Obra feita em período eleitoral

Secretaria de Educação de Salvador faz reformas e mantém funcionários em escola desativada

Javena Guimarães da Fonseca Mendonça foi nomeada vice-diretora da Escola Malê Debalê, em outubro de 2016, meses antes da unidade transferir todos os alunos do ensino fundamental.

Antes disso, a pedagoga foi professora do Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Geórgia Maria Barradas Carneiro, no Alto do Coqueirinho, entre o Bairro da Paz e Itapuã. Ela ficou 10 anos nessa função

Segundo a diretora da escola desativada, a transformação em centro cultural depende de convênio entre a Secretaria Municipal de Educação (SMED) e a Fundação Gregório de Mattos (FGM) e a construção de um teatro no local.

Em entrevista para Meus Sertões, Javena detalha as obras que foram bancadas pela SMED nas vésperas das eleições para prefeito muitos anos após a transferência dos alunos; conta as dificuldades que enfrenta; e diz o que ainda é feito na sede da agremiação.

Por que fecharam a escola?

Foi um pedido da diretoria do Malê, creio eu. Não sei com certeza, porque quando como vice gestora do turno da tarde, peguei o bonde andando. Eu fui surpreendida com o fechamento da escola. De lá para cá foram muitos atropelos. A escola fechou e foi nomeado um gestor para ela, que ia ser transformada em um centro cultural. Depois veio a pandemia. Em 2022 soube que não podia haver alteração sem um convênio com a FGM. Até então todo mundo estava fomentando a ideia e esperando o Centro Cultural. Em seguida, o antigo gestor foi exonerado e eu fui nomeada, surpreendentemente.

Quando a escola fechou ficaram quantos funcionários?

Eu, os professores concursados de português e matemática e funcionários terceirizados, como os da limpeza. Depois, só ficamos eu e os terceirizados.

E quantas reformas foram realizadas desde a desativação da escola?

Ano passado, foram feitas a pintura, troca de portas e de piso e manutenção de algumas coisas. Estava tudo muito deteriorado, muito antigo. O tipo de azulejo que existia era um que não é mais padrão das escolas que estão sendo construída pela rede. Eles então quebraram e trocaram.

Em 2020 [1], botaram placas de cimento na quadra que era de asfalto. Tinha uma sala que era camarim e abria para o palco. Quebraram uma parede para a gente transformar o camarim em sala de aula. Mudaram os azulejos do banheiro. Também ajeitaram o palco, que estava deteriorado. Colocaram um toldo emergencial para a inauguração, mas disseram que ele seria trocado.

Qual foi a sua participação durante as obras?

Eu acompanhei tudo de perto. Foi uma reforma desgastante por ter que lidar com terceirizados. Tanto é que passei a sofrer problemas de saúde por conta disso.

Eu solicitei um bebedouro industrial porque os existentes quebram com facilidade. Também pedi mesa nova de professor, cadeiras, quadros, lousas brancas. Requisitei também a retirada do tanque que havia em cima dos banheiros. Todo mês a limpeza tinha de ser feita e era preciso destelhar tudo. Fizeram a mudança, mas tiveram de quebrar a quadra para passar a tubulação e mudar o tanque para o prédio amarelo

Placa da fundação da escola do Malê Debalê, que foi desativada. Foto: Olga Leiria

Como foi esse processo?

A Smed fez licitação, contratou uma empresa e eu tive que lidar com os trabalhadores. Eu tive que ser engenheira, arquiteta, falar de coisas que eu sabia para consertar o que não foi feito. Por exemplo, tem um tanque de água que abastece a escola no lado de fora da instituição, então a comunidade tem acesso. Se alguém jogar um dejeto, contamina tudo. Eu pedi para que mudassem isso. A engenheira autorizou, mas nada foi feito.

Mais alguma coisa deixou de ser feita?

Até hoje não colocaram a fachada. A instituição não tem identificação. Falei isso com a engenheira, mas não fizeram. Ainda tem sala que precisa trocar piso, precisa colocar vidro. Por isso que eu digo que fizeram um arranjo para poder inaugurar rapidamente. Mas fazer o quê? A secretaria tem muitas escolas, quem tem que se preocupar são os gestores.

O que causa esses problemas?

Quando muda o secretário de educação, muda toda a equipe. Mudam os diretores, a engenheira. No ano passado, tivemos uma reunião com o secretário atual, Thiago Dantas, que substituiu Marcelo Oliveira [2]. Aí temos que conversar com ele, além de ir atrás do prefeito Bruno Reis em todas as inaugurações, pedindo para ele começar logo esse projeto do Malê.

Tem trabalho para todos os funcionários da SMED que permanecem na escola desativada?

Vou ser bem sincera, de demanda com crianças não. Mas na parte administrativa tem. Até hoje tem pais que não foram pegar o histórico dos filhos. A gente agora está com problemas porque durante as obras um monte de documentação sumiu. Por mais que tudo estivesse organizado e arrumado na sala que era biblioteca, sumiram históricos e estamos tentando resolver isso junto à secretaria.

E já que tem essa demanda, precisamos da equipe de limpeza porque a gente não vai ficar em um local com a cozinha e o banheiro sujos. Além disso, tiraram quase tudo da escola: geladeira, fogão. Estão usando o micro-ondas de minha casa. Acho que o correto seria ter um lugar para esquentar comida. Os funcionários não podem ficar com fome.

Eles têm que estar lá por conta dessa demanda, mesmo sem alunos. Por causa dos históricos escolares. A minha folha de ponto tem que ir. Eu tenho que estar lá como gestora, mesmo sem aluno. Então tem que ter trabalhadores, pelo menos administrativo e de limpeza.

Por que o centro cultural ainda não foi implantado?

O projeto ainda não começou por que ainda não contrataram os oficineiros.

Quantos oficineiros serão?

Creio que 15.

Qual a última informação a senhora teve sobre esse processo?

O Malê é uma associação carnavalesca. A SMED utilizava o espaço e entrava só com a parte pedagógica, quando era escola. Ela não pagava aluguel da sede, em contrapartida dava toda a manutenção física. Só que se os gestores não correm atrás vai ficando, vai passando. Então o espaço físico ficou muito caótico. Aí teve que sofrer a reforma.

Agora eu ouvi que o projeto será parecido com o da Fundação Cidade Mãe [3]. Lá não vai ser exatamente igual. Creio que a manutenção vai continuar sendo dada pela prefeitura porque foi uma parceria fechada há muito tempo.

Tem previsão do início do novo formato?

Não. Estava aguardando a pessoa responsável por autorizar as contratações, pessoa é que autoriza a contratação dos oficineiros.

É coisa de burocracia…

Pois é.

Apesar do pedido da diretora, não há letreiro na fachada da sede do bloco. Foto: Paulo Oliveira

Tem uma previsão de quantas crianças serão atendidas no novo sistema?

Tem. Eu já tenho a inscrição de todos os alunos. Eu já tenho tudo. Até o nome dos oficineiros, que já trabalham no Malê. A gente indicou para que fossem contratados porque eles já faziam esse trabalho com o Malezinho.  Só falta mesmo eles contratarem. As salas estão todas arrumadas. Agora tem questões de manutenção que precisam ir consertar ntes de começar. Por exemplo, quando chove molha a sala toda do prédio amarelo.

O portão do fundo, por onde os carros entram, está com problema. Eles enrolaram, enrolaram e não consertaram. Tem ajustes a serem feitos. Tem a outra sala também que está com infiltração e está dando mofo. Tudo isso, a secretaria sabe porque mandei e-mail, falei com a engenheira, com o secretário. Passei todas as demandas e estou no aguardo.

As salas coladas no palco, a gente utiliza. Uma é biblioteca, a de cima é de aula. Tem uma antessala que estou pensando em transformar em sala de reunião com os professores e tem uma outra pequena, que não podemos usar porque está com infiltração. Mas ela tem banheiro. É uma sala que quero utilizar.

Quantos alunos estão inscritos para as aulas de reforço e atividades do centro cultural?

Duzentos. Eles estão matriculados desde 2022, quando era o secretário Marcelo Oliveira e a subsecretária Rafaela Pondé. Rafaela o esse pontapé inicial porque eu fiquei no pé da atual vice-prefeita Ana Paula Matos (PDT), que pediu para Rafaela resolver a questão do Malê.

Ela começou a resolver, o pessoal da secretaria me procurou e a gente começou a dar os passos. Já tem a matriz pedagógica, o horário das aulas, pelo menos os dias das aulas de reforço de português e matemática. A gente praticamente já tem tudo pronto, tudo fechado. Eles só precisam contratar os oficineiros e a parte da diretoria pedagógica sentar e definir quais serão os horários e os dias das aulas de arte, percussão, dança e provavelmente teatro. E começar.

E os professores de matemática e português já foram designados?

Eles serão designados pela diretoria pedagógica da SMED.

Isso é rápido?

Creio que sim, pois já teve concurso depois do meu. E os aprovados foram contratados. Deve ter professor na rede. Quando eu fui lá pedir professores, disseram que o problema está com os oficineiros, que não é com a gente, é com a terceirizada.

–*–*–

Notas de pé de página

[1] A inauguração foi feita nas vésperas da eleição para prefeito, segundo funcionários do bloco. Ela ocorreu na sexta-feira (13/11) e a votação foi no domingo (15/3). Bruno Reis foi eleito em primeiro turno.

[2] O ex-prefeito de Mata de São João saiu na reforma administrativa de janeiro de 2023 por desgaste com os professores. No dia 16, assumiu o atual secretário, o advogado Thiago Dantas. Esse gestor foi advogado da União, lotado na procuradoria federal no Espírito Santo e atuou como consultor jurídico da Marinha, procurador da Fazenda Nacional e analista processual do Ministério Público Federal.

[3] Essa é uma das três versões que circularam. As outras são de uma espécie de Escolab, descartada, e do Projeto Boca de Brasa, mais viável.

–*–*–

Legenda da foto principal: Instrumentos guardados no prédio onde funcionava uma das salas de aulas. Foto: Paulo Oliveira

–*–*–

Para ler a série completa

PARTE I

A Escola Municipal Malê Debalê: auge e declínio Adaptações feita para o bloco virar escola A primeira diretora da Escola Malê Josélio Araújo: “Consegui transformar lixo em luxo” Editorial: Sem transparência a verdade não aparece

PARTE II

Prefeito de Salvador não cumpre promessa feita ao MalêGedalva, ex-diretora da Escola Malê e escritora'Hoje a gente não está dando conta nem de alfabetizar'

Jornalista, editor, professor e consultor, 61 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

follow me
Compartilhe esta publicação:
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sites parceiros
Destaques