O futuro começa no semiárido – Parte 1

Iniciativas que unem agricultura e placas fotovoltaicas [1] no sertão pernambucano vislumbram um futuro de segurança alimentar e hídrica [2]

Guilherme dos Santos, Laysa Vitória e Letícia Barbosa

A terra seca e de sol escaldante da qual Luiz Gonzaga precisou partir em Asa Branca, hoje, é chamada de potência energética do Brasil. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Nordeste responde por mais de 80% da energia eólica e solar produzida no país, e tem possibilidades para ampliar a geração e os ganhos com essas fontes de energia na próxima década.

“O futuro começa neste local que sempre foi tida como berço da escassez, da fome, da miséria. Agora, já começa a se reverter a situação, esse sol que foi tão mal falado anteriormente, sol que queimava e destruía, agora produz um produto nobre que é energia”, afirma Sebastião Alves, Coordenador de Inovação e Pesquisa Tecnológica do Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta).

Contudo, em 2022, as usinas de energia solar desmataram mais de 3.000 hectares (ha) da caatinga, segundo levantamento realizado pelo Mapbiomas [3]. Além do problema da derrubada de vegetação nativa, sistematicamente herbicidas são utilizados para manter as plantas fora das placas solares, explica Genival Barros, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e coordenador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Práticas Agroecológicas (Neppas), da unidade Serra Talhada.

Uma alternativa para a produção de energia solar de forma mais sustentável é a utilização do sistema agrofotovoltaico, ou agrovoltaico, modelo desenvolvido por pesquisadores alemães que combina agricultura com painéis fotovoltaicos. Na Alemanha, e em outros países europeus, o modelo já é utilizado, mas no Brasil ainda é muito pouco conhecido. O sistema pode contribuir para a segurança hídrica, produção de alimentos e distribuição de renda.

Injustiça energética

Segundo dados atualizados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), os estados do Sudeste e Sul lideram as cinco primeiras posições do ranking de geração solar distribuída. Produção descentralizada é a energia gerada e consumida próxima ao local de consumo, em casa ou no terreno do pequeno produtor. Por outro lado, na estatística da entidade sobre geração centralizada de energia, a região Nordeste possui a maior potência instalada.

“A geração distribuída ainda é muito destinada a uma classe da sociedade que tem condições financeiras” – afirma Cássio Cardoso, engenheiro elétrico e assessor político no Instituto de Estudos Socioeconômico (INESC).

O pesquisador relata que a energia centralizada provoca impactos sociais e ambientais “desde o arrendamento das terras com contratos abusivos entre as empresas e as populações, a disputa entre a energia solar e a produção de alimentos no campo”.

A energia centralizada produzida no Nordeste entra no mercado livre de energia e é adquirida por grandes consumidores.

“Esses compradores que, na maioria das vezes, estão no Sul e Sudeste, pagam um preço muito mais barato do que pequenos consumidores para o mercado regular de energia” – explica Cardoso.

Sebastião Alves viu grandes empresas, a maior parte estrangeira, instalarem latifúndios de placas fotovoltaicas na caatinga nordestina.

“Imaginava que cada casa de agricultor do semiárido pudesse ter a plaquinha solar independente, gerando a própria energia. E o resto que sobrasse injeta-se na rede da distribuidora, não precisaríamos concentrar a energia solar” – conta o professor.

Sistema de esperança

Localizado no sertão pernambucano, o município de Ibimirim possui 26.593 habitantes, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)). A cidade fica a 334 km da capital pernambucana, Recife, e 55,26% da população vivem em zona urbana, enquanto 44,74% habitam a zona rural. As principais atividades econômicas estão concentradas na administração pública, na agropecuária, no setor de serviços e na indústria.

O Coordenador de Inovação e Pesquisa Tecnológica do Ser é um dos responsáveis pela execução de um projeto-piloto do sistema agrofotovoltaico instalado na unidade de Ibimirim, município do sertão pernambucano. A experiência mostra que é possível produzir energia e alimento sem prejudicar o bioma caatinga, que sofre um aumento nas taxas de desmatamento.  O Serviço de Tecnologia incorporou as placas fotovoltaicas ao um sistema de aquaponia [5].

“Percebemos que era possível criar sistemas que pudessem complementar outras tecnologias” – relata o professor Sebastião Alves.

Outra preocupação do Serviço de Tecnologia Alternativa é utilizar conhecimentos e modelos já construídos, adaptando-os para o semiárido.

Criação de galinhas abaixo das placas de energia e das plantas. Foto: Guilherme dos Santos /Coletivo Caburé

No modelo instalado, a produção de energia ocorre na parte de cima, com placas fotovoltaicas instaladas a aproximadamente três metros do solo, no meio há o cultivo de hortaliças utilizando aquaponia e na parte de baixo do equipamento, a criação de galinhas e peixes. O protótipo conta ainda com uma composteira e calhas que permitem captar água da chuva.

A aquaponia é um tipo de tecnologia que integra o cultivo orgânico de plantas com a criação de organismos aquáticos, como peixes e camarões. A água residual dos peixes possui vários nutrientes necessários para as plantas. Sendo assim, o sistema reaproveita essa água para as hortaliças através de uma bomba que faz a água circular.

“Depois que passa pelas plantas, a água volta filtrada para os peixes” – explica Sebastião Alves.

A energia gerada pelas placas é responsável por fazer a bomba funcionar. Dentro do sistema, tudo é aproveitado, como o espaço abaixo da plantação, onde costuma-se criar as galinhas. Estas podem ser alimentadas com as hortaliças cultivadas. Já seus excrementos também são utilizados, sendo destinados para adubar as plantas.

Outra iniciativa de modelo agrofotovoltaico no sertão pernambucano encontra-se na cidade de Itacuruba, o projeto foi viabilizado por meio da parceria do Centro Cultural Brasil Alemanha (CCBA) com a ONG Atmosfair. As placas fotovoltaicas foram instaladas na Aldeia Serrote do Campos, onde vive a comunidade indígena Pankará.

A energia gerada no mini parque de 400 m² é utilizada para bombear a água captada no lago de Itaparica e abastecer casas, rebanhos e irrigar as plantações. Os painéis fotovoltaicos também têm calhas que permitem o armazenamento da água das chuvas. Antes, a aldeia gastava mensalmente em média R$ 3.000 com energia. Agora não paga nada porque as placas produzem energia suficiente para atender toda demanda das bombas de água.

Diferente do sistema instalado em Ibimirim, o de Itacuruba não faz uso da técnica de aquaponia. O professor Genival Barros é responsável pela pesquisa sobre a produção de alimentos embaixo das placas. Ele afirma que é possível cultivar mesmo em em um solo considerado “fraco”, como o de Itacuruba.

A primeira fase da pesquisa de Barros acabou há cerca de um ano. A cultura plantada inicialmente e organicamente foi a do melão, por ter uma importância para a região. Os resultados foram animadores.

O pesquisador deseja começar a segunda fase da pesquisa, mas que isso ainda não foi possível pela falta de recursos. No entanto, os indígenas continuam plantando hortaliças embaixo das placas, “essa área virou uma unidade de observação e demonstração, têm tanques de piscicultura, hidroponia [4], composteira e um pomar”, explica o pesquisador.

Corredores do futuro

Segundo o professor Genival Barros, não é necessário instalar o sistema agrofotovoltaico em grandes áreas contínuas porque pressiona a mata. O ideal é fazer “corredores”. Por exemplo, o modelo do Serta foi instalado em um terreno de 24 m², que dispõe de 10 placas fotovoltaicas.

Apesar do espaço reduzido, o sistema teve um rendimento anual de aproximadamente R$10.000, a partir da produção de 130 kg de peixe (R$ 2,6 mil), 750 ovos de galinha (R$ 365), 810 unidades de vegetais (R$ 1,6 mil), 200 mudas de plantas nativas (R$ 3 mil), além de R$ 2,4 mil anual com a produção de 4.8 mil KWh das placas fotovoltaicas. Além disso, ele pode aumentar até 70% o cultivo de hortícolas e demanda menor quantidade de água, a depender do ambiente e da cultura agrícola.

Escoamento de água para criação de peixe. Foto: Guilherme dos Santos /Coletivo Caburé

O investimento da implantação do protótipo foi de cerca de R$20.000, segundo dados da pesquisa divulgada pelo Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), que também é um dos parceiros do projeto. Atualmente tudo o que é produzido é utilizado para alimentar alunos e funcionários.

Genival Barros acredita na importância de expandir a energia solar, desde que de forma sustentável. E que o sistema ajuda a minimizar os impactos das mudanças climáticas no semiárido, além de favorecer a produção de alimentos e a distribuição de renda.

A luta da juventude de Sebastião Alves por energia solar continua, mas agora ele tem 63 anos. Defendendo os sistemas independentes e acreditando no modelo instalado:

“Eu acho que esses sistemas pequenos resolvem grandes problemas, porque reduz a fome”, afirma.

O professor de coração caatingueiro, como ele mesmo se define, enxerga a potência do semiárido: “é rico, belo e tem muitas oportunidades a oferecer, basta que a gente se envolva com o próprio bioma”.

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Notas de pé de página

[1] A energia solar fotovoltaica é uma fonte de energia renovável e limpa que utiliza a radiação do sol para gerar eletricidade.

[2] O sistema de energia pode ser utilizado para bombear água de poços, barragens e levar para comunidades, além de recolher água da chuva.

[3] O MapBiomas é uma rede colaborativa, formada por ONGs, universidades e startups de tecnologia. Ela produz mapeamento anual da cobertura e uso do terra e monitoramento da superfície de água e cicatrizes de fogo mensalmente com dados a partir de 1985.

[4] Produção integrada de peixes e vegetais tendo como base a recirculação de água e nutrientes em sistema fechado.

[5] O cultivo hidropônico tem como base uma prática que não usa terra para cultivo de plantas.

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Legenda da foto principal: Sistema agrofotovoltaico do Serta. Foto: Letícia Barbosa /Coletivo Caburé

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A próxima reportagem desta série vai mostrar a experiência de famílias de agricultores de Ibimirim que receberam o modelo agrofotovoltaico. Serão abordados os pontos positivos e as dificuldades encontradas. 

*Essa reportagem foi produzida com o financiamento do edital Nordeste Potência junto com a Climainfo. 

Coletivo Cabure Contributor

O Coletivo é formado por Guilherme dos Santos, Laysa Vitória e Letícia Barbosa, alunos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Os três foram ganhadores do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão 2023, promovido pelo Instituto Vladimir Herzog de Direitos Humanos.

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