Adaptações feita para o bloco virar escola

Experiência durou pouco mais de uma década. Bloco aguarda por centro cultural há sete anos

Paulo Oliveira

 

Carlos Eduardo Santana passou a frequentar o Malê como folião em 1994, na época em que os ensaios eram feitos ao ar livre, no Parque Metropolitano do Abaeté. Entre 1994 e 1995, ele foi estudar pedagogia em Rondônia, voltando no quinto período para a Uneb, em Salvador.

Nove anos depois, já na diretoria do bloco de Itapuã, ele recebeu de Josélio a missão de cuidar da parte educacional da agremiação. O cargo de diretor de educação não constava no estatuto, mas a função era bem clara: fechar parcerias com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Estadual da Bahia (Uneb).

Carlos Santana, coordenador pedagógico e ex-vice-presidente do Malê. Foto: Paulo Oliveira

Em 2005, Carlos Santana foi aprovado no concurso de coordenador pedagógico da Secretaria Municipal de Educação (SMED) e coube a ele, meses depois, fazer as tratativas para a instalação da Escola Municipal Malê Debalê, em nome do bloco afro. Na época, o pedagogo estava lotado na coordenação regional de educação de Itapuã, uma das 11 existentes na capital baiana.

Carlos estava subordinado à Geneci Soares da Cruz, que também participou das conversas para a instalação da unidade educacional. Ela viria a ser a primeira diretora da escola do Malê. Contaram a seu favor os seus conhecimentos e o ativismo no movimento negro.

De acordo com o então diretor do Malê, as reuniões iniciais serviram para definir como seria o funcionamento da escola e quais modalidades educacionais seriam oferecidas. Ficou acertado que a escola ocuparia quatro salas da sede do bloco. Inicialmente ficou acertado que seriam oferecidas aulas para os estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental I. Depois, a oferta foi ampliada para a educação infantil.

Antes do início das atividades, foram necessárias várias adaptações. O bar do bloco passou a funcionar como cantina; a direção da unidade funcionava na sala da diretoria; e a sala de reuniões da agremiação virou a secretaria da escola. O bloco ficou com apenas duas salas.

No início tudo era confuso. Uma das ex-diretoras contou que componentes do bloco consumiam alimentos da merenda.

Para a realização dos ensaios nos finais de semana, salas de aula viravam camarotes. As carteiras e cadeiras eram empilhadas em um canto e até os cartazes de trabalhos de alunos eram retirados das paredes. Em função disso, as aulas começavam mais tarde às segundas-feiras para que tudo pudesse ser recolocado em seus devidos lugares.

O aumento da demanda fez a escola municipal ocupar 11 salas ou noventa por cento das instalações, de acordo com Claudio Araújo, atual presidente do Malê. Até o palco do bloco era utilizado para os mestres da banda darem aulas de percussão.

O enredo e as músicas que a agremiação apresentava durante o carnaval também passaram a fazer parte do projeto pedagógico da escola. Tudo era repassado para os professores trabalharem o tema com os estudantes durante o ano. Um desses enredos foi Okê Arô, uma saudação em iorubá feita aos orixás, cujo tradução é “Viva o Rei”.

Carlos também lembra de outra ocasião em que a rainha guerreira angolana Nzinga, símbolo de resistência ao colonialismo português; Jokana, indígena pataxó; e Francisca, representando as mulheres de Itapuã, foram trabalhadas como exemplo de protagonismo feminino.

“Qual era a preocupação que nós tínhamos? Fazíamos questão de que os professoras e gestoras participassem do lançamento do tema da escola e soubessem o que o Malê está prevendo para o carnaval seguinte. Então, quando a escola construía o seu projeto pedagógico, aquele tema gerador era utilizado em todas as disciplinas” – contou.

As professoras recebiam as canções, os tecidos das roupas, enfim, tudo o que era produzido para o desfile. Quando as aulas começavam, os alunos percebiam a simbiose existente entre a escola e o bloco.

Crianças aprendiam sobre cores e nomes de orixás. Reprodução

 

Os estudantes também trabalharam a parte da cultura afro-brasileira estudando os orixás. Cada sala tinha o nome de uma divindade e as portas eram pintadas nas cores das entidades. Isso, porém, causou problemas.

“Uma vez me perguntaram: ‘Professor, o que está acontecendo no Malê? Já é a terceira professora que pede remoção” – recorda o ex-diretor do bloco.

Carlos acrescenta que era comum profissionais evangélicas associarem a agremiação com o candomblé e se recusarem a trabalhar no local.

Sobre o fechamento da unidade, o ex-diretor do Malê conta que a então diretora Flávia Petersen o procurou. Chorosa, disse que a escola seria desativada e que matrículas não seriam mais aceitas.

A desativação da unidade foi pedida por Claudio Araújo, atual presidente do bloco. A alegação do dirigente foi que era necessário dar um passo à frente, criando uma instituição, um centro cultural, pautado na comunidade de forma mais ampla. Claudio argumentou, em entrevista para Meus Sertões, que a lei 10.639 não era cumprida por todas as professoras e que foi construído um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI), bem mais amplo, em um terreno em frente ao bloco.

Antes da inauguração do CMEI, que recebeu o nome de Itapuã/Malê Debalê em homenagem ao bairro e ao bloco, os alunos do ensino fundamental já tinham sido nucleados (transferidos em função de reestruturação no sistema escolar). O centro de educação infantil foi inaugurado em 9 de março de 2017.

Rosyvone foi a diretora que permaneceu mais tempo no Malê. Foto: Paulo Oliveira

A escola municipal que funcionava na sede do Malê permanece fechada. No entanto, a secretaria de Educação mantém uma diretora e funcionários administrativos, além de ter feito reformas recentemente.

Para Carlos Santana a decisão foi “equivocada”. Não visão dele “não se fecha escola, se abre”. O pedagogo acrescenta que a comunidade reclamou da transferência para uma escola no final de linha e pela demora na inauguração do CMEI.

O servidor da SMED revelou ainda que pediu para ser transferido para a escola na sede do Malê e chegou a ser nomeado diretor :

“Na época, a secretaria de educação mantinha ainda um vice-diretor, secretário, professoras, funcionários administrativos, porteiros e merendeiras. Só não havia alunos” – relatou.

Carlos acrescentou que aguardou a criação do centro cultural por três anos e pelo tempo que durou a pandemia de Covid-19. Como nada aconteceu, renunciou ao cargo, pois se sentia em uma escola fantasma. Cinco meses depois, ele também deixou a diretoria do bloco.

O ex-vice-presidente da agremiação contou que partiu dele a sugestão de transformar o espaço em centro cultural para evitar que os jovens ficassem nas ruas. A ex-diretora Rosyvone Pereira reivindicou a mesma ideia. Já Claudio Araújo, atual presidente do Malê, disse que, independente de quem tenha feito a sugestão, ela não teria ocorrido sem a aprovação da direção do bloco.

Qual o benefício que a escola trouxe para seus alunos enquanto durou?

“É inegável que houve um reforço positivo na percepção da construção de identidade das crianças”  – disse Carlos Santana.

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Legenda da foto principal: Uma das salas de aula da escola desativada do Malê. Foto: Olga Leiria

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Leia a série completa

PARTE I

A Escola Municipal Malê Debalê: auge e declínio A primeira diretora da Escola Malê Josélio de Araújo: “Consegui transformar lixo em luxo” Editorial: Sem transparência a verdade não aparece

PARTE II

Prefeito de Salvador não cumpre promessa feita ao MalêObra feita em período eleitoralGedalva, ex-diretora da Escola Malê e escritora'Hoje a gente não está dando conta nem de alfabetizar'

 

Jornalista, editor, professor e consultor, 61 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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