Pau de Colher: o massacre não pode ser esquecido

Teresinha Martins da Gama Bauer (texto) e Thomas Bauer* (fotos)

 

Neste dia 13 de dezembro, na comunidade Pau de Colher, aconteceu a 19ª romaria. O tema deste ano foi “Somos povo da esperança, povo de fé!”.

Acompanhei os membros da Comissão Pastoral da Terra (CPT) para essa romaria que é celebrada no município de Casa Nova, no norte baiano, bem próxima a divisa com o estado do Piauí e pertencente a diocese de Juazeiro. A romaria é organizada pelas Paróquias São José Operário e São Sebastião, pela comunidade de Pau de Colher e vizinhança e pela Comissão Pastoral da Terra.

O trajeto a Pau de Colher é longo, mesmo partindo de Juazeiro. Segue-se primeiro pelo asfalto e depois na estrada de chão que, marcada com grandes poças de água, revela um cenário maravilhoso: a outra fase da caatinga, o verde exuberante, fruto das chuvas recentes!

Enquanto estávamos viajando no asfalto os animais típicos – bodes, cabras, ovelhas – pareciam não se importar com a nossa passagem. Permaneciam comendo os brotos das ervas novinhas que acabaram de nascer e volta e meia cruzaram a pista na nossa frente, sem se intimidar pelo trânsito de veículos.

Na chegada no povoado, já debaixo de um sol exuberante e em contraste com os verdes das plantas vejo um ambiente semipronto em baixo de uma árvore ancestral, um pé de juazeiro (Zizyphus joazeiro). Mesmo castigada, permanecendo viva somente de um lado, ela conta com frutos verdes, que posteriormente alimentarão os animais da caatinga. Essa grande árvore nos acolhe.

A romaria inicia com cantos e segue para a primeira parada. Homens e mulheres acompanhadas de crianças e adolescentes. Cada vez mais pessoas foram chegando.

Na primeira parada embaixo de um umbuzeiro (Spondias tuberosa), árvore típico do sertão, também robusta e carregada de frutos verdes podemos ouvir a primeira fala do pároco João Borges, da Paróquia São Sebastião de Pau a Pique de Casa Nova. Foi como seminarista que João começou a caminhar nestas terras. Ele lembrou da chegada das primeiras cisternas de água de chuva. E disse:

“Minha gente, nós estamos no céu. Mas ainda temos muito que conquistar.”

A romaria
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A primeira aglomeração acontece no local chamado “acampamento”. Ali, na década de 1930, se reuniu um movimento camponês religioso, social e político, composto por aproximadamente quatro mil pessoas. No mesmo espaço, em janeiro de 1938, cerca de mil camponeses foram massacrados pelo Estado brasileiro. A Romaria faz memória a esse triste capítulo da nossa história, que aconteceu há 84 anos.

No dia 13 de dezembro a igreja católica também celebra Santa Luzia, uma mulher que carrega dois olhos em um prato. É uma imagem bonita de feições angelicais. Mas os olhos no prato nos remete à parte cruel dessa beleza. Serve de memória ao massacre feito pelo Exército brasileiro e por forças policiais da Bahia, Pernambuco e Piauí, banhou este chão de sangue há mais de oito décadas. No lugar exato, chamado com carinho de acampamento, estão enterradas um sem-número de pessoas em covas coletivas.

Ao olhar as cruzes e ouvir que existem outros cemitérios iguais por perto, respiro fundo, solto o ar e penso no refrão da musica que diz “quantas mortes ainda serão necessária para que se saiba que já se matou demais1 “.

Quando saímos da sombra da árvore, seguimos em procissão pelo chão de terra vermelha batida. Inicialmente fiquei atrás, bem atrás do grupo de pessoas. Eu, imbuída nesta natureza humana “animal”, e fauna e flora da caatinga de Casa Nova. Ao longo do percurso, fazendo um giro pela comunidade, houve mais duas paradas curtas e reflexivas.

Sob o sol do semiárido percebo que as mulheres entoam cantos de Maria e de Santa Luzia em toda a caminhada. Nas paradas, nas casas, quem nos recebe oferece água para quem tem sede.

Voltamos ao grande juazeiro que nos acolheu na chegada. Cada pessoa procura se acomodar da melhor maneira possível. Para abrigar a todos levantaram dois toldos ao lado da árvore. Eu me encosto no mastro do toldo, sento no chão fresco regado por as chuvas recentes, que deixaram a areia saliente, com minúsculos cristais, gostosos de tocar.

Mais pessoas chegam. Todos e todas são acolhidos pelo grupo em silêncio reflexivo sobre o que representa a esperança para este povo? Juntar as dores de muitas pessoas que sabem das histórias dos seus antepassados, das barbáries vividas, dos que ficaram sem vidas e dos que ninguém soube do seu paradeiro. E ainda após estes longos anos viver sob o medo do que ressoa sobre o que aconteceu.

O verbo esperançar está neste povo de fé no dia a dia, no calejar das suas mãos, nas buscas de tempos melhores e na percepção das conquistas diárias.

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Leia mais:

O banquete após o massacre e os órfãos escravizados

 

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[1] Versão brasileira da música “Blowin’in The Wind”, de Bob Dylan, cantada por Diana Pequeno.

 

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Legenda da foto principal: O massacre de Pau de Colher, em Casa Nova (BA), ocorreu há 84 anos. A comunidade tinha semelhanças com Canudos e é lembrada anualmente em romaria. Crédito: Thomas Bauer/ H 3000- CPT BA

Teresinha Bauer Contributor

Sertaneja, casada, mãe, terapeuta holística. Professora de educação infantil e de jovens e adultos. Licenciada em história pela UNEB/ Campus IV. Atua na agricultura familiar tanto na colheita como em transformação de produtos e facilitadora de círculos de mulheres e biodança em titulação.

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3 respostas

  1. É um texto real e poético. Lembrei do livro Torto Arado, que traz essa leitura revoltante e ao mesmo tempo envolvente.
    É isso, Esperançar sempre!
    Salve aos nossos ancestrais!

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