A primeira diretora da Escola Malê

Religiosos católicos conscientizaram Geneci sobre questões identitárias

Paulo Oliveira

 

Geneci Soares da Cruz, a primeira diretora da Escola Municipal Malê Debalê, se define como uma mulher negra de matriz africana. No entanto, ela só veio a conhecer a sua origem após os 17 anos, quando conheceu o irlandês Gerard Colm O Fatharta, que viria a se casar com ela.

Gerard era padre e atuava em Saramandaia, comunidade onde a pedagoga nasceu e foi criada. À época, ele dava aulas de inglês. Um dia perguntou à aluna Geneci: “Who is Nelson Mandela?”. A jovem estudante respondeu que não conhecia nem Nelson, nem Madalena. Espantado, o professor disse que não se tratava de ninguém da comunidade e sim do líder rebelde e então presidente da África do Sul (1994-1999).

Mandela foi considerado a liderança mais importante da África Subsaariana e ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1993. Nascido em uma família de nobreza tribal, Madiba, como era conhecido, se formou em advogado. Ele atuava na área de Direitos Humanos e foi líder da resistência não violenta da juventude. Julgado por traição ao governo durante o período de apartheid [1], Nelson Mandela passou 27 anos na prisão antes de ser eleito presidente.

“Eu estava no fim da adolescência e eu nunca tinha perdido de ano, sequer um dia de aula. Sempre gostei de estudar e até aquele ponto ninguém tinha me contado a história da África, nada sobre minha origem, nem pessoas importantes como Nelson Mandela” – ressalta.

A contextualização fez Geneci buscar mais informações sobre a identidade dela. A primeira coisa que descobriu foi o significado do nome:

“É interessante porque minha mãe não sabe de onde ela tirou meu prenome. Eu o odiava quando era criança. Queria ser Patrícia, queria ser Carolina, queria ser o que a sociedade aceitava. Quando começo a buscar quem sou eu, de onde eu vim, descubro que Geneci tem uma ligação direta com a religião de matriz africana. Ele é um dijina [2] de Ogum. A partir daí, passo a entender quem sou eu e começo a amar o meu nome. Também busquei mais informações para entender as religiões de matriz africana. Até então para mim elas eram coisa do diabo” – revela.

Filha de pais que tinham se convertido ao protestantismo, a futura professora cursava o segundo ano de formação no magistério, no Instituto Central de Educação Isaías Alves (Icea). O conhecimento adquirido a partir daí foi fundamental para Geneci da Cruz implantar a lei 10.639 na escola municipal Malê Debalê em curto espaço de tempo.

Geneci começou a modificar, inicialmente, a realidade do bairro em que vivia. Ela e um grupo de catequistas criaram uma escola comunitária, apoiada por padres ligados às comunidades eclesiais de base e adeptos da Teologia da Libertação [3].

 

Cartaz da Campanha da Fraternidade de 1988. Reprodução

O ativismo negro, segundo Geneci, não estava presente em Saramandaia naquela época. A partir das formações feitas pelos padres Gerard (Geraldo) e Ricardo, criador de um grupo de teatro popular no bairro, e da Campanha da Fraternidade de 1988 [4], foi que ela procurou o Movimento Negro Unificado (MNU) para discutir questões étnicos raciais. Outro impulso foi dado pelos cursos feitos no Centro de Educação e Cultura Popular (Cecup) [5], cuja sede era no Pelourinho.

No Cecup, Geneci constatou que os livros didáticos repetiam erros como não abordar questões étnicos raciais. Foi então que resolveu, com outras professoras da escola comunitária Chico Mendes, criar conteúdos que fizessem sentido à vida das crianças. A iniciativa ocorreu seis anos antes da lei 9.394/1996 [6] e treze anos antes da legislação (10.639/2003) que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história da África e cultura afro-brasileira em todo o país.

O material didático produzido por ela e pela equipe da escolinha para crianças de quatro a cinco anos e, posteriormente, para o primeiro ano do ensino fundamental começou com a disciplina de estudos sociais. O livro era baseado na ideologia de Paulo Freire e na Teologia da Libertação. Contava, por exemplo, a história de Acotirene, mãe, conselheira e liderança feminina do Quilombo dos Palmares; Dandara e Zumbi.

Outra novidade era a reunião feita a cada dois meses com os pais dos alunos, onde temas diversos eram colocados em debate. As duas iniciativas foram implantadas na Escola Malê Debalê.

A PEQUENA HEROÍNA

Geneci, formada em 1994, trabalhou como coordenadora pedagógica da escola comunitária Chico Mendes. Em uma época que não eram realizados concursos para as redes municipal e estadual, ela foi funcionária da Trend, empresa de tecnologia educativa do Rio de Janeiro que atuava nas escolas particulares de Salvador; e da Casa de Oxum, um abrigo para meninas de rua. Com exceção da Trend, suas atividades sempre envolveram o resgate da identidade de matriz africana e do povo negro no Brasil.

A professora de Saramandaia foi aprovada no concurso realizado pelo município de Salvador em 1996. Ela trabalhava na Escola Municipal Arte e Alegria, no bairro Novo Marotinho quando foi convidada para assumir a coordenadoria regional de Itapuã, que reunia 40 escolas e mais de 15 mil alunos. Geneci recorda que o antigo coordenador não levava os diretores a sério, embora muitos deles fizessem um bom trabalho e estivessem implantando a lei 10.639.

Um ano após assumir a coordenadoria, a escola no Malê foi fundada e Geneci se candidatou para ser diretora. Em conversa com o comando do bloco, a professora ouviu que o Malê achava importante ter uma inserção na educação porque os índices de violência no bairro estavam aumentando, assim como o número de meninos e meninas de rua.

De acordo com a pedagoga, a direção da agremiação entendia que só a escolinha de percussão do Malezinho não era suficiente para mudar a realidade. Por sua experiência em implementar políticas sociais em escolas e “por ter a cara da comunidade”, Geneci assumiu a direção da unidade.

Os primeiros problemas que enfrentou estavam relacionados à falta de experiência dos professores e professoras designados, principalmente, por eles desconhecerem como aplicar a lei 10.639.

“A gente implementou a escola do zero. No início eram quatro turmas. Depois, a escola cresceu e tivemos que transformar o pequeno cômodo onde funcionava a biblioteca em sala de aula. Nela, mal cabiam 2O alunos. Logo, atingimos 10 turmas de ensino infantil (grupos 4 e 5) e de primeiro e segundo ano de ensino fundamental I. Havia quatro professoras, com carga semanal de 40 horas, e duas, de 20 horas” – lembrou.

Geneci: “o espaço físico do Malê foi a maior dificuldade para implantação da escola”

Outra grande dificuldade, a maior de todas, estava relacionada com o espaço físico. Ela conta que o local não foi criado para ser uma escola. E, por ser originalmente um bloco afro, as salas de aula eram transformadas em camarins nos dias de ensaio.

Na segunda-feira, quando as professoras chegavam, as salas estavam uma “atrapalhação”. O material educativo colocado nas paredes estava danificado. A improvisação da cantina da agremiação como refeitório fazia com que os alunos comessem em pé ou sentados no chão do pátio.

Os contratempos com os livros didáticos persistiam em 2006. Uma das primeiras publicações adotadas no Malê foi o livro Luana, A Menina Que Viu o Brasil Bebê, protagonizado por uma menina capoeirista. A personagem é considerada a primeira heroína negra das histórias em quadrinhos brasileiras.

Para mostrar que o protagonismo das pessoas negras não era ficção, Geneci levou uma menina que era atendida pela ONG Espaço Cacto e Trevo, fundada por ela para defender direitos sociais. Cléia era parecida com Luana, jogava capoeira e era muito ativa. Ela tinha os cabelos trançados como o da heroína.

A diretora levou ainda um desenhista para fazer um imenso painel retratando a personagem. Era uma ilustração imensa para a qual as crianças não paravam de olhar. Antes de seguirem para as salas de aula, os alunos se concentravam diante do painel todos os dias, admirando-o.

“Trabalhamos o jogo de capoeira nas salas de aula, mostrando que ele servia para desenvolver o físico das crianças e que a prática não era luta, não era bater no colega, tinha muito a ver com a nossa cultura” – explica.

A equipe de educadores contava com uma vice-diretora, que tinha a função de professora no turno da manhã. Todas as professoras eram negras. Mas a vice, apesar de ser descendente de negros, tinha a pele muito clara e alisava o cabelo. Por conta disso, o pessoal do Malê não a aceitou muito bem. Nem ela, nem uma estagiária branquinha recém ingressa na rede municipal. A direção do bloco achava que elas não correspondiam ao padrão ativista que queriam para a escola. A jovem professora entendeu o que se esperava e se dedicou ao trabalho de implantar a lei 10.639. A vice-diretora saiu após um ano.

“Um dia cheguei na sala da jovem estagiária e as crianças de 4 anos estavam brincando. Quando eu estava saindo, ela me chamou para mostrar que duas meninas que estavam mexendo nos tecidos do Malê amarraram pedaços dos panos nos cabelos e estavam dizendo que eram a Geneci. Elas não brincavam de princesa da Disney, brincavam de ser a diretora da escola, incorporando os ensinamentos repassados e as referências que o Malê defendia” – contou.

A ex-diretora destaca que os panos estavam amarrados na cabeça das crianças da mesma madeira que os praticantes de religiões afro-brasileiras fazem. Isso leva à questão sobre areação de evangélicos ao trabalho desenvolvido na unidade escolar. A pedagoga responde que, à época, o protestantismo já era muito forte e havia uma discussão sobre o que era obra de Deus ou do diabo.

“O interessante é que a lei 10.639 fez os pais respeitarem esses temas. No primeiro ano, durante o desfile da primavera, a gente contava a história de matriz africana, a partir do candomblé. Cada turma trabalhava um orixá“– declara.

A ex-diretora acrescenta que não houve conflitos no curto período (março de 2006 a março de 2007) em que dirigiu a escola, mas depois ouviu falar de problemas de relacionamento. Não dos funcionários, muitos deles indicados pelo Malê, mas de professoras evangélicas.

Geneci ressalta que o trabalho de Carlos Eduardo Santana, coordenador pedagógico da SMED e diretor do bloco, foi muito importante. Ele promovia rodas de cultura com as professoras e contava a história do bloco, dos Malês e do bairro para que elas tivessem embasamento para trabalhar a lei.

Carlos Eduardo, hoje representante do Núcleo de Política Educacionais das Relações Étnico-Raciais (Nuper), não interferia no conteúdo previsto pela legislação que a orientava. A função dele era atender as necessidades da escola, como ceder um espaço que não constava do contrato com a secretaria.

“Eu sempre era atendida, mas não sei se as coisas continuaram assim depois que saí” – comenta.

NOVOS RUMOS
Geneci e Gerard vivem hoje com os filhos em
Galway, na Irlanda. Foto: Redes sociais

 Do ponto de vista pessoal, a pedagoga relata que quando começou a namorar o padre Gerard, irlandês e branco, foi considerada “aberração da raça”. Quando entrou para a escola de Itapuã, ela já tinha criado a própria ONG Cacto e Trevo, no bairro de Mussurunga, voltada para a educação e para a defesa de direitos sociais.

Mesmo sendo bem recebida pelo exigente líder comunitário e uma espécie de gerente do Malê, seu Peruano, ela decidiu atuar por conta própria. Hoje, embora more com o marido e dois filhos em Galway, na Irlanda, viaja constantemente para Salvador, onde a ONG funciona há pouco mais de 21 anos.

Geneci avalia que a implantação da lei 10.639 deu bons resultados. Ela atribui à iniciativa o fato de os adolescentes de hoje assumirem a identidade.

“Saí do país em 2007. Quando voltei com meu filho anos depois, a gente foi no Pelourinho. Era bonito de ver os cabelos para cima, rastafáris. Outro aspecto positivo são os livros escritos para as crianças pelas professoras, a exemplo da ex-diretora do Malê, Gedalva da Paz” – atesta.

A pedagoga ressalva que a lei chegou não só para contar história da África pura e simplesmente. Ela mostrou, dentre outras coisas, que já existiam profissionais negros de destaque em diversas profissões.:

“Isso provocou mudanças no mercado de trabalho. O aeroporto de Salvador parecia o da Alemanha. Hoje você já vê que assumiu nossa cara. Também não víamos tantos artistas na televisão e renomados médicos, engenheiros e juízes. Ainda é pouco para um país em que 55,5% da população é de pardos e negros, mas percebemos que a autoestima e o orgulho de nosso povo melhoraram.”.

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Notas de pé de página

[1] Regime político baseado na criação de leis segregacionistas na África do Sul. Esse sistema foi mantido por extremistas de direita do Partido Nacional. O regime durou de 1948 a 1994.

[2] Dijina é uma palavra do dialeto quimbundo, falado no noroeste de Angola. Significa “nome”. Normalmente, os iniciados do candomblé recebem uma dijina após a feitura do santo e passam a usá-la durante os cultos religiosos.

[3] Abordagem teológica cristã que enfatiza a libertação dos oprimidos. Ganhou força, principalmente, na América Latina, após o Concílio Vaticano II, em meados da década de 1960. Um de seus principais teólogos foi o brasileiro Leonardo Boff.

[4] A Campanha da Fraternidade de 1988 teve como tema “A fraternidade e o negro” e o lema foi “Ouvi o clamor desse povo”.

[5] O Cecup, hoje sediado no bairro de Nazaré, foi criado em 1982 tem como missão promover a organização, mobilização e fortalecimento dos movimentos sociais, baseado nos princípios da educação popular e na promoção, defesa e garantia dos Direitos Humanos. Atua até hoje nas áreas de crianças e adolescentes, fortalecimento de ONGs e movimentos populares, Justiça e promoção de direitos.

[6] Primeira tentativa de implantar no ensino de História do Brasil conteúdo sobre “as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia (Parágrafo 4 do artigo 26).

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Legenda da foto principal: Geneci mantém ONG para defesa de direitos sociais, no bairro de Mussurunga. Foto: Paulo Oliveira

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PARTE I

A Escola Municipal Malê Debalê: auge e declínio Adaptações feita para o bloco virar escola Josélio de Araújo: “Consegui transformar lixo em luxo” Editorial: Sem transparência a verdade não aparece

PARTE II

Prefeito de Salvador não cumpre promessa feita ao MalêObra feita em período eleitoralGedalva, ex-diretora da Escola Malê e escritora'Hoje a gente não está dando conta nem de alfabetizar'

 

Jornalista, editor, professor e consultor, 61 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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