A Escola Municipal Malê Debalê: auge e declínio

A Escola Municipal Malê Debalê foi a primeira e única unidade de ensino criada em um bloco afro a ser inserida na rede municipal de Salvador. A iniciativa, que durou pouco mais de uma década, serviu para atender crianças de comunidades de Itapuã e como tentativa de brecar os índices de violência do bairro.

O projeto pedagógico, fundamentado na lei 10.639, que instituiu a obrigatoriedade das aulas de história da África e de cultura afro-brasileira, impulsionou a iniciativa. No entanto, não evitou a desativação da escola, a pedido da direção da agremiação carnavalesca. Desde então, há pelo menos sete anos, o local é mantido pela Secretaria Municipal de Educação, que banca gastos com funcionários, despesas diversas e reformas. Isso enquanto o local não se transforma em um centro cultural, como pleiteia a direção do Malê.

A epopeia da escola teve origem em meados dos anos 1990, na sede do bloco. O fundador e presidente da agremiação, Josélio de Araújo, costumava sentar-se no chão, cercado de crianças. Ele falava para elas obedecerem os pais e respeitar os professores. Também dava conselhos para quem pedia. Quando a conversa terminava, dizia para quem estivesse próximo:

“A gente educa os pais quando passa ensinamentos as crianças” – lembra Carlos Eduardo Santana. ex-diretor e ex-vice-presidente do Malê

Josélio , 70 anos, mesmo debilitado por três infartos, que resultaram na colocação de três stents [1] nas artérias do coração e um para prevenir a ruptura de aneurisma cerebral, lembra com detalhes de seus encontros com meninos e meninas da comunidade:

“Eu costumava fazer dinâmica, com cordãozinho, para as crianças aprenderem a respeitar os outros. Então, elas me contavam o que acontecia em casa. Algumas delas diziam que o pai ou a mãe, bêbados, falavam que não tinham dinheiro e mandavam elas roubarem. Eu falava para elas não ligarem para isso. Em vez disso, deviam abraçar os pais e beijá-los, pois os adultos também podem ser educados. Depois de um tempo, as coisas ruins que contavam deixavam de acontecer”

Carlos Santana, ex-diretor e ex-vice-presidente do Malê. Foto: Paulo Oliveira

Para Carlos, pedagogo e biólogo, aquelas ações de Josélio eram “extremamente educativas” e mostravam o caminho que a agremiação iria tomar nas décadas seguintes. O Malê deixaria de ser apenas um bloco de carnaval para ser uma instituição com atividades durante todo o ano, incluindo imersões no mercado de trabalho, oferta de reforço escolar para as crianças e cursos de cidadania e de identidade negra.

No dia 21 de janeiro de 2006, durante uma solenidade em comemoração ao Dia Nacional Contra a Intolerância Religiosa, na atual sede do Malê, o presidente do bloco perguntou à então secretária de educação de Salvador, Olívia Santana, se era possível construir uma escola para as crianças do bairro.

Na época, Itapuã tinha população estimada de 67.896 habitantes [2], sendo 8.324 crianças de zero a nove anos. A maioria dos moradores 78% [3] eram pardos e negros.

Casa na comunidade Nova Brasília. A imagem consta na tese da educadora Mighian Danae, autora da foto.

 A conversa informal, testemunhada pelo vice-presidente do Malê, Miguel Arcanjo, e por Carlos Eduardo foi relatada da seguinte forma:

Josélio – “Eu gostaria que a senhora criasse uma escola aqui em Itapuã para as crianças. Aqui não tem escolas de educação infantil [4]. Olívia, as mães precisam pagar uma escolinha para irem trabalhar. Quando não têm dinheiro, as crianças ficam na rua”.

Olívia – “Construir uma escola custa muito. Além disso, a gente precisa de um terreno que tenha escritura. Mas tem um jeito. Por que a gente não funda uma escola aqui onde estamos, na sede do Malê?”.

Josélio – “E pode?”

Olívia – “Pode. A gente vai precisar só de alguém que possa ir lá na secretaria para conversar com a gente sobre como será a escola”

Na mesma hora, Josélio nomeou Carlos Santana, servidor concursado da Secretaria de Municipal de Educação (SMED) para tratar com as professoras Darci Xavier, coordenadora da Comissão de Implantação da Lei 10.639/03 [5], e Gedalva da Paz, coordenadora de apoio pedagógico.

As tratativas levaram à assinatura de convênio para cessão de salas da sede do bloco para o município. O acordo estabeleceu ainda que toda estrutura – professores, funcionários, mobiliário, merenda, – seriam responsabilidade da SMED.

A secretaria também passou a arcar com as despesas que o bloco não conseguia pagar. Exemplo: as contas de energia elétrica e de telefonia. A diretoria do Malê indicou a primeira leva de funcionários administrativos e de serviços gerais. Todos tinham vínculo com a comunidade e com o bloco.

Josélio de Araújo, fundador e presidente de honra do Malê. Foto: Paulo Oliveira
A ORIGEM DO NOME

O Malê Debalê foi fundado no dia 23 de março de 1979 por foliões ide Itapuã que haviam desfilado naquele ano em blocos afros como o Ilê Ayê . Na Quarta-Feira de Cinzas, na Cantina da Lua, no Pelourinho, o grupo decidiu criar uma agremiação no bairro no qual moravam. Nos primeiros debates, foram feitas duas sugestões: constituir uma charanga ou um bloco afro. A segunda proposição venceu por 5 a 2.

Miguel Arcanjo, futuro vice-presidente do bloco, sugeriu o nome para homenagear os negros muçulmanos que foram sequestrados e trazidos escravizados para a Bahia. Foram os malês que realizaram a maior revolta contra a escravidão até então ocorrida no Brasil, em 1835. O perfil da luta de resistência caiu na graça dos fundadores. No entanto, eles viram a necessidade da palavra principal ter um complemento para ser mais sonora.

Em um ensaio do afoxé Badauê, no Engenho Velho de Brotas, os jovens de Itapuã ouviram uma música cujo refrão era “Debale”, e transformaram em “Debalê”:

“Surgiu a versão de que Debale estava relacionado com Iansã Bale. Nada a ver por que a orixá que representa o Malê é Oxum. A palavra depois foi ressignificada para um sentido de positividade, alegria e axé, mas na verdade é só uma expressão de uma música do Badauê” – explica Carlos Eduardo.

Os blocos afros perceberam, a partir dos anos 90, que suas atribuições iam além do carnaval. Cada um a seu tempo passa a ter sede própria e a oferecer cursos de cidadania e formação profissional para a comunidade, algumas vezes em convênios com o governo estadual. O primeiro a ter uma escola própria, sem pertencer às redes oficiais, foi o Ilê Ayê.

O Olodum criou a Escola Criativa. Essas iniciativas incluíam aulas de reforço escolar (português, matemática e história da África) aulas de percussão e palestras diversas no contraturno. Isto é, o aluno frequentava a escola municipal ou estadual em um turno e teria o reforço no período oposto.

A independência na definição de conteúdo  das escolas foi o principal argumento de blocos como o Ilê  para manter o modelo original, enquanto o Malê optou por vincular o ensino à rede municipal.

“Os dirigentes dos outros blocos fizeram uma série de questionamentos ao Malê.  O principal foi: ‘Por que vocês vão criar uma escola se os alunos não aprenderão do jeito que a gente quer ensinar?’” – recorda Carlos.

A lei 10.639/2003, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história da África e cultura afro-brasileira, foi outro fator que reforçou a convicção da maioria dos blocos afros que ofereciam cursos sem vínculo com a secretaria municipal de Educação. Na visão deles, isto permitiria implementar discussões étnicos raciais sem interferências.

Josélio e seus companheiros tinham outra perspectiva: o desafio de fazer uma escola regular que tivesse uma construção político pedagógica.

98 ALUNOS

A trajetória do bloco de Itapuã incluiu a criação do Malezinho, em 2002. O programa atendia crianças e adolescentes até os 16 anos, matriculados em escolas oficiais, com acompanhamento pedagógico, oficinas de dança e percussão e participação nos desfiles de carnaval no bairro.

A Escola Municipal Malê Debalê seria criada quatro anos depois como desdobramento do Malezinho. Segundo Claudio Araújo, filho de Josélio e atual presidente do bloco, a unidade escolar começou com 98 alunos, de três a oito anos, da educação infantil e do ensino fundamental 1. No auge, chegou a atender cerca de 400 crianças e adolescentes. A experiência duraria pouco mais de uma década. Ela foi encerrada a pedido da atual diretoria da agremiação, que agora pretende transformar  as instalações de parte de sua sede em um centro cultural.

Nos últimos sete anos, a Secretaria Municipal de Educação manteve funcionários no local, fez reformas, trocou o mobiliário e arcou com despesas diversas (contas de energia e telefonia, por exemplo), mesmo sem a presença de alunos. A mudança de projeto, que inclui a construção de um anfiteatro no local, depende da assinatura de um convênio com a Fundação Gregório de Matos, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult). Burocracia e falta de interesse político são justificativas dadas pela direção do Malê para justificar a demora.

(Continua)

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Pé de página

[1] O stent é um pequeno dispositivo expansível de forma tubular, feito de nitinol, aço inoxidável ou uma liga de cromo e cobalto, que é inserido no interior de uma artéria para prevenir ou evitar a obstrução do fluxo sanguíneo devido ao acúmulo de gordura nas artérias coronárias ou para prevenir a ruptura de aneurismas cerebrais.

[2] Cálculo feito levando em conta a proporção da população do Censo 2010 e aplicando o mesmo índice na população estimada de 2006 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

[3] Dados do IBGE 2010. População: 50,72% de pardos, 27,25% de pretos, 20,65% de brancos, 1,14% amarelos e 0,24% indígenas.

[4] A tese Mandingas da Infância: as culturas das crianças pequenas na escola municipal Malê Debalê em Itapuã, Salvador (BA)”, de Mighian Danae (USP), mostra registra essa realidade. Nela, há fotos de casas da comunidade de Nova Brasília, cujos moradores se oferecem para tomar conta de crianças. A oferta é feita em anúncios pintados nas paredes do imóvel.

[5] Lei que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história da África e de cultura afro-brasileira nas escolas de todo o país.

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P.S – Toda a trajetória educacional do bloco será contada na série, em capítulos quinzenais, que Meus Sertões publica a partir de hoje.

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Legenda da foto principal: Um dos prédios da sede do Malê com salas de aula. Foto: Paulo Oliveira

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Leia a série completa

PARTE I

 Adaptações feita para o bloco virar escola A primeira diretora da Escola Malê Josélio de Araújo: “Consegui transformar lixo em luxo” Editorial: Sem transparência a verdade não aparece

PARTE II

Prefeito de Salvador não cumpre promessa feita ao MalêObra feita em período eleitoralGedalva, ex-diretora da Escola Malê e escritora'Hoje a gente não está dando conta nem de alfabetizar'

 

 

Jornalista, editor, professor e consultor, 61 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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