Editorial

É assustadora a falta de transparência da Prefeitura de Salvador e da Secretaria Municipal de Educação (SMED).

Reportagens produziam reações imediatas do poder público até o início da década de 2000. Fossem sobre um buraco de rua ou uma denúncia de corrupção ou mau uso de dinheiro público providências eram tomadas rapidamente: a cratera era tapada e o denunciado afastado do cargo.

Com o passar do tempo, políticos criaram seus próprios meios de comunicação, principalmente emissoras de rádio, para mitigar a pressão das mídias tradicionais.

A internet acelerou esse processo. Os governos municipais e estaduais criaram páginas eletrônicas de diversas secretarias e órgãos e passaram a divulgar o que queriam a partir de suas próprias narrativas.

Prefeitos e governadores, aproveitando o declínio dos jornais, direcionaram verbas para a “imprensa amiga” a fim de publicarem apenas o que lhes interessava. Assim, os antigos barões da imprensa se curvaram à vontade dos políticos para manter empresas pré-falimentares.

Outra transformação diz respeito às assessorias de comunicação. Para preservarem seus empregos em um mercado claudicante, muitos dos chefes de assessorias e coordenadores passaram a blindar os assessorados por orientação deles ou por iniciativa própria.

Essa estratégia ganhou mais força diante das redes de comunicação criadas pelos governos. Recentemente, Meus Sertões teve experiências desagradáveis ao questionar a Secretaria de Educação de Salvador e a prefeitura da capital baiana.

Na primeira, foram feitos18 pedidos de entrevistas para o secretário Thiago Martins Dantas, através da assessoria de comunicação do órgão, entre os dias 4 de outubro e 13 de dezembro de 2003. A maioria dos pedidos foi endereçada à coordenadora Consuelo Navarro.

No dia 1º de novembro de 2023, Consuelo prometeu agendar a entrevista. Cinco dias depois, disse que ainda não havia encontrado com Thiago Dantas. Ela não respondeu mais os contatos, via WhatsApp, feitos entre os dias 7 e 21 do mesmo mês.

A coordenadora, após uma semana, enviou mensagem pedindo desculpas. Alegou que não viu os pedidos por estar em uma “correria danada”. Em seguida, disse que passaria a tarefa para uma subordinada obter as respostas do secretário.

Apesar das promessas, Thiago, que assumiu a função em janeiro deste ano, não revelou quais eram seus planos para resolver questões relacionadas à aplicação da lei 10.639, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história da África e cultura afro-brasileira nas escolas de todo o país.

A matéria em questão, de repercussão nacional, fazia parte da série sobre os 20 anos da lei em Salvador A pauta foi selecionada pelo 5º Edital de Jornalismo de Educação, iniciativa da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) e a Fundação Itaú.

A falta de interesse em esclarecer fatos se repete agora, durante a série sobre a Escola Municipal Malê Debalê, criada em 2006 e desativada em 2016. A primeira e única unidade de um bloco afro inserida na rede oficial de ensino espera há sete anos e três meses a transformação em centro cultural. A mudança depende de um convênio com o município, que inexplicavelmente mantém gastos com funcionários, reformas e despesas diversas da escola desativada.

Mais uma vez enviamos um questionário, conforme orientação da assessoria. Dessa vez com 14 perguntas. Não houve respostas.

Decidimos então ligar para o assessor do prefeito Bruno Reis na tentativa de obter as respostas. Segundo a direção do Malê, Reis estava para assinar, a qualquer momento, o convênio de transformação da escola em centro cultural. O assessor Luan Santos recebeu o pedido no dia 7 de março, com a informação de que nosso deadline seria no dia 15.

O assessor respondeu que já estava em contato com a secretaria e as informações estavam sendo levantadas no dia 11. Depois disso calou-se. E permanece assim até hoje.

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Ilustração: Canvas

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Texto atualizado às 8h05 do dia 22 de março de 2004

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Leia a série completa

PARTE I

A Escola Municipal Malê Debalê: auge e declínio Adaptações feita para o bloco virar escola A primeira diretora da Escola Malê Josélio de Araújo: “Consegui transformar lixo em luxo”

Paulo Oliveira Administrator

Jornalista, editor, professor e consultor, 60 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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