Gameleira sagrada com mais de 300 anos é atração turística em Maxaranguape (RN)
– Helenita Monte de Hollanda e Biaggio Talento –
No litoral de Maxaranguape, no Rio Grande do Norte, um monumento vivo de mais de 300 anos resiste ao tempo e ao descaso: a Árvore do Amor. Formada por duas gameleiras cujos troncos se entrelaçaram pela força dos ventos, a árvore é o epicentro de uma tradição que atrai casais que sonham com união eterna. O ritual de atravessar o vão entre as árvores ou amarrar fitas coloridas em seus galhos e raízes reflete a fé na durabilidade dos sentimentos.
Em fevereiro de 2024, a árvore foi alvo de vandalismo, com o corte de suas raízes para a extração de seiva, evidenciando o desconhecimento sobre seu valor sagrado e ambiental. Os vândalos queriam extrair o ‘leite” para usar como cola em armadilhas para capturar pássaros.
Para a medicina popular, a seiva possui propriedades curativas contra anemia e cravos, enquanto que no interior de Minas Gerais, a casca da árvore é utilizada em simpatias para a cura da hérnia e do papo, que ocorre da seguinte maneira: após o corte de uma medida da casca, é feita a seguinte oração:
“Em nome de Deus passo para essa árvore a doença que está no corpo de fulano (o nome do paciente deve ser citado)”.

É uma velha magia que consiste em transferir o Mal de uma pessoa para outra, ou para um objeto, um animal ou uma árvore. Quando a fenda da gameleira fechar, a doença estará curada, dizem os mais velhos.
A relevância espiritual da gameleira está profundamente enraizada na mitologia africana, que a considera a primeira árvore do mundo e a morada da divindade Irocô. Lendas narram o poder do espírito de conceder fertilidade às mulheres, uma crença que atravessou o Atlântico e se mantém viva no Brasil através de oferendas depositadas aos seus pés.
A conexão religiosa é tão forte que, em cidades como Salvador, a poda de uma gameleira não é uma questão meramente urbana, mas ritualística, exigindo autorização de terreiros de candomblé e preparação específica para quem executa o trabalho.
Existe a lenda de que a sombra da árvore deve ser evitada em noites de lua cheia [1]. Isso se deve ao fato de que o orixá do tempo e da ancestralidade, Irocô, costuma se divertir perseguindo assustando pessoas e carregando uma tocha para afugentar caçadores.
Um relato místico africano nos conta que havia uma aldeia africana em que as mulheres não conseguiam engravidar. E quase não haviam crianças no povoado. As mulheres recorreram aos poderes mágicos de Irocô. Elas juntaram-se em círculo com as costas voltadas para o tronco, pois olhar a gameleira face a face poderia resultar em loucura e morte.
As mulheres pediram ao orixá que lhes dessem filhos. Em troca prometeram colocar como oferenda milho, inhame, frutas, cabritos e carneiros junto ao tronco da árvore. Logo, elas embarrigaram e as promessas foram cumpridas. Seguidores das religiões afro-brasileiras até hoje costumam colocar quartinhas de água e outras oferendas na base das gameleiras.
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Nota de pé de página
[1] A mitologia africana situa a gameleira como a primeira árvore do começo dos tempos. Ela é a habitação do espírito de Irocô ou Irocu, capaz de muitas mágicas e magias. Nas lendas, o orixá se diverte assustando as pessoas. E também costuma sair à noite com a tocha na mão, afugentando caçadores.
- Author Details
Nasceu e cresceu numa típica família brasileira. Potiguar, morando na Bahia há vinte anos, é médica de formação e pesquisadora da cultura popular. Nos últimos 10 anos abandonou a sua especialidade em cardiologia e ultrassonografia vascular para atuar como médica da família na Bahia e no Rio Grande do Norte, onde passou a recolher histórias e saberes. Nessa jornada publicou cinco livros.”. No final de 2015 passou temporada no Amazonas recolhendo saberes indígenas.








