O infinito sertão

Escrever sobre o sertão é um desafio porque o sertão parece ser infinito: místico, aberto, cheio de singularidades e história.

Quando me matriculei na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), não fazia ideia do que eu escreveria, mas tinha certeza que faria alguma coisa que conseguisse traduzir minhas paixões pela região interiorana e produzir algo comprometido social e politicamente.

Capa da 1ª edição de Vidas Secas, 1938.

Meu interesse pela cinematografia uniu o útil ao agradável e a resposta caiu em meu colo pronta: Vidas Secas. O livro foi um dos primeiros que li ainda no ensino médio e Graciliano Ramos se tornou, desde então, um dos pilares de minha formação política.

O filme eu assisti muito tempo depois, já na faculdade, enquanto fazia um trabalho com “Como era gostoso o meu francês”, do Nelson Pereira dos Santos.

Pôster do filme de Nelson Pereira dos Santos

A proposta inicial do TCC era discutir apenas o filme, mas durante a elaboração do projeto de pesquisa, percebi que ignorar as condições de produção do livro e a representação sertaneja contida nele seria sacrificar parte relevante da história.

A decisão de trabalhar as duas produções me deu um pouco mais de trabalho, pois precisaria de muito mais espaço que os limites de páginas impostos pelo curso e esse fato fez com que eu tivesse que resumir muita informação importante, mas acredito que o resultado final ficou convincente.

Uma coisa interessante sobre a produção deste TCC é que eu discutia como a população do litoral tinha total desconhecimento em relação ao sertão e suas complexidades numa negligência sumária justamente quando a região litoral sul da Bahia, onde vivo, foi atingida por um ciclo de seca jamais imaginado.

A longa estiagem, que se agravou em março e abril de 2016, fez com que moradores de várias cidades, incluindo Itabuna, passassem a consumir água do mar por vários fatores, inclusive por falhas da empresa de saneamento que serve à cidade.

Esse fato fez com que eu assumisse dois papéis: o de pesquisadora que fez este trabalho e o da jovem que carregou água em balde, viu secar rios, incêndios e a morte de animais.

Também fez com que eu me empolgasse e acelerasse a conclusão do TCC, finalizando-o um ano antes do prazo. Apresentei-o no sétimo semestre do curso, acreditando que consegui chegar ao objetivo esperado: discutir o sertão, falando sobre um Brasil empacado e subdesenvolvido durante o século XX.

TCC sobre a seca

Clarissa Melo Contributor

Graduada, mestre e doutoranda em letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz (BA). É bolsista Capes e faz pesquisas sobre os seguintes temas: antropofagia, literatura colonial, representação do sertão e trabalhadores rurais, Cinema Novo e literatura marginal.

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