendida em seu catálogo, atrás apenas da Igreja Matriz.
A história do galo instalado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Pardos remonta ao ano de 1860, por ocasião da visita do imperador Dom Pedro II a Laranjeiras. A obra de construção do templo estava paralisada e Pedro forneceu recurso para que ela fosse concluída. Como retribuição, foi instalado a escultura do galo no alto da torre.
Já a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Laranjeiras, possui uma relevância histórica e social que a destaca entre os demais templos do município. De acordo com o artesão, ela é a única que pode ser oficialmente chamada de igreja. Tecnicamente, todos os outros são capelas.
A construção da Matriz remonta ao século XVIII, tendo sido concluída no ano de 1791. No passado, a edificação era categorizada como a “Igreja dos Brancos”. Gilson explica que havia segregação baseada na cor da pele: enquanto os negros e pardos possuíam seus próprios templos (como a Igreja de São Benedito e a de Nossa Senhora da Conceição dos Pardos), os brancos eram a única classe que possuía o privilégio de frequentar qualquer uma das igrejas da cidade, incluindo o templo central.
Por ser o centro do catolicismo em uma cidade onde cerca de 90% da população é católica, a igreja principal foi escolhida por seu Gílson como a primeira a ser produzida em sua trajetória artística iniciada no ano 2000.

Gilson dos Santos disse que suas obras têm a aceitação dos turistas e dos moradores da cidade. A mineira Elvira Lobato ficou entusiasmada com o trabalho e comprou uma réplica pequena da Matriz. As peças de seu Gílson estão presentes em outros estados brasileiros e em vários países. No âmbito nacional, o artesão destacou que vendeu peças para clientes de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Brasília. No cenário internacional, os trabalhos foram comercializados para quatro países europeus – França, Itália, Portugal e Espanha.
Segundo o ex-soldado, a atividade atual permite que ele tenha uma vida tranquila. As réplicas podem ser encontradas no mercado de artesanato, diante da rodoviária de Laranjeiras. Ele também tem o prazer de receber clientes em casa, que está a uma caminhada de 10 minutos, partindo do mercado e subindo uma ladeira após cruzar a ponte sobre o rio Cotinguiba.
Gilson dos Santos tem a intenção de ministrar oficinas para jovens em um espaço estruturado para o ensino de moldagem em barro, visando a continuidade da prática na região. Apesar de manifestar o interesse, ele não consegue quem o ajude financeiramente a viabilizar o projeto.
CHEGANÇA

Além do artesanato, Gílson ocupa o posto de almirante do grupo folclórico de Chegança [1] Almirante Barroso, que encena disputas navais e a batalha com os mouros. Há 32 anos, Gilson dos Santos participa da manifestação. Já que não pode servir à Marinha, ele realizou o sonho de outra forma.
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CATÁLOGO DE SEU GILSON
Matriz do Sagrado Coração de Jesus:
Nossa Senhora da Conceição dos Pardos
É famosa por possuir um galo no topo, colocado em 1860 em homenagem à Dom Pedro II. O imperador, quando de sua visita à cidade, doou fundos para conclusão da obra. O templo foi erguido sob os cuidados do Padre Pedro Antônio de Almeira, entre 1843 e 1860. Tornou-se centro de devoção à Virgem da Conceição para realização de festas solenes no Mês de Maria. O templo possui sacristia, consistório, púlpito, coro e três altares. O altar-mor, em forma de coroa, abriga a imagem de Nossa Senhora, pintada pelo célebre Manoel Pereira Leite (Neco).

São Benedito
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito é um marco histórico do século XIX, construída por escravizados. É o centro das festividades de Reis e da coroação da Rainha das Taieiras em janeiro, representando forte sincretismo religioso e folclore local. Taieiras são as participantes da dança-cortejo de origem afro-brasileira, realizada em Sergipe e na Bahia para louvar São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. O colorido dos trajes é um dos destaques. A igreja possui elementos barrocos, com altar em madeira de lei. É considerada um símbolo de resistência e religiosidade.

Sant’Aninha :
Um antigo depósito de pólvora foi erguido em 1860, no engenho Sant’Aninha, pertencente à família Ribeiro Guimarães. Cinco anos depois, o paiol foi transformado na capela, considerada uma das mais ricas do Nordeste. O templo possuía um suntuosa talha dourada no altar-mor. E havia várias peças de ouro maciço, que denotavam a riqueza do engenho. Hoje, só restam ruínas da capela.

Bom Jesus
Construída no povoado Bom Jesus no século XVII (1686). É o atrativo histórico do local. Situado às margens da rodovia de acesso a Riachuelo, a localidade enfrenta graves problemas de infraestrutura, incluindo falta de saneamento, calçamento e iluminação. A área também foi marcada, em anos anteriores, por altos índices de violência e insegurança.

Bom Jesus dos Navegante
Da igreja, construída no início do século XX (1908), parte a anual procissão de Bom Jesus dos Navegantes, tradicional festa religiosa da cidade.Conhecida pela arquitetura barroca e por estar em um morro que proporciona uma bela vista da cidade.
Retiro

Jesus, Maria José
A capela foi construída em 1769 na Fazenda de Açúcar Jesus Maria José, a 19 quilômetros do centro de Laranjeiras. Ela foi tombada pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico (IPHAN) em 1943. Apesar disso, foi abandonada e encontra-se em ruína. A plantação de açúcar teve uma casa senhorial, uma capela anexa e edifícios associados ao cultivo e processamento da cana. Apenas a capela permanece. A pintura do teto é atribuída a José Teófilo de Jesus.

Nosso Senhor do Bonfim
Foi edificada na primeira metade do século XIX, no morro do Bonfim, a 65 metros de altura. Inicialmente, a capela existente recebeu,do capitão Domingo José de Morais, em 1836, doação para aumentar sua construção. Ficou conhecida como ‘Capela Azulada’ por “quase tocar” o firmamento. Em meados do século XIX, a igreja foi atingida por um incêndio. O templo foi restaurado. Para lá foi removido o teto e os altares laterais da Capela do Engenho Jesus, Maria e José.

Santo Antônio das Neves
Localiza-se na zona rural, a cerca de 1 km do centro da cidade de Laranjeiras. A construção está ligada aos jesuítas, que iniciaram sua residência no local no final do século XVII, sendo o complexo inaugurado em 1701. A capela funcionava em anexo à antiga residência do engenho e passou por reformas na primeira metade do século XIX. A edificação é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
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Nota de pé de página
[1] A Chegança de Sergipe representa a evolução da luta dos cristãos pelo batismo dos Mouros. O grupo se apresenta em dezembro e janeiro, no ciclo de Natal e no Encontro Cultural; em agosto, no Dia do Folclore. E em datas diversas na Bahia e em Pernambuco. A Chegança se diferencia da Marujada por representar fatos reais, enquanto a segunda tem enredo lúdico.
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Legenda da foto principal: Réplica das igrejas de Laranjeiras recém saída do forno. Foto: Paulo Oliveira
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Serviço: Telefone de seu Gilson – 79 99958-9286
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(Atualizado às 11h24 min do dia 19/04/2026)
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Jornalista, editor, professor e consultor, 63 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.









Respostas de 4
Que honra ser citada nesta reportagem. O Paulinho, este artesão do jornalismo, valoriza o artista popular e a alma nordestina com seu trabalho ímpar. Meu Sertões é um patrimônio , fruto do caráter sem igual de seu fundador e de sua fantástica parceira, Angelina Nunes. Enquanto houver um jornalista disposto a ouvir e contar histórias, nossa profissão sobreviverá!!!! Viva Paulo Oliveira e Angelina Nunes. Sou fã incondicional desses dois.
Assim ficamos emocionados. Elvira Lobato é um patrimônio do jornalismo brasileiro. Muito obrigado.
Beleza, Paulo, mais um brasileiro genial vivendo quase anonimamente no sertão. Não deu pra fazer um videozinho? Hahaha.
Fizemos vídeo sim, mas não editei ainda. Chegamos ontem de um grande périplo. Falamos no privado.