“Consegui transformar lixo em luxo”

Presidente do Malê Debalê por 20 anos, Josélio de Araújo diz que fim de escola não acaba com o propósito do bloco de ensinar para incluir

Paulo Oliveira

O bloco afro Malê Debalê foi criado em 1979 por um grupo de moradores do bairro de Itapuã, em Salvador. Nos anos 1980 e 1990 a agremiação se consagrou através de canções, danças e fantasias, fazendo questionamentos e reflexões sobre a história do povo negro e marcando posição na luta contra o racismo.

À frente do bloco, o atual presidente de honra Josélio de Araújo conseguiu construir uma sede – antes os ensaios eram no entorno da Lagoa do Abaeté -; criar o projeto Malezinho, que oferece cursos de dança e percussão para crianças; e, em parceria com a Secretaria de Educação de Salvador, instalar a Escola Municipal Malê Debalê nas instalações do bloco.

Além de 20 anos na presidência, Josélio foi tesoureiro e secretário do Malê, que passou muitas dificuldades até conseguir se estabilizar.

“Por ter lutado muito para o bloco não acabar, tenho sérios problemas de saúde. Tive um AVC e três infartos. Fui para a UPA infartado e o médico me receitou remédio para verme. Ao chegar em casa tive mais dois ataques cardíacos. Hoje tenho três stents no coração e um no cérebro para evitar problemas com um aneurisma” – conta

Apesar dos problemas, Josélio não se recusa a falar sobre a escola e o bloco para Meus Sertões. Nessa entrevista, ele diz por que não considera um retrocesso o fim da unidade escolar que chegou a atender 400 crianças do bairro e acredita que o centro cultural que deve ser implantado na instituição representa um avanço para a comunidade.

“Estamos avançando em nosso propósito de educar para incluir” – disse. 

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

 

Seu Josélio, como é que surgiu a ideia de o Malê ter uma escola?

Nós tínhamos uma gama de projetos educacionais e culturais e achamos que a formalização, a escola fundamental, seria uma das grandes conquistas que o Malê ia ter e, por isso, lutamos por isso. Na época, a secretária de educação, a vereadora Olívia Santana, me ajudou muito.

Algumas pessoas que frequentavam o Malê me disseram que era comum o senhor estar sentado, cercado de crianças, e o senhor dava orientações para elas. Quais eram esses ensinamentos?

Eu fazia um trabalho de educação, educar para incluir. Incluir e educar os filhos para que eles pudessem educar os pais. Tem muita criança que vive em vulnerabilidade com os pais.

E o senhor começou a fazer esse trabalho quando?

Eu comecei a fazer esse trabalho em 1980.

O seu encontro com Olívia Santana, quando o senhor pediu a construção de uma escola, foi durante uma cerimônia no Malê. O senhor se lembra como foi essa conversa?

Eu pedi para que ela ajudasse a gente. Nós tínhamos interesse de fazer uma escola no Malê e ela prontamente acolheu a nossa proposta.

Como foi o acordo celebrado com a Secretaria Municipal de Educação para instalação da escola?

A prefeitura, através da secretaria, dava os professores, fornecia a merenda e pagava as despesas como água e luz. Além de fazer reformas quando necessário. O Malê cedia as instalações. A escola foi inaugurada em fevereiro de 2006 por Olívia e pelo prefeito João Henrique.

Na sua avaliação como é que foi essa experiência?

Foi bom porque a gente colheu frutos desse ensinamento. Hoje tem mais crianças educadas, pensando no futuro.

E quando o senhor fala frutos, o senhor podia me dar exemplo concretos?

Bom, tem menino da escola que já foi rei e rainha do Malê Debalê [1]. Culturalmente eles aprendem a se reconhecer como negro, sua autoestima é positiva. Eles sabem a lei do respeito: quando um mais velho fala, ele baixa a cabeça. Então isso tudo foi passado, e isso eu considero uma vitória.

E teve aluno daqui que deu continuidade aos estudos?

Tem alunos aqui sim, que estão estudando fazendo o segundo grau na escola Lomanto Júnior e na escola Rotary. Eu acho que eles vão chegar ao terceiro grau, com fé em Deus. A gente toca tambor, mas quer o negro com o anel de doutor.

E com os pais, houve uma melhoria, a partir do ensinamento que os filhos levavam para casa?

Eu costumo fazer dinâmica para as crianças aprenderem a respeitar os outros. Então, basicamente, há um entrelaçamento entre eles, e eles me contam o que acontece em casa. E a partir do certo tempo, as coisas ruins que me contavam, desapareceram e voltaram a contar coisas boas na família.

Dê um exemplo de ‘coisa ruim’?

Bom, tem muitas crianças em casa, o pai está bêbado, a mãe bêbada, a criança pede uma coisa, o pai ou a mãe fala: ‘Vá roubar, não tenho dinheiro’. Então isso é ruim para o adolescente ouvir essas coisas porque isso encarna para o futuro. Então eu ensinava a eles para não ligarem para isso. Dizia que quando os pais estivessem embriagados e falassem essas coisas, as crianças deviam beijá-los e abraçá-los. Eu explicava que eles também podiam ser educados.

Quando a escola foi criada, o Malê teve algum problema com relação a evangélicos?

Houve alguma resistência com relação a falar do culto afro-brasileiro. Muitas mães não gostaram, mas acabaram aceitando.

E com relação às professoras e funcionários que passaram por aqui?

Teve uma diretora aqui muito boa, chamada Rosyvone (*), que ela corria atrás de melhorias para as crianças. E eu acho que a perspectiva que nós temos hoje, é que a escola foi uma coisa muito boa. E as diretoras corriam atrás e a prefeitura bancava.

E por qual motivo a escola deixou de funcionar?

Porque foi criado um Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei), em um terreno bem maior aqui na frente. Além disso, quando o nosso centro cultural estiver funcionando, eles vão poder fazer banca aqui de tarde. Também ofereceremos cursos de percussão, dança, canto e teatro.

Esse projeto de banca no contraturno e de cursos diversos foi adotado há anos por outros blocos afros, que não quiseram vincular os ensinamentos com a rede pública. O senhor vê essa nova atitude do Malê, de pedir o fechamento da escola como um retrocesso?

Eu acho que não há retrocesso, porque nós trabalhamos na formação de futuro. Há exemplo do Malezinho, onde as crianças dançam, tocam e cantam. E basicamente, no futuro, eles assumirão o Malê e muitos serão doutores formados. Então, não há retrocesso.

Qual a comparação que o senhor faz da vida dessas crianças da comunidade na época da criação da escola do bloco e hoje? Melhorou?

Melhorou muito. Hoje, as crianças dançam no Teatro Castro Alves. Em qualquer evento público, o Malezinho está indo. Então, acho que houve e está havendo muito avanço. Recebemos um público diferenciado. Teve um caruru aqui e 99 % das pessoas vieram do Centro. Alunos da Universidade Federal da Bahia, na dança, dançarinos no teatro, do balé, do TCA, coordenadoras.

Então, eu me regozijo porque eu criei o Malezinho na minha gestão. Na minha gestão, também consegui criar essa sede na gestão do prefeito Antônio Imbassahy (PFL – 1996 a 2004.). E hoje, ela é um dos melhores espaços que Itapuã tem. Aqui as pessoas comemoram aniversário, casamento, batizado, culto religioso. A sede está a pleno dispor. É só pedir a data, se ela estiver livre, nós cedemos.

Nota da redação: Josélio não respondeu ou não entendeu a pergunta. Ele fez uma análise de parte de sua gestão e não com relação à escola.

O senhor foi presidente do Malê há quanto tempo?

Fiquei à frente do Malê há mais de 20 anos. E consegui transformar lixo em luxo.

Quando o senhor assumiu?

Eu assumi o Malê desde a sua fundação, desde 1979. Eu fui tesoureiro, secretário e fiquei aqui. O Malê passou por muita dificuldade. E hoje, tem sérios problemas de saúde porque lutei muito para que ele não acabasse.

E o senhor se afastou da diretoria ou o senhor permanece com algum cargo?

Me chamam de presidente eterno do Malê. Eu sou presidente de honra. Em todos os eventos, eu estou aqui.

O senhor passou a ser presidente de honra em que ano?

Tem dois anos.

Quando o senhor saiu, a presidência passou por seu filho ou antes teve um presidente?

Eu entreguei para fazer eleição. Mas o Miguel Arcanjo, vice-presidente, pediu que colocasse meu filho para presidir. Ele saiu candidato e ganhou a eleição democraticamente.

O senhor citou a diretora Rosyvone. O que o senhor destaca assim do período que ela ficou aqui?

Ela é muito competente. Teve um ótimo relacionamento com os alunos, os pais, as mães dos alunos. Rosyvone se dedicava totalmente à escola. Atendia todos os chamados, corria atrás de festa, de formatura, de presentes para as crianças no Natal, no Dia das Crianças. Ela era fenomenal.

Ela foi uma das, salvo engano, oito diretoras que passaram pela escola…

Não quero dizer com isso que as outras não prestaram, todos têm o seu serviço bem prestado no Malê.

Agora, os secretários de educação, durante esse período que a escola funcionou, eles vieram aqui, eles fizeram alguma coisa?

Vieram muito pouco, mas sempre atenderam nossas solicitações.

Josélio de Araújo, fundador e presidente de honra do Malê. Foto: Paulo Oliveira

 E quais foram, as melhorias que a secretaria fez no Malê?

Aqui mesmo, você está vendo a sede, foi toda reformada, pelo prefeito Salvador, através da Secretaria Municipal de Educação. E agora estamos tentando fazer um anfiteatro e com isso aumentar nosso espaço, nossa sede.

Agora vamos falar um pouquinho do carnaval do Malê. De qual o senhor tem a melhor lembrança?

Esse carnaval de 2023 marcou muito para mim. Porque não houve um beliscão, um ai na quadra. O bloco saiu bonito, com carro de som bom, muitos dançarinos, uma das especialidades do Malê Debalê. Desde o primeiro ano a gente saiu com o dançarino. E todos sabem que o Malê foi o primeiro bloco afro a ser campeão do carnaval da Bahia e a levar ala de dança. E hoje temos o título do jornal New York Times como maior balé afro do mundo. O carnaval de 80 também foi marcante. O tema de nosso desfile foi Reino Dourado de Ashanti. E o Malê sagrou-se campeão na categoria de bloco afro.

Mas a competição durou quanto tempo?

Até 83, se não me engano. Depois acabaram os concursos.

O senhor ainda mora em Itapuã?

Moro.

Quando o senhor passa por aqui, vê e tal, como é que é a recepção dos meninos e meninas que estudaram aqui quando a escola funcionava?

Bom, todos me abraçam, me beijam, como se fossem um filho. Todos têm a maior estima por mim e eu me sinto muito feliz por isso.

Qual o seu nome completo?

Josélio de Araújo.

 E o senhor hoje está com que idade?

Estou com 70.

Qual era a sua profissão?

Eu era técnico de eletricidade. Depois voltei à escola e tirei o terceiro grau. Sou formado em comunicação com habilitação em relações públicas.

O senhor fez faculdade em comunicação? Aonde foi?

Na Unibahia.

O senhor entrou a universidade com que idade?

Eu estava com quase 50 anos.

 Isso também serviu de exemplo para as crianças?

Exatamente. E serve até hoje. Meu TCC foi Malê in Fest

E tratava especificamente obre o quê?

As festas do Malê, todo o aparato para conceber as festas: organização, segurança policial, buffet, bandas, camarim, camarote, tudo isso.

O senhor tem quantos filhos?

Tenho quatro filhos.

E os quatro estão ligados ao Malê?

Estão. Tenho três meninos e uma menina. A menina é evangélica. Ela não vem muito.

Quem foram os fundadores do bloco?

Eu e mais seis pessoas.

O senhor lembra dos demais?

Miguel, Jorge Mavilie, Mamão, Iáiu do Santos, Águeda do Santos, Bira Malê. No início, havia a proposta de criarmos uma filarmônica em vez de um bloco afro, mas só teve dois votos.

Quer que eu conte a história da fundação?

Pode falar.

Bom, o Malê nasceu por uma deficiência do bairro. A gente queria lutar em favor da segurança, educação, urbanização. E achávamos que o Malê seria um elo de comunicação com o poder público. Aí fundamos o Malê Debalê. Tiramos esse nome de um livro do historiador Antônio Risério. E Debalê foi um arranjo que nós fizemos. E demos uma conotação de felicidade à palavra. Então ficou Negros Felizes. Ou tribo da felicidade. Esse é o significado de Malê de Balê.

E em 1980 escolhemos um lugar que tivesse muita visitação pública. E era o Abaeté. O nosso primeiro ensaio foi em Nova Brasília de Itapuã. A reunião seria feita na Taba do Negro Velho, um ambiente de comércio. Nós tínhamos o Peruano, na Lagoa do Abaeté, que era a liderança. Pedimos a ele que ele entrasse no Malê e que ele apresentasse a gente aqui, onde a gente poderia fazer os ensaios. Ele topou e fizemos a primeira apresentação.

Deu muita gente. No sétimo ensaio teve uma grande briga, houve muitos acidentes. Aquele repórter da Rádio Excelsior, Osvaldo Barreto. Chamou a gente de marginal e não sei o quê. Fora isso, os ensaios eram divertidos. A gente botou até o apelido de Abaeté Grama Hotel Malê porque as pessoas que iam ao ensaio, aos domingos, só iam embora na segunda-feira. Elas dormiam na grama do Abaeté. Entendeu?

Quando conseguimos construir a quadra, tínhamos que montar gambiarra, barraca de lona. A gente só conseguia sair daqui meia noite, uma hora da manhã.

As pessoas que frequentam a quadra têm que pagar mensalidade, são sócias?

Não, negativo. Não paga mensalidade. Mas a gente tem um registro de quase 5 mil sócios nos nossos arquivos.

Pé de página

[1] O bloco elege todo ano o rei e a rainha do carnaval dentre os seus componentes.

–*–*–

(*) Rosyvone Pereira foi uma das ex-diretoras entrevistadas para essa série sobre a escola Malê Debalê. A reportagem sobre a experiência dela será publicada nas próximas semanas

Legenda da foto principal: Josélio de Araújo, atual presidente de honra do Malê. Foto: Paulo Oliveira

–*–*–

Leia a série completa

PARTE I

A Escola Municipal Malê Debalê: auge e declínio Adaptações feita para o bloco virar escola A primeira diretora da Escola Malê Editorial: Sem transparência a verdade não aparece

PARTE II

Prefeito de Salvador não cumpre promessa feita ao MalêObra feita em período eleitoralGedalva, ex-diretora da Escola Malê e escritoraHoje a gente não está dando conta nem de alfabetizar

 

Jornalista, editor, professor e consultor, 61 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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