A resistência de Lázaro

Professor utiliza o teatro para conscientizar os alunos e mostrar as consequências do racismo

Paulo Oliveira

 

“Negro é uma cor de respeito
Negro é inspiração
Negro é silêncio, é luto
Negro é a solidão
Negro que já foi escravo
Negro é a voz da verdade
Negro é destino, é amor
Negro também é saudade
Um sorriso negro
Um abraço negro
Traz felicidade
Negro sem emprego
Fica sem sossego”

Versos da música “Sorriso negro” [1], de
Adilson Barbado, Jair Carvalho e Jorge Portela,
utilizados na peça “Depois do navio negreiro”.

 

O Quilombo do Cabula, atacado pela polícia em 1807, foi a origem do bairro Beiru, na região central de Salvador. Em 1985, através de um plebiscito, o local passou a se chamar Tancredo Neves na tentativa de desfazer a analogia entre o nome do bairro e a violência. É lá que está situada a Escola Municipal Maria Dolores, que tem capacidade para atender 488 alunos de ensino fundamental 1 e II, regularização de fluxo escolar e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

É no segundo andar do prédio, em uma sala de aula calorenta, onde ninguém queria trabalhar, que o professor de artes cênicas Lázaro Machado dos Santos instalou a oficina de teatro, onde ensaia a peça “Depois do navio negreiro”, com 11 de seus alunos e alunas. O espetáculo será apresentado na Mostra Criativa, que encerra as atividades do ano letivo com apresentações artísticas relacionadas com a lei 10.639.

Quando decidiu montar espetáculos com os alunos, em vez de apenas passar o ano dando aulas de 50 minutos para diversas turmas, em 2011, Lázaro começou a enfrentar dificuldades. A luta que travou para manter a atividade demonstra o esforço pessoal de quem prioriza as questões étnico-raciais.

Antes de continuar a falar sobre o trabalho desenvolvido, vamos deixar o professor contar um pouco de sua história pessoal, com direito a um título.

23 ANOS SEM SE RECONHECER COMO GENTE

“Quando eu era criança, as escolas não tinham as mesmas abordagens de hoje. Elas eram preconceituosas e muito distorcidas. Eu fui educado para endeusar a Princesa Isabel porque ela proporcionou um grande feito para nós, negros. Na época a gente sentia isso, uma gratidão imensa. Nos ensinaram que, se não fosse ela, estaríamos presos na situação de escravizados até hoje.

Isso foi tão forte que passei a infância, a adolescência e parte da vida adulta pensando que, por ser negro, pobre, nenhum espaço me pertencia. Eu não me reconhecia como gente. Eu morava na Engomadeira, em uma área onde tudo era mato. Quando eu chegava em um lugar, sentava no fundo, nunca na frente, porque, a meu ver, ali estava reservado para outras pessoas. Creio que tudo isso tem a ver com o processo de não desconstrução dessas coisas dentro de mim. Por isso, hoje eu tento, ao máximo, valorizar meus alunos enquanto seres humanos.

Se a minha escola tivesse sido igual à que tento fazer hoje, eu não teria me autosabotado tanto e não teria me sentido tão incapaz de fazer as coisas por conta da cor da minha pele e do local onde eu morava.

Mesmo na universidade, eu me sentia assim. Só depois que ingressei no Bando do Teatro Olodum [2]  é que isso mudou. Na companhia teatral, eu fui abrindo minha cabeça. Ali, o que interessava era eu ser preto, eu saber jogar capoeira, eu ser do candomblé. Essas coisas que eram desprezadas em minha vida. Eu tinha 23 anos, quase metade de minha vida, sem me reconhecer como gente.

A partir daí, comecei a minha formação para discutir a temática étnico-racial, assuntos de negritude e autorreconhecimento, enfrentamento e combate ao racismo e à intolerância religiosa”. A conscientização foi reforçada no Balé Folclórico da Bahia, onde Lázaro tinha aula de dança com o bailarino e coreógrafo José Carlos Arandiba, mais conhecido como Zebrinha.

Lázaro conta que, apesar de sua família ter consciência de negritude, fatores externos contribuíam para que ele tivesse autoestima baixa. Fora de casa e do bairro em que morava, ele ficava ressabiado. No grupo de escoteiros ao qual pertenceu, só costumava ser lembrado pelos colegas em competições esportivas que exigiam força física.

ARTE REVOLUCIONÁRIA
Ensaio da peça que será encenada na Mostra Criativa. Foto: Olga Leiria

 A decisão de cursar licenciatura em teatro surgiu em consequência da experiência pessoal de Lázaro. Para ele, seria importante fazer com que os alunos tivessem consciência da negritude desde que entrassem na escola. E nada melhor que a arte para mudar a vida das crianças e adolescentes. Seu maior aprendizado ocorreu nos palcos e não na universidade, onde não havia disciplinas sobre cultura afro-brasileira, por exemplo.

A dedicação à escola fez Lázaro deixar o Bando de Teatro Olodum, em 2007. Atualmente, ele realiza trabalhos eventuais com o grupo.

Após passar por duas unidades – Hildete Bahia e 22 de abril -, o também ator e dançarino se fixou na Maria Dolores. Em seu primeiro ano, Lázaro decidiu encenar a peça “Depois do navio negreiro”:

É uma compilação de vários textos, incluindo o próprio poema [3] de Castro Alves, falas de estudantes e moradores de comunidades e material de pesquisa. Eu, como visionário, vou vendo onde encaixar tudo para fazer uma apresentação bonita” – explica.

A lei 10.639 estava em vigor há seis anos. No entanto, o professor não recebeu nenhum incentivo para desenvolver o espetáculo. Tudo foi iniciativa pessoal, que acabou se transformando em um trabalho diferenciado na rede municipal. Para isso, Lázaro começou a trabalhar com o sistema de oficina de teatro e não no modelo padrão de aula com 50 minutos de duração.

“A secretaria não deu nenhum apoio. Até hoje não dá. O projeto foi adiante porque fiz tudo com o meu dinheiro. Investi em figurino, cenário, Datashow, aparelho de som e uma impressora de DVD. Gravei a peça e enviei para os gestores, solicitando que fosse mantido o modelo de oficina. Assim mesmo, obtive autorização para dividir minha carga de 40 horas, em duas. Metade para oficina, metade em sala de aula, cujo horário considero engessado” – queixa-se

A situação teve uma ligeira melhora a partir de 2013, quando a secretaria, em parceria com a Fundação Gregório de Matos, decidiu criar a Mostra Criativa. O evento, que encerra o ano letivo, reúne trabalhos artísticos relacionados com a lei 10.639. A partir da segunda edição, Lázaro Machado passou a ser um dos diretores do espetáculo, que a cada ano tem diferentes linguagens artísticas. Segundo ele, nesse período, a secretaria municipal de Educação assume todas as despesas da mostra.

PORTFÓLIO

“Depois do navio negreiro” conta a história dos africanos escravizados que foram trazidos para o Brasil pelos colonizadores. As consequências do tráfico humano, os problemas surgidos a partir da diáspora, as leis criadas para desfavorecer a população negra, as condições de como ocorreu a abolição e o extermínio de jovens pretos são abordados no espetáculo, que também agrega dança e música.

Outras duas peças fazem parte do repertório de Lázaro como diretor: “Chicote Mula Manca e Zé Chupança” e “Heranças sagradas da África”. A primeira é uma adaptação do texto de Oscar Von Pfhul. O protagonista é um boiadeiro sertanejo e seus delírios fazem referência ao folclore e à cultura popular. A segunda trata do legado dos africanos em nosso país.

As montagens de Lázaro foram interrompidas durante a pandemia.

“Elas retornaram este ano por minha conta e risco. Muitas vezes, a oficina de teatro é realizada nas minhas horas de folga” – acrescenta

O extermínio de jovens negros é um dos temas do espetáculo. Foto: Olga Leiria

Os 11 atores deste ano são estudantes com idades entre 10 e 16 anos, do 5º ao 9º ano. O professor avalia que a oficina de teatro é o que mais marca os estudantes porque mexe com a história da população negra.

“É a história deles. Esse reconhecimento permite uma compreensão maior. Os meninos e meninas são doutores nessa questão de consciência negra” – diz.

Além da falta de apoio institucional, o também ator e dançarino enfrenta o preconceito religioso. No grupo de WhatsApp, que inclui os jovens e seus pais e mães, ele mandou uma mensagem explicando que haveria uma dança coreografada como uma puxada de rede, em referência a Iemanjá. Um pai ouviu e escreveu “Está repreendido em nome de Jesus. Que dança é essa? No meu tempo da escola a gente rezava o Pai Nosso”.

“Depois do navio negreiro” termina com a música gospel “Campeão vencedor”, escolhida pelo diretor da peça. A canção, segundo Lázaro, tem ligação com a África e mostra que Deus é de todos e não pertence a ninguém.

É hora de ouvir a opinião dos alunos que esperam o ensaio começar. Tímidos, eles hesitam. Insisto: “O que vocês mais gostam nessa experiência?”

Helena, 10 anos, e Matheus, 16, respondem que é a dança.

E o que vocês aprendem?

“A realidade da vida. A enxergar que temos que lutar para alcançar nossos objetivos” – responde o aluno mais velho.

Essa consciência é que faz Lázaro prosseguir em sua caminhada. A ponto de ele não aceitar o convite para assumir a direção de uma escola.

“Não tenho medo de assumir a gestão. Eu não aceitei porque teria que largar os meninos e as meninas aqui. Prefiro continuar na resistência” – afirma.

–*–*–

Notas de pé de página

[1] A composição deu título ao sexto disco solo da sambista Ivone Lara, em 1982. Ela é considerada o maior sucesso da cantora. A música foi regravada por diversos artistas, incluindo Daniela Mercury e o grupo Fundo de Quintal.

[2] Companhia negra mais popular e de maior longevidade na história do teatro baiano. Conhecido nacionalmente, o Bando de Teatro Olodum foi fundado em 17 de outubro de 1990, em Salvador, a partir da parceria entre o diretor Marcio Meirelles e o Grupo Cultural Olodum.

[3] O nome do poema é “Navio negreiro”. Seus versos foram publicados na obra “Os escravos”, em 1868.

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Legenda da foto principal: O professor e ator Lázaro Machado prepara seus alunos para enfrentar o racismo a partir do teatro. Foto: Olga Leiria

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A pauta desta série de reportagens foi selecionada pelo 5º Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e Fundação Itaú.

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Leia a série completa

PARTE I

A lei fracassou?  As estratégias dos movimentos negros O protagonismo dos terreiros e dos blocos afro Yabás em movimento As yabás I - Mãe Hildelice dos Santos

PARTE II

A escola do portão verde As yabás II – Ana Célia da Silva A hora da verdade O longo e desgastante trâmite no Congresso

PARTE III

Assuntos sobre negros importam A resistência de Lázaro Formação continuada na Uneb Escola reflete filosofia africana As yabás III – Vanda Machado O projeto pedagógico Yrê Aió

PARTE IV – FINAL

'Nenhum secretário teve a temática racial como prioridade' O silêncio absurdo de Thiago Remando contra a maré Pesquisa mostra a realidade brasileira Olívia e os novos desafios As yabás IV - Jacilene Nascimento

Paulo Oliveira Administrator

Jornalista, editor, professor e consultor, 60 anos. Suas reportagens ganharam prêmios de direitos humanos e de jornalismo investigativo.

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Respostas de 3

  1. É maravilhosa essa iniciativa, as escolas tem que se fazer valer verdadeiramente esse tema que é tão importante para um país colonizado, logo, racista, onde a cidade mais NEGRA fora da África é Salvado.
    Prof. Lázaro Machado, parabéns!
    ‘Nós Por Nós” ( Ubuntu ). ADUPÉ ( obrigado em idioma Africano)!

  2. Olá… Me chamo Gabriel Araujo, fiz parte das aulas de Teatro dirigidas por Lázaro Machado. O Teatro contribuiu de maneira grandiosa para minha formação como pessoa, me tornando mais consciente sobre minha história, sobre a força que nós carregamos, abrindo os olhos para o mundo que vivemos….

  3. Saudações a todos e todas, me chamo Antonio Jorge, sou servidor público e trabalho a Universidade do Estado da Bahia – UNEB, sou morador deste grande quilombo chamado Cabula. Conheço Lazinho há muito tempo, ele sempre foi e é uma pessoa obstinada, ele bota fé nos seus projetos e é assim: se rola patrocínio ele faz, se não rolar ele dá um jeito, corre atrás e realiza, porque ele acredita.
    Na verdade precisamos de mais Lázaros Machados na periferias.
    Peço os empresários que pensam como fazer algo para a periferia, vejam os projetos que são desenvolvidos nas comunidades e patrocinem, não é favor, é descontado no seu Imposto de Renda.

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