As yabás III – Vanda Machado

Educadora criou Projeto Político Pedagógico da Escola Eugênia Anna dos Santos, que virou referência para implantação da lei 10.639. Colégios particulares também adotaram o sistema

Cleidiana Ramos

A filha de Oxum Vanda Machado é uma ebomi do Ilê Axé Opô Afonjá. Esse posto é para as iniciadas que já completaram seu ciclo de formação no candomblé, uma trajetória em que o tempo formal- sete anos após o primeiro rito de passagem – nem sempre é o tempo real da rotina dessas comunidades religiosas. Uma das primeiras lições no candomblé é que tudo acontece em seu tempo e que a paciência e o silêncio ajudam a escutar as mais velhas que usam a observação dessa obediência ao ciclo propício como principal metodologia. Essas virtudes ajudam a tomar as medidas mais adequadas em uma situação de tensão.

Observando a trajetória de Vanda Machado, a calma diante de uma situação de tensão é o que aflora rapidamente. Doutora em educação, ela é a autora do impressionante Projeto Político Pedagógico Irê Ayó (O caminho da alegria), que foi adotado pela escola Eugênia Anna dos Santos, que funciona no espaço do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, no bairro do Cabula, em Salvador, e ,desde de 1988, integra a rede municipal de ensino.

MEMÓRIA
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Vanda Machado, 81 anos, nasceu em São Felipe, município localizado a 184 quilômetros da capital baiana, no Território de Identidade do Recôncavo Baiano. É filha de Idalina de Cerqueira Machado e Antônio Sinesio Machado. Seu pai, um homem negro, ficou famoso por seu talento para a música. Quando a família mudou para Salvador, o pai se ambientou rapidamente por manejar o órgão na Paróquia da Liberdade, além de desenvolver atividades de teatro.

Foi por meio das instituições católicas que Vanda Machado se aproximou do magistério como catequista. Tanto que no ensino superior escolheu o curso de licenciatura em História.

Estava agora dotada de novas ferramentas para transmitir melhor a sua inquietação com processos que observava no início da sua formação escolar, como o tratamento que era dado de forma diferente às meninas não negras com seus longos cabelos lisos. Segundo Vanda Machado, elas captavam a atenção cuidadosa das professoras.

“Eu não sabia como traduzir, mas aquilo me incomodava. E eu sentia como as meninas negras como eu se retraíam naquele ambiente escolar em meio à timidez que vinha da vergonha, sim, de não ser como aquelas que eram donas de toda a atenção. O racismo no Brasil é perverso” – analisa.

Graduada, Vanda decidiu ter a sua própria escola e assim era fácil moldar o seu ambiente da forma como pensava. Abriu a Joana D´ Arc, localizada em Paripe, no subúrbio ferroviário. Ia tudo bem até que veio o Plano Collor e as mensalidades passaram a atrasar muito o que dificultava mais e mais a manutenção da escola.

Nesse período, ela já estava no caminho do mestrado e via ruir seu plano de pesquisa. Mas orixá dá caminho, embora ela ainda nem tivesse intuído que se tornaria uma pessoa de candomblé. A professora viajou para os Estados Unidos e em uma das muitas articulações, hoje chamadas de aquilombamento, dos movimentos negros. Foi em outro país que conheceu Maria Stella de Azevedo Santos, a quinta ialorixá do Ilê Axé Opô  Afonjá.

Mãe Stella de Oxóssi [1], como era mais conhecida, foi a primeira ialorixá brasileira a entrar na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foi no comando do terreiro, encerrado com a sua morte, em 2018, que começou a surgir o que é hoje a escola Eugênia Anna dos Santos, referência na aplicação da Lei 10.639/2003 porque já colocava em prática as bases da lei antes dela ser debatida e formulada. A líder religiosa tornou real o que era um sonho da primeira ialorixá e fundadora do Afonjá, Eugênia Anna dos Santos, filha de Xangô que dizia que ter anel no dedo era algo para se depositar aos pés desse orixá que é o dono da Justiça.

A creche Obá Biyi, nome sagrado de Mãe Aninha, que pode ser traduzido livremente do iorubá para o português como “o rei nasceu aqui”, surgiu para abrigar as crianças da comunidade do terreiro. Em 1986, cresceu e virou escola. Foi nesse encontro com Mãe Stella nos Estados Unidos que Vanda Machado soube que ela estava procurando novas formas de movimentar o equipamento educacional. Estava ali as bases para a pesquisa da educadora. E a intervenção começou.

“Mas acho que o sucesso da iniciativa foi exatamente fazer algo que incluía a participação da comunidade do terreiro. A ajuda de Mãe Detinha de Xangô foi excepcional. Tanto que, no início, as professoras da escola ainda não participavam”, relata.

O Projeto Pedagógico Político Irê Ayó tem como base os itans e a partir daí o planejamento pedagógico vai incorporando as linguagens das disciplinas do currículo formal às expressões adotadas pelas crianças após estímulo. Um dos exemplos que Vanda gosta de apresentar está ligado a uma das narrativas sobre a criação do mundo.

 

“Oxalá precisa criar a humanidade, mas não sabe bem que material usar. Então Nanã apresenta a ele o barro das lagoas. E assim ele vai moldando a mulher, o homem e gosta do resultado”, diz.

A partir desse itan as crianças da escola montaram as figuras de barro, numa intersecção com artes, mas também debateram como era formado o aparelho digestório no encontro com as ciências. Além disso, no âmbito das linguagens, aprenderam os nomes de diversas partes do corpo em iorubá.

Hoje a preocupação da educadora é traduzir essa e outras experiências que acumula ao longo de uma trajetória solidária, pois as bases do Irê Ayó já foram a quilombos e a ações que ela realiza nas escolas do sistema particular de ensino.

“Eu senti e vi o que o racismo em ambiente escolar faz com a cabeça de uma menina negra e de um menino negro. É preciso dar instrução, mas também ternura. Tem momentos em que é preciso conquistar, ouvir e não desistir, pois às vezes a criança irrequieta só quer ser acolhida. Nem sempre a escola é esse ambiente, inclusive para professoras também. É isso que tenho chamado a atenção e que sinto que precisa de um cuidado especial”.

Vanda Machado segue, batalhando para transformar a educação em um manancial potente e renovador como são as águas de Oxum.

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O ITAN DO DIA
 

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NOTA DE PÉ DE PÁGINA

 [1]  Mãe Stella é autora de obras como “Meu Tempo é Agora” eOxóssi, o caçador de alegrias”, dentre outras.

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Legenda da foto principal: Vanda Machado segue batalhando para transformar a educação. Foto: Paulo Oliveira

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A pauta desta série de reportagens foi selecionada pelo 5º Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e Fundação Itaú.

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Leia a série completa

PARTE I

A lei fracassou?  As estratégias dos movimentos negros O protagonismo dos terreiros e dos blocos afro Yabás em movimento As yabás I - Mãe Hildelice dos Santos

PARTE II

A escola do portão verde As yabás II – Ana Célia da Silva A hora da verdade O longo e desgastante trâmite no Congresso

PARTE III

Assuntos sobre negros importam A resistência de Lázaro Formação continuada na Uneb Escola reflete filosofia africana As yabás III – Vanda Machado O projeto pedagógico Yrê Aió

PARTE IV – FINAL

'Nenhum secretário teve a temática racial como prioridade' O silêncio absurdo de Thiago Remando contra a maré Pesquisa mostra a realidade brasileira Olívia e os novos desafios As yabás IV - Jacilene Nascimento

Cleidiana Ramos Contributor

Cleidiana Ramos é jornalista, mestra em estudos étnicos e africanos e doutora em antropologia. Professora visitante na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), campus Conceição do Coité, produz a coluna semanal Memória, no jornal A Tarde. É especialista em religiões afro-brasileiras e católica. Outro tema que domina são as festas populares baianas.

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